PC conclui inquérito e aponta que empresária morta em BH já vivia relação abusiva marcada por violência
Delegada afirma que vítima sofria controle, ameaças e desejava se separar
Minas Gerais|Vinicius Araújo, da RECORD Minas e Cler Santos, do R7
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A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) concluiu o inquérito que investigou o feminicídio da empresária Lídia Nandes, de 42 anos, assassinada a tiros no dia 17 de maio, na Praça Manoel Bandeira, sob o Viaduto Murilo Rubião, no bairro Cidade Nova, região Nordeste de Belo Horizonte.
Embora o autor, de 49 anos, tenha cometido suicídio minutos após o crime, o que extingue a punibilidade, a investigação reconstruiu toda a dinâmica da violência e confirmou que o caso se trata de feminicídio. “Era um relacionamento abusivo, totalmente conturbado. Ela desejava se separar, havia brigas e um controle excessivo por parte dele”, afirmou a delegada Ariadne Elloise Coelho.
Segundo a investigação, a relação de 16 anos era marcada por violência psicológica, ciúmes excessivos, comportamento possessivo e ameaças. Conforme a delegada, familiares relataram que a vítima era impedida de manter redes sociais e de ter interações fora do relacionamento.
Além disso, ela já havia contado a pessoas próximas sobre um episódio de violência sexual praticado pelo companheiro e manifestava o desejo de colocar fim ao casamento. Apesar disso, nunca registrou boletins de ocorrência nem solicitou medida protetiva. “A ausência de registros formais não significa ausência de violência ou de sofrimento”, ressaltou Ariadne.
As apurações também apontaram que o crime foi cuidadosamente planejado. Na manhã do feminicídio, Lídia fazia exercícios quando foi surpreendida pelo marido. Mesmo levantando as mãos em sinal de rendição, ela foi atingida por 12 disparos de arma de fogo. Testemunhas relataram que o autor chegou a recarregar a pistola antes de continuar atirando. Após o assassinato, ele deixou um bilhete indicando onde estava o carro, caminhou cerca de 400 metros e tirou a própria vida.
De acordo com a Polícia Civil, exames toxicológicos e de alcoolemia descartaram o consumo de álcool ou drogas pelo autor, reforçando a conclusão de que ele agiu de forma consciente e premeditada. Antes do crime, ele enviou mensagens a familiares e ao grupo do condomínio onde morava e escreveu uma carta de seis páginas com orientações sobre os bens da família, as filhas e a justificativa que atribuía ao assassinato.
A delegada destacou, no entanto, que a alegação feita por ele de uma suposta traição não interfere na caracterização do crime. “Mesmo que existisse, isso não ameniza, não atenua e não descaracteriza o feminicídio”, afirmou.
As investigações ainda revelaram que o homem era CAC (Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador) desde 2018 e utilizou uma pistola registrada em seu nome para cometer o crime e, em seguida, o suicídio. No veículo dele, os policiais encontraram uma segunda arma de fogo, que não chegou a ser utilizada.
Segundo Ariadne, relatos de testemunhas indicam que ele costumava andar armado, prática incompatível com as regras de transporte de armas para atiradores esportivos.
Ao apresentar a conclusão do inquérito, a delegada reforçou que o caso deixa duas filhas órfãs — uma criança e uma adolescente — e serve de alerta para situações de violência psicológica que muitas vezes permanecem invisíveis. “A sociedade precisa acolher essas mulheres sem julgamento, acreditar nos relatos e orientá-las a buscar ajuda. Quanto mais cedo esses sinais forem identificados, maiores as chances de interromper esse ciclo de violência antes que ele termine em feminicídio”, concluiu.
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