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Luiz Fara Monteiro

Como o clima brasileiro influencia a manutenção dos aviões

Fabricantes desenvolvem programas de manutenção baseados nas características de cada frota e nos requisitos de aeronavegabilidade

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O clima brasileiro, com suas variações de umidade, temperatura e salinidade, impacta diretamente a manutenção das aeronaves.
  • Fabricantes e companhias aéreas desenvolvem programas de manutenção específicos para lidar com os desafios climáticos e preservar a integridade estrutural das aeronaves.
  • Condições como corrosão e desgaste térmico são monitoradas através de inspeções detalhadas e técnicas de Ensaios Não Destrutivos.
  • A adaptação da manutenção às condições climáticas é essencial para garantir a segurança e prolongar a vida útil das aeronaves no Brasil.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Condições climáticas brasileiras representam um desafio contínuo para a preservação das estruturas aeronáuticas Vinicius Magalhães

Para quem não é especialista da área, pode até não parecer, mas o clima exerce influência direta sobre a manutenção das aeronaves. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, onde um mesmo avião pode operar pela manhã em uma região litorânea, à tarde em uma área de clima seco e, poucas horas depois, enfrentar chuvas intensas ou elevadas temperaturas, as condições ambientais passam a fazer parte da estratégia de engenharia que garante a segurança operacional dos voos.

Mais do que uma variável meteorológica, calor, umidade, salinidade e variações bruscas de temperatura aceleram o desgaste natural de componentes e exigem inspeções específicas ao longo da vida útil da aeronave.


Por isso, fabricantes, companhias aéreas e oficinas certificadas pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) desenvolvem programas de manutenção baseados nas características operacionais de cada frota e nos requisitos de aeronavegabilidade contínua.

Segundo Glaysson Henrique da Rocha Cruz, engenheiro de produção especialista em manutenção aeronáutica e integridade estrutural de aeronaves, profissional certificado FAA A&P, inspetor de Controle de Qualidade e Ensaios Não Destrutivos (NDT) Nível II, com atuação em conformidade com requisitos FAA e ANAC, as condições climáticas brasileiras representam um desafio contínuo para a preservação das estruturas aeronáuticas.


“Em ambientes tropicais e, principalmente, em regiões costeiras, a combinação de elevada umidade, variações de temperatura e deposição de cloretos provenientes da atmosfera marinha cria condições favoráveis ao desenvolvimento de processos corrosivos. Quando a umidade atua como eletrólito, os sais depositados aceleram reações eletroquímicas que podem resultar em corrosão por pites, corrosão em frestas, corrosão galvânica e degradação sob revestimentos protetivos. Áreas próximas a fixadores, lap joints, cavidades, pontos de drenagem e interfaces entre metais diferentes exigem atenção especial. Por isso, são fundamentais programas sistemáticos de prevenção e controle da corrosão. Afinal, a corrosão é um processo progressivo e inevitável em aeronaves expostas a ambientes operacionais severos. Para controlar esse fenômeno, fabricantes como Boeing, Airbus, Embraer, Bombardier e ATR desenvolveram programas específicos denominados Corrosion Prevention and Control Program (CPCP)”, explica.

O objetivo do CPCP não é apenas identificar corrosão existente, mas monitorar sua evolução ao longo da vida útil da aeronave, evitando que pequenos danos evoluam para comprometimentos estruturais significativos.


Além de inspeções visuais detalhadas e métodos de Ensaios Não Destrutivos, para identificar perda de material, trincas associadas à corrosão e outros sinais de degradação antes que afetem a resistência residual ou a integridade estrutural do componente.

Além dos processos corrosivos, a amplitude térmica entre as operações em solo e o ambiente de voo submete os componentes da aeronave a ciclos repetitivos de aquecimento e resfriamento. As variações dimensionais decorrentes da expansão e da contração dos materiais podem gerar tensões adicionais em regiões de concentração de carga, interfaces, fixadores, juntas coladas e sistemas de vedação.


Quando associadas aos carregamentos cíclicos e às vibrações de voo, essas condições favorecem a fadiga, a degradação de selantes e a perda de estanqueidade. Temperaturas elevadas, radiação ultravioleta, umidade e exposição ao ozônio também aceleram o envelhecimento de elastômeros, mangueiras, isolamentos de chicotes elétricos e outros materiais poliméricos.

Outro fator relevante é a elevada incidência de tempestades e descargas atmosféricas. Embora as aeronaves sejam projetadas com sistemas de proteção, continuidade elétrica e caminhos controlados para a condução da corrente, um lightning strike pode produzir marcas nos pontos de entrada e saída da descarga, pitting, queimaduras, fusão localizada e até perfurações em revestimentos metálicos. Também podem ocorrer danos em elementos de bonding, selantes, antenas, descarregadores estáticos, sistemas elétricos e equipamentos aviônicos.

“Em estruturas fabricadas com materiais compostos, os danos podem incluir degradação da resina, ruptura de fibras e delaminações internas que nem sempre são perceptíveis visualmente. Após uma descarga confirmada ou suspeita, é necessário realizar uma inspeção conforme os procedimentos do fabricante, abrangendo possíveis pontos de entrada e saída, superfícies de controle, radome, antenas e áreas de junção estrutural. Dependendo da região afetada, podem ser exigidos Ensaios Não Destrutivos para determinar a extensão real do dano antes da liberação da aeronave para o serviço”, pontua Glaysson.

Casos registrados pela própria indústria demonstram como as condições ambientais influenciam diretamente a manutenção aeronáutica.

Em 2019, a Embraer convocou aproximadamente 150 aeronaves executivas Phenom 300 para inspeções preventivas após identificar indícios de corrosão em componentes do sistema de controle de voo.

A fabricante reconheceu que o ambiente de operação era um dos fatores que poderiam acelerar esse tipo de desgaste, reforçando a importância de programas de inspeção adaptados às condições climáticas.

Para identificar precocemente esses problemas, a manutenção aeronáutica utiliza tecnologias de inspeção que permitem avaliar estruturas sem causar danos ao equipamento. Técnicas de Ensaios Não Destrutivos (END), como ultrassom, correntes parasitas (Eddy Current), líquidos penetrantes e partículas magnéticas, possibilitam detectar trincas, corrosão e outras descontinuidades antes que evoluam para falhas estruturais.

Segundo Glaysson, a segurança da aviação depende justamente dessa abordagem preventiva. “Na manutenção aeronáutica, não esperamos que o componente apresente uma falha. O objetivo é identificar qualquer alteração ainda em estágio inicial. O clima influencia diretamente a velocidade desse desgaste, por isso os programas de inspeção precisam considerar não apenas as horas de voo, mas também o ambiente em que a aeronave opera”, afirma.

As normas de aeronavegabilidade continuada, estabelecidas pelos fabricantes e fiscalizadas pelas autoridades aeronáuticas, como a ANAC e a FAA, determinam que as aeronaves permaneçam em condições seguras de operação durante toda a sua vida útil. Isso inclui inspeções periódicas, cumprimento rigoroso dos programas de manutenção e, quando necessário, ações adicionais compatíveis com as condições operacionais enfrentadas pela aeronave.

Em um país com grande diversidade climática como o Brasil, adaptar a manutenção às condições ambientais é uma etapa essencial para preservar a confiabilidade das aeronaves, prolongar a vida útil dos componentes e manter os elevados padrões de segurança que caracterizam a aviação civil.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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