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Parece, mas não é: a disputa pelo domínio das manifestações do Dia do Trabalho

O ano era propício para uma grande festa, uma vez que se avizinhava a eleição. Mas Getúlio não queria deixar o poder

Heródoto Barbeiro|Heródoto Barbeiro

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Getúlio Vargas em evento do Dia do Trabalhodia do Reprodução/Arquivo Nacional

A disputa pelo domínio das manifestações do Dia do Trabalho começa muito antes do dia primeiro de maio. O governo, a direita e a esquerda se engalfinham para aproveitar a data comemorativa e transformar o movimento popular em apoio às suas teses.


O governo anda em uma corda bamba. Busca contatos que permitam costurar um discurso que não desagrade aos partidos e movimentos populares. A comemoração é recente no Brasil e nasce atrelada ao anúncio de decretos que regulamentam o trabalho, como 48 horas por semana, Justiça do Trabalho, férias remuneradas e outras leis consideradas conquistas das bases operárias.

É verdade que empregados domésticos não são lembrados. Antes que os movimentos políticos pressionem o empresariado urbano, o governo federal se antecipa. O proletariado rural também é esquecido. A reação do agronegócio é poderosa no Congresso Nacional.


Por trás de comemorações, discursos, desfiles, medalhas, falatórios, marchas de militares e escolas, está uma luta ideológica. A esquerda prega que são os operários que vão se organizar para pôr o capitalismo abaixo e acabar com o regime de exploração do homem pelo homem.

É preciso acabar com um sistema responsável pela usurpação da mais-valia, ou seja, o excesso de produção que é apropriado e acumulado pela burguesia. O exemplo está nos países do Leste Europeu.


Do outro lado, a visão dos que acreditam que é possível acabar com a luta de classes entre proletários e burguesia. Basta organizar o trabalho, atender a algumas reivindicações operárias, criar corporações que liberem quem tem o direito de exercer certa profissão.

Para isso, é preciso se associar e obter uma carteirinha. Qualquer pisada na bola, como greve, paralisação ou depredações de bens, resulta em perda da inscrição e fica a impossibilidade de encontrar outro emprego.


O local para a realização do comício de 1º de Maio se tornou um ícone na cidade. Ninguém imaginava que ele poderia mudar de lugar para atender às pressões dos partidos de oposição.

A cidade, a mídia e os políticos, que querem aparecer como verdadeiros papagaios de pirata, sabem de cor o caminho. Ou melhor, usam e abusam dos carros de chapas especiais, e seus motoristas não erram nunca, sob pena de perderem um emprego conquistado a duras penas por indicação de um chefe político.

O discurso mais aguardado, sem dúvida, é o do presidente da República. Pode render a capa dos jornais do dia seguinte. Sabedor disso, o chefe do Executivo leva no bolso um decreto que vai assinar com pompa e circunstância — e talvez a caneta presidencial vá parar na estante de algum museu da República.

O ano é propício para uma grande festa, uma vez que se avizinha a eleição. Ele não quer deixar o poder, mesmo depois de tanto tempo, e ser acusado de populista, ditador e até de… fascista!

O estádio de futebol de São Januário, do Vasco da Gama, lota com sindicalistas atrelados ao governo federal, conhecidos carinhosamente como pelegos.

Colégios desfilam uniformizados, hinos patrióticos são entoados e, finalmente, o ditador Getúlio Vargas assina mais um decreto que organiza a relação do trabalho no Brasil. Assim, pode impedir a luta de classes tão bem combatida pelo seu inspirador italiano.

* Prof. Heródoto Barbeiro âncora do Jornal Nova Brasil, colunista do R7, apresentou o Roda Viva na TV Cultura, Jornal da CBN e Podcast NEH. Tem livros nas áreas de Jornalismo, História. Midia Training e Budismo. Grande prêmio Ayrton Senna, Líbero Badaró, Unesco, APCA, Comunique-se. Mestre em História pela USP e inscrito na OAB. Palestras e mídia training. Canal no Youtube “Por Dentro da Máquina”, www.herodoto.com.br

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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