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Testes da Coreia do Norte já são declarações de guerra sem resposta

Especialista afirma que Kim Jong-un seguirá adiante se não houver reação

Internacional|Eugenio Goussinsky, do R7

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Homem parado diante de monitor que analisa os testes, em Tóquio
Homem parado diante de monitor que analisa os testes, em Tóquio

A série de testes que a Coreia do Norte vem promovendo nos últimos meses mostram que o ditador do país, Kim Jong-un, apesar de seu rosto sorridente de urso de pelúcia, não está para brincadeira. Ele sorri como um vilão dos filmes de 007, ao lado de seus asseclas, mas age com a mesma frieza e fúria destas obras, até certo ponto, de ficção. A brincadeira dele, neste momento, é o "seu" arsenal nuclear de estimação. Mas, neste contexto infantil, algo muito sério está por trás, mesmo que tudo isso não passe de um blefe.

Do ponto de vista estratégico-militar, as ações norte-coreanas já passaram do limite da ameaça, na opinião de muitos especialistas, como Ricardo Gennari, professor de inteligência da Fipe (Fundação Estudos de Pesquisas Aplicadas), da Universidade de São Paulo. O lançamento do míssil balístico para transporte de carga nuclear, que atravessou o território japonês, na última semana, foi para ele uma declaração de guerra. E, segundo o especialista, a tíbia resposta ocidental tem alimentado a sensação de onipotência de Jong-un, que assim tenderá a seguir nessa trilha provocativa.


— Esse lançamento que passou por Hokkaido é uma declaração de guerra, pela Convenção de Viena (relativa a tratados). Um míssil atravessou o espaço aéreo de um país.

Nesta segunda-feira (4), a embaixadora norte-americana na ONU, Nikki Haley, disse que o líder norte-coreano está “implorando por guerra” e pediu, neste encontro do Conselho de Segurança, para o grupo de 15 membros impor as sanções “mais fortes possíveis” para detê-lo. Mas, para Gennari, a até agora reação tímida do Ocidente, é, do ponto de vista de estratégia militar, um erro que abre brechas para que o ditador norte-coreano continue a provocação. Ele acredita que a melhor maneira de evitar uma guerra é justamente uma resposta à altura.


— Como reação, o Japão deveria ter usado bateria anti-aérea para interceptar o míssil. Mesmo se não interceptasse, seria interessante, do ponto de vista estratégico, a ação. Na hora que você, na teoria de guerra, fica no mesmo nível que seu inimigo, tem mais condições de negociar de igual para igual.

O atual cenário, acrescido de mais um suposto teste com bomba atômica, anunciado no último domingo (3), só pode ser fruto de duas hipóteses: ou Jong-un sabe que a reação é impossível (devido a fatores geopolíticos) ou ele tem alguém forte por trás (a China, no caso) para tripudiar os inimigos ocidentais, sem se importar que isso se transforme em uma guerra.


No caso da falta de reação ocidental, a não ser por sanções, a ausência de um padrão militar típico de uma guerra convencional, certamente leva em conta um fator predominante nos tempos atuais: revidar diante de uma ameaça nuclear nunca é a mesma coisa. O convencional deixou de existir. E com essa brutal mudança de panorama, Gennari considera que a situação, se não é drástica, deve ser considerada como grave.

— Ele (Jong-un) está testando o outro lado. Em estratégia de guerra é muito comum o inimigo testar o outro para ver onde ele chega. E como o outro não demonstra ir para frente, o inimigo acaba até invadindo o território.


Desde os tempos em que se definiu um armistício para a Guerra da Coreia (1950-1953), o problema estava latente. Na ocasião, a China foi o braço armado dos norte-coreanos e provocou a divisão do país, até então com o apoio soviético, alimentando de vez a Guerra Fria.

Por que a China tem tanta paciência com a Coreia do Norte?

O que ocorre hoje, portanto, é consequência daquele contexto, que nunca foi bem resolvido. E acabou reacendendo devido ao protagonismo econômico chinês, que levou a China a ter mais influência no mundo e vislumbrar o status de potência. Mas, segundo Gennari, nem a China, ao apoiar a Coreia do Norte, inclusive com exportações subsidiadas, imaginaria que a megalomania de seu líder iria tão longe.

— A China estava usando a situação da Coreia do Norte como um balão de ensaio diante do mundo. E estava dando certo. Só que o menino lá ficou bastante rebelde e agora perderam o controle sobre ele.

O que pode salvar o mundo de uma catástrofe, neste caso, é a sensata ideia de que tudo tem limites. Inclusive o protagonismo.

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