O que acontece se Donald Trump não reconhecer a vitória de Lula na eleição
Presidente americano questiona votação sem apresentar provas, mas não deixa claro se reconhece o resultado
Encurtando Distâncias|Mathias Brotero, de Washington, D.C.
Donald Trump rompeu o silêncio sobre a vitória de Lula (PT), mas deixou em aberto se reconhece o resultado. Antes de embarcar no avião presidencial, nesta segunda-feira (26), o presidente americano afirmou, sem apresentar provas, que a votação brasileira pareceu corrupta e fraudada.
Trump disse que não apoiou nenhum dos candidatos e que gosta de Lula, mas criticou a apuração e a prorrogação do horário de votação. Questionado sobre possíveis medidas, respondeu que governa os Estados Unidos, não o Brasil.
As declarações questionam a credibilidade do processo eleitoral, mas não explicitam uma decisão de rejeitar o resultado.
“Caso Trump se recuse explicitamente a reconhecer o resultado, poderemos ter uma crise diplomática importante, sobretudo porque essa posição poderia estimular a contestação interna da eleição”, afirma Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da ESPM, consultado antes das declarações.
Segundo ele, Washington poderia usar esse questionamento para pressionar Brasília, agravando tensões comerciais e dificultando negociações em áreas como segurança, tecnologia e minerais críticos.
“O reconhecimento americano não é necessário para conferir legitimidade à vitória de Lula, que decorre das instituições e da legislação brasileiras. Tampouco sua ausência implicaria automaticamente o rompimento das relações diplomáticas entre os dois países”, ressalta.
Para Trump, o custo de uma crise
Um diplomata brasileiro ouvido pelo blog sob condição de anonimato também, antes da manifestação de Trump, destacou que existe uma diferença entre deixar de enviar uma mensagem de parabéns e rejeitar formalmente a legitimidade do governo brasileiro. E reforçou que, mesmo sem um reconhecimento oficial, é possível manter os contatos institucionais e o comércio.
Ele avalia ainda que confrontar o Brasil ofereceria poucos benefícios ao presidente americano às vésperas das eleições de meio de mandato, que definirão o controle do Congresso.
Uma nova crise poderia gerar desgaste político, uma vez que eleitores de Trump reclamam que o presidente está muito focado em disputas com outros países.
Uma escalada também poderia levar a restrições comerciais e afetar o fornecimento de produtos brasileiros importantes para o mercado americano, como a carne.
Do ponto de vista geopolítico, o risco seria aproximar ainda mais o Brasil da China, seu principal parceiro comercial, contrariando os esforços de Washington para conter a influência de Pequim.
Para Rubio, um revés regional
Para o secretário de Estado, Marco Rubio, o resultado teria um peso diferente. Segundo o diplomata, a reeleição de Lula frustra a expectativa de ampliar o alinhamento de governos sul-americanos à direita e a Washington. Sem o Brasil, que ocupa quase metade do território sul-americano, esse projeto perde uma peça central.
Essa estratégia se insere na chamada “Doutrina Donroe”, releitura da Doutrina Monroe voltada a reforçar a influência americana no continente. Uma de suas iniciativas é o Escudo das Américas, que reúne aliados de Washington para compartilhar inteligência e coordenar ações contra o crime organizado. O Brasil não participa do grupo.
Oportunidade para concessões
Apesar das divergências políticas, o fim da eleição pode ajudar a destravar impasses, segundo o diplomata. Uma possibilidade é o Brasil conceder o agrément, o consentimento para receber um embaixador indicado por outro país, ao americano Daniel Perez, e Washington restabelecer o visto da embaixadora brasileira, Maria Luiza Viotti. Os Estados Unidos já haviam vinculado as duas questões, e Lula havia dito que analisaria o aval depois das eleições.
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