Culpa e suicídio: por que nos sentimos responsáveis pela perda?
O suicídio não tem um único motivo, mas o luto pode nos levar a acreditar que poderíamos ter mudado tudo.
Ciência para o Dia a Dia|Priscila Klein

Ao falarmos de luto, o tópico que mais surge entre aqueles que perderam seus entes queridos é a culpa. Culpa de não ter amado mais, beijado mais, brigado menos... sentimentos tão válidos quanto a tristeza da perda. Mas, e quando o assunto é suicídio? A culpa é a mesma?
Nesse caso, a culpa deixa de ser apenas culpa e se transforma em remorso. É a convicção quase delirante de que, se você tivesse feito ou dito isso ou aquilo, ou percebido determinados sinais, tudo poderia ter sido diferente. É a crença incondicional, a certeza pétrea, a fé inabalável de que você seria o salvador, a força providencial, o colosso protetor.
Se olharmos de perto, perceberemos que esses são sentimentos ambíguos. De um lado, suportamos a tristeza empática pela perda de alguém que tinha muito a viver. De outro, temos a dolorosa percepção da nossa insignificância, o reconhecimento de que não, nós não somos a força providencial de ninguém.
Dar-se conta disso fere profundamente o ego, a ponto de os psicanalistas, poeticamente, chamarem de ferida narcísica. Seja lá o que isso signifique para eles, visto de fora faz sentido.
Pois bem, deixando de lado toda a potência narcísica desses sentimentos, será que algo poderia ser diferente?
Responder a essa pergunta não é tarefa fácil, tampouco existe uma resposta única, assim como acontece em todas as questões que envolvem o suicídio. Ainda assim, para tentar respondê-la, é preciso dar um passo atrás e procurar entender os motivos do suicida. E aqui já adianto: não existe um único motivo. Os motivos, no plural, são muitos e não se restringem ao que uma única pessoa poderia ter feito para mudar o rumo das escolhas de quem decide tirar a própria vida.
Esses motivos fazem parte de uma construção que vai das menores moléculas e átomos que constituem a biologia do nosso ser até o nível mais amplo da vida em sociedade. Nós, seres humanos, somos biopsicossociais: biológicos, psicológicos e sociais, e esses três fatores devem ser considerados.
Sociólogos contemporâneos afirmam com veemência que nossa sociedade, apesar de aparentar um positivismo exagerado, produz indivíduos cada vez mais exaustos e descontentes. Somos constantemente forçados a ver o lado positivo das coisas, a não nos deixarmos abalar por questões “triviais”, a suprimir qualquer sentimento negativo.
Não é preciso ser especialista em psicologia para perceber que essa fórmula não funciona. Essa dinâmica social cria indivíduos que cobram cada vez mais de si mesmos, tornando-se seus próprios carrascos. O problema é que jamais atingiremos esse nível de perfeição, essa utopia inalcançável. E o que acontece? Isso mesmo: transtornos psiquiátricos e, muitas vezes, o suicídio.
Agora, imagine uma criança que já carrega vulnerabilidades geneticamente herdadas em um ambiente familiar que não oferece recursos emocionais básicos, como o simples reconhecimento da tristeza, da raiva ou da frustração. Essa criança vai crescer nessa sociedade, relacionar-se com pessoas tão vulneráveis quanto ela, com manejos emocionais tão frágeis quanto os dela e voilà: eis a complexa e “simples” receita do suicídio.
Com isso em mente, voltemos à questão inicial: poderia ser diferente? Minha resposta é sim, poderia! Apesar do caminho mórbido até aqui, acredito que poderia. Mas não por meio desse modelo narcísico de salvador divino, e sim por meio de um projeto de sociedade em que cada um faça a sua parte. Pais precisam ensinar seus filhos a lidar com sentimentos negativos. E, antes disso, esses pais precisam aprender a fazer isso consigo mesmos.
Enquanto a sociedade caminha para essa transformação, cabe a nós agirmos individualmente. Tornar-nos-emos sencientes e conscientes. Passaremos a questionar o que fazemos, por que compramos o que compramos, por que desejamos o que desejamos, por que idolatramos o que idolatramos... e então, sim, mudar. A temida e necessária mudança: é assim que podemos fazer diferente. Que tal começarmos juntos hoje mesmo?

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