Maria D’Apparecida substituiu Maria Callas em Paris, mas, no Brasil, foi ignorada por ser negra
A história da cantora lírica que pouca gente conhece, mas que é símbolo do racismo nacional
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Este ano eu me vi diante de um desafio: ser uma pessoa com milhares de seguidores. E eu consegui, viu! Saí de 4 mil para quase 30 mil em um semestre.
O que eu fiz? O que sempre faço: contar histórias. Busquei juntar minha maneira de escrever para a televisão com a sede de dopamina dos usuários das redes sociais.
Faltava encontrar os enredos perfeitos, até que me deparei com Maria d’Apparecida. Tenho certeza de que você nunca ouviu falar dela. Era uma mulher negra, órfã, que tinha uma voz espetacular — e era também muito bonita.
A sorte sorriu para ela: com a morte da mãe, que era faxineira, os patrões a educaram como filha. Fez aulas de francês e piano, e diplomou-se no conservatório de música.
Como gostava de arte, trabalhou como locutora e atriz nas grandes rádios cariocas e concorreu em festivais. Venceu o concurso de estreantes da Imprensa Brasileira, o que a colocou nos holofotes e pertinho do Teatro Municipal. Maria desejava ser cantora lírica.
Ela estreou na ópera Carmen. Tinha o talento, a experiência e a voz forte e impecável. Fez apresentações belíssimas; tinha nascido para o canto lírico e dominava o idioma.
A única coisa que Maria não tinha era a pele branca. A elite carioca do século passado não achou correto uma cantora negra fazer o papel de Carmen, uma europeia. Isso fechou as portas do teatro para Maria, que não viu outra alternativa senão fugir desta terra.
No Velho Mundo, adotou o nome artístico que a consagrou: Maria d’Apparecida. Ela não só cantou a ópera Carmen em Paris, como substituiu ninguém menos que Maria Callas.

Em terras europeias, nossa brasileira não encontrou resistência. Fez grandes amizades, como o pintor Pablo Picasso. A Europa lhe deu o abraço que nós negamos, e lá ela ficou.
Fez pouca coisa no Brasil; chegou a cantar por aqui em pequenas ocasiões. Com a morte da família e sem trabalho na Europa, Maria passou por dificuldades financeiras e morreu pobre.
Os fãs pagaram um enterro digno para ela. Em 2026, ela faria 100 anos. Representa um pedaço obscuro do nosso país, que não olha com igualdade para seus filhos, mas também é terra de gente que não desiste fácil. Maria alcançou seus sonhos porque não desistiu e teve fé na vida.
Apesar de triste, Maria me revelou um Brasil diferente. A história dela chegou a centenas de milhares de pessoas, e boa parte se indignou. Acharam um absurdo o boicote à cantora; outra parte gostou de vê-la fazendo sucesso na Europa; e outra ficou triste ao saber que, no fim da vida, ela viveu esquecida e sem dinheiro.
Vivemos em um país em transformação e cheio de gente boa, que não quer mais ver o povo negro ter seus talentos ignorados. Uma pena que Maria não esteja viva para assistir a esse movimento.
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