Seguindo os passos de Neruda na Yangun colonial
Internacional|Do R7
Gaspar Ruiz-Canela. Yangun (Mianmar), 17 abr (EFE).- A rua na qual Pablo Neruda viveu em Yangun, a antiga capital birmanesa, entre 1927 e 1928 ainda lembra os tempos coloniais, embora seja pouco provável que a casa onde o poeta chileno morou continue de pé. Os edifícios da época colonial britânica e as fileiras de triciclos parados nas esquinas das ruas lembram a agitação da cidade durante os anos 20, quando o mais tarde nobel de literatura ainda era conhecido por seu nome verdadeiro, Ricardo Neftalí Reyes. "De minhas janelas em Dalhousie Street, o odor indefinível, musgo nos pagodes, perfumes e excrementos, pólen, pólvora, de um mundo saturado pela umidade humana, subiu para mim", escreveu Neruda anos mais tarde em seu poema "O Viajante (1927)". As autoridades birmanesas mudaram o nome da avenida Dalhousie Street para Maha Bandoola que é embelezada pelo templo budista de Sule e a majestosa igreja batista de Emmanuel, prédios retratados nas fotografias em preto e branco que se conservam daquela época. O isolamento e o empobrecimento sofrido por este país asiático durante as décadas da ditadura, que acabou há dois anos, permitiu que muitos dos prédios e vilas coloniais tenham se mantido até o presente, embora os moradores achem que são poucos os que remontam aos anos nos quais Neruda morou em Yangun. "Sim, há alguns edifícios daquela época", afirmou o guarda da mesquita do bairro à Agencia Efe, que, como a grande maioria dos birmaneses, nunca tinha ouvido falar do poeta chileno. Embora sejam atuais, no passado também eram comuns cenas cotidianas de homens vestidos com o típico sarongue - um tipo de saia longa -, que ao falar mostram os dentes avermelhados de tanto mascar nozes de betel misturadas com tabaco, enquanto se movimentam entre as bancas de frutas e de jornais deste bairro. Pablo Neruda tinha completado 23 anos quando em outubro de 1927 chegou a esta cidade que, na época, era considerada a mais cosmopolita do Sudeste Asiático, para ocupar um cargo mal remunerado de cônsul honorário, depois de fazer uma longa viagem marítima do Chile, passando pela Europa até a Ásia. Em sua bagagem levava alguns poemas que já tinha publicado no Chile como "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada" (1924), e nove poemas que passariam a fazer parte de "Residência na Terra" (1935). Mianmar era uma província da colônia britânica da Índia e Yangun era um importante porto comercial e uma das cidades mais desenvolvidas da Ásia com serviços comparáveis aos de várias capitais europeias. No entanto, Neruda não se adaptou ao baixo salário que recebia como cônsul honorário, no calor sufocante da cidade e numa grande solidão, em uma hermética sociedade inglesa com a qual não simpatizou. Chegou acompanhado de seu amigo de infância Álvaro Hinojosa, com quem experimentou as tentações e prazeres das mulheres exóticas, o fumo de ópio e os rituais locais. "É um país bonito, mas cheira a exílio. Logo cansa viver com costumes raros, de deitar-se só com mulheres de cor; de ver diariamente espetáculos de interior inacessível", relatou sobre Mianmar em carta publicada no livro "Neruda e seu Tempo" de David Schidlowsky. No final de 1928, Neruda se sentia fatigado do ambiente de Yangun e queria uma mudança, que nesse mesmo ano lhe concederam, para Colombo, capital da antiga colônia britânica de Ceilão, e, depois para Batavia, a atual Jacarta e capital da Indonésia. O poeta, que recebeu o Prêmio Nobel em 1971, sendo embaixador em Paris, descreveu o Oriente como uma "grande e desventurada família humana" que não teve influência em sua poesia, exceto "na solidão de um forasteiro transplantado para um mundo estrangeiro e estranho", segundo cita Edmundo Olivares em "Pablo Neruda: Os Caminhos do Oriente". Apesar de que sem passar pelo Oriente, como disse Olivares, o poeta nunca teria escrito poemas como "Monção de Maio", "Enterro no Leste" e o "Tango do Viúvo", dedicados à "doce" Josie Bliss, "espécie de pantera birmanesa", com a qual teve uma tórrida relação desgastada pelos ciúmes dela. EFE grc/jt/ma (foto) (vídeo)











