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Vacinar ou não as crianças?

Heródoto Barbeiro|Heródoto Barbeiro, da RecordNews

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Vacinar ou não as crianças?
Vacinar ou não as crianças?

A população está dividida. Uma parte apoia o projeto do governo. Outra parte é absolutamente contra. A oposição entra na parada, incentiva protestos populares, e de quebra avalia a possibilidade de derrubar o presidente da república. De quebra o país vive uma crise econômica sem precedentes com inflação e baixo crescimento econômico.

Tudo leva a crer, dizem os jornais em gritantes manchetes, que o governo vai cair, uma vez que o chefe do executivo é fraco e o responsável pelo projeto de vacinação contra a pandemia não pode se quer aparecer em público na capital da república. Os saudosistas dos governos militares estão de tocaia para tentar um assalto ao poder assim que a situação degenerar para uma ameaça de confronto nas ruas das principais cidades brasileira.

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Estrangeiros chegados ao Brasil não sabem se devem ou não apresentar atestado de vacinação dos seus países de origem. Uns exigem o passaporte da vacina, outros não. Enfim o que deveria ser uma política pública de saúde se transforma em uma querela política que ninguém sabe exatamente onde vai parar.

A desinformação ganha amplos espaços na mídia e nas conversas de bares e cafés. Não há local público frequentado pela classe média que não se debata a eficácia da vacina. A maior parte dos palpiteiros não tem o mínimo conhecimento técnico, mas opinam como se fossem infectologistas com pós-doutorado.

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As mais exóticas narrativas tomam conta de parte da opinião pública em uma mistura de ciência e ficção como nunca vista na história deste país. A opinião é livre, os editoriais, artigos e reportagens dos jornais também. Os ânimos exaltados saem do campo racional e parte para a pura e simples ignorância.

O que mais assusta a população é que a tal vacina e feita do próprio vírus que provoca a doença, injetado no corpo através de agulha. O governo reafirma que é preciso vacinar para estancar a epidemia que veio do exterior e faz muitas vítimas no Brasil.

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Os hospitais estão superlotados e o número de morte chega a 30% dos contaminados. Não há leitos disponíveis para todos, e uma boa parte dos infectados jazem nas portas dos hospitais, ou isolados em suas casas. É preciso por um ponto final e aderir a um movimento mundial de vacinação. Não há outra saída dizem os médicos.

Ninguém imagina que o início da vacinação obrigatória, aprovada pelo Congresso Nacional, posa provocar uma reação tão forte. Populares e políticos responsabilizam o presidente e o responsável pela saúde pública. O jovem médico assegura ao presidente que terminará com a febre amarela em 3 anos.

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O sanitarista Oswaldo Cruz é nomeado chefe da Diretoria de Saúde Pública. Cruz assume o cargo em março de 1903: "Dêem-me liberdade de ação e eu exterminarei a febre amarela dentro de três anos”. Oswaldo Cruz é o principal incentivador da vacinação em massa contra a varíola, que entre outras coisas, dá ao Rio de Janeiro o título de cemitério dos estrangeiros.

Há produção da vacina no Brasil. A reação explode no ano seguinte. Militares, políticos, operários, funcionários e arruaceiros de toda espécie partem para a depredação da cidade. O presidente Rodrigues Alves mobiliza tropas federais e há 3 dias de conflitos na capital do país. O saldo é de 945 prisões, 461 deportados, 110 feridos e 30 mortos em menos de duas semanas de confrontos na ruas com prédios e transporte público depredados. O governo se dobra e desiste da obrigatoriedade de vacinação. Vence a ignorância.

* Heródoto Barbeiro é jornalista do R7, Record News e Nova Brasil FM

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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