Casos de capitã Michele e Stifanie mostram que o feminicídio não escolhe profissão ou classe social
Especialista explica como a manipulação antecede o feminicídio
Minas Gerais|Cler Santos, do R7
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A morte da capitã da Polícia Militar Michele Leão Azevedo, de 41 anos, e de Stifanie Ribeiro Firmino Silva, de 35, escancara duas realidades do feminicídio: a violência doméstica não faz distinção de profissão, cargo ou posição social, e, muitas vezes, são outras mulheres que percebem os primeiros sinais de que algo está errado. Embora as histórias de Michele e Stifanie tenham desfechos trágicos, a especialista reforça que o feminicídio pode atingir qualquer mulher.
Michele era oficial da Polícia Militar de Minas Gerais. Acostumada a lidar com ocorrências e conhecer os mecanismos de proteção às vítimas, ela não conseguiu escapar da violência dentro da própria relação. Já Stifanie só foi encontrada porque uma vizinha estranhou o desaparecimento dela, acionou outras pessoas e ajudou a revelar o crime.
Para a criminóloga Cláudia Pádua, a patente da capitã não seria suficiente para impedir que ela se tornasse vítima de um relacionamento abusivo, já que o feminicídio começa muito antes da agressão física.
“O feminicídio começa na intimidade. A pessoa perversa limita entre o elo da maldade com a crueldade. O crime resulta de uma reação emocional, mas antes existe uma conduta de manipulação”, explica a especialista. Ela ressalta que esse comportamento vai sendo construído ao longo do relacionamento, dificultando que a vítima reconheça o risco.
Segundo Cláudia, esse processo acontece de forma silenciosa e gradual. “O ciclo da violência surge quase imperceptivelmente para a vítima. Ele vem disfarçado de ciúme, de briga, da liberdade cerceada. A situação vai agravando e ela pensa: ‘vou dar mais um tempo, ele vai melhorar’. Só que personalidade não muda, ela se molda ao interesse”, afirma.
A especialista destaca que, justamente por essa manipulação, nem sempre os alertas de familiares e amigos conseguem romper o ciclo da violência. “A mulher só percebe quando realmente está no último instante da violência. Aí ela vai tomar uma providência e, na maioria das vezes, infelizmente, não dá tempo mais”, lamenta.
Mulheres que salvam mulheres
Se Michele não conseguiu ser salva a tempo, o caso de Stifanie evidencia outro aspecto recorrente em situações de violência contra a mulher: a vigilância exercida por amigas, vizinhas, mães e familiares. Foi a preocupação de uma vizinha, diante do sumiço da vítima, que levou à descoberta do corpo dentro do apartamento.
Para Cláudia Pádua, esse comportamento está relacionado ao cuidado que as mulheres costumam desenvolver umas com as outras. “A mulher é sempre mais cuidadosa, mais precavida. A conduta da mulher preza pela amizade, pelo cuidado”, afirma.
Na avaliação da criminóloga, essa rede informal de proteção é fundamental, mas não pode substituir a responsabilidade coletiva de enfrentar a violência de gênero.
“O que está faltando é mais respeito, mais fidelidade, muito mais amor, carinho e afeto. O amor pode até acabar, mas precisam permanecer o respeito, a cumplicidade e o comprometimento”, conclui.
Relembre os crimes
Michele Leão Azevedo
A capitã da Polícia Militar Michele Leão Azevedo, de 41 anos, morreu na noite de segunda-feira (20), após dar entrada no Hospital Odilon Behrens, em Belo Horizonte, com múltiplas lesões e já sem sinais vitais. Ela foi levada à unidade pelo marido, o sargento da PM Eduardo Abner Pereira de Oliveira, de 37 anos, que afirmou aos médicos que a esposa havia caído da escada do apartamento onde o casal morava, no bairro Palmares, na região Nordeste da capital.
A versão, no entanto, passou a ser questionada depois que a equipe médica identificou diversos hematomas e ferimentos incompatíveis, a princípio, com uma queda acidental. A Polícia Militar foi acionada e iniciou as diligências ainda durante a noite.
Imagens das câmeras de segurança do prédio registraram o momento em que Eduardo deixa o apartamento levando Michele até a garagem antes de seguir para o hospital. Durante as buscas no imóvel, os militares encontraram vestígios de sangue em diferentes cômodos, um bastão de madeira quebrado e roupas que teriam sido lavadas na máquina após os fatos.
Em entrevista coletiva, a Polícia Militar informou que os levantamentos iniciais apontam indícios de um relacionamento abusivo entre o casal. Segundo a corporação, a investigação também identificou registros anteriores de agressões envolvendo os dois. Eduardo foi preso e encaminhado ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), onde o caso é investigado pela Polícia Civil.
A defesa do sargento nega que Michele tenha sido vítima de agressões e sustenta que os ferimentos decorreram da queda da escada e de práticas sexuais consensuais do casal. A versão, entretanto, é contestada pela família da capitã, que cobra o esclarecimento completo dos fatos e afirma confiar no trabalho da perícia para apontar o que aconteceu dentro do apartamento.
Stifanie Ribeiro
Poucas horas antes, outro caso mobilizou equipes da Polícia Militar e da Polícia Civil na região Oeste da capital. Stifany Ribeiro Firmino Silva, de 35 anos, foi encontrada morta dentro do apartamento onde morava, no bairro Camargos.
A descoberta ocorreu depois que vizinhos estranharam o desaparecimento da mulher, sentiram um forte odor vindo do imóvel e decidiram abrir uma das janelas. O corpo foi localizado sobre a cama, já em estado de decomposição, enquanto diversos objetos da residência estavam revirados.
Segundo relatos de moradores, um homem frequentava o apartamento com frequência e foi visto deixando o local por volta das 11h35 de segunda-feira carregando duas malas. A suspeita é de que ele tenha permanecido no imóvel durante dias mesmo após a morte da vítima. Mensagens trocadas entre Stifany e uma vizinha também levantaram suspeitas. De acordo com pessoas próximas, alguém teria respondido às mensagens utilizando apenas texto. Quando a vizinha pediu uma prova de vida, não houve mais qualquer retorno.
Amigos informaram ainda que Stifany trabalhava em um supermercado, estava afastada por atestado médico havia cerca de dez dias, fazia acompanhamento psiquiátrico e morava sozinha desde a morte da mãe, em outubro do ano passado.
O homem apontado por testemunhas como namorado da vítima se apresentou espontaneamente ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) nesta terça-feira e confessou o crime. Ele foi preso pela Polícia Civil, que segue investigando as circunstâncias da morte.
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