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Luiz Fara Monteiro

Pilotos portugueses se opõem à privatização da TAP pela alemã Lufthansa

Aviadores alegam práticas consideradas “antissindicais” dentro do grupo alemão, que enfrenta onda de greves

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Sindicato dos Pilotos Portugueses: alerta sobre a participação alemã na TAP William Alves

O sindicato dos pilotos portugueses, SPAC, se posiciona contra a privatização da TAP pelo grupo alemão Lufthansa e alerta para os riscos sociais e operacionais da entrada da Lufthansa no capital da companhia aérea. O Sindicato alerta para a “cultura de trabalho” do Grupo Lufthansa. Em carta dirigida ao governo português, os pilotos denunciam práticas consideradas “antissindicais” dentro do grupo alemão, que já enfrenta uma onda de greves e o fechamento acelerado de sua subsidiária regional CityLine. Os aviadores afirmam que a participação na TAP pela Lufthansa pode comprometer a paz laboral e a eficiência do hub de Lisboa.

Um processo de privatização altamente regulamentado


O governo português lançou um processo de privatização minoritária da TAP, com a venda de até 49,9% do capital da empresa, dos quais 5% seriam reservados principalmente para os funcionários, enquanto o parceiro industrial ficaria com apenas 44,9%. Em contrapartida, informa o Air Journal, Lisboa exige que o centro de operações da empresa permaneça na capital e que uma rede de rotas considerada estratégica para a economia e a conectividade do país seja mantida e desenvolvida.

Após a fase de pré-qualificação, a Parpública, holding pública responsável pela operação, convidou diversos grupos europeus a apresentarem propostas não vinculativas. O prazo, fixado para 2 de abril, resultou em duas propostas detalhadas, apresentadas pela Air France-KLM e pela Lufthansa, enquanto a IAG (controladora da British Airways e da Iberia) desistiu, considerando que uma participação minoritária não se alinhava à sua estratégia de adquirir uma participação majoritária.


Pilotos a favor da privatização, sob certas condições.

A SPAC não se opõe ao princípio da privatização da TAP, mas estabelece salvaguardas claras. “Somos a favor da reprivatização da TAP, desde que os potenciais compradores demonstrem sólida adequação em três pilares fundamentais: técnico, financeiro e trabalhista “, afirma o sindicato em carta ao Ministro da Infraestrutura e Habitação.


Em 2025, a administração da SPAC declarou que não era “nem a favor nem contra” a venda da empresa, acreditando que “o importante é proteger as condições de trabalho” e a capacidade do futuro acionista de manter um diálogo estruturado com os representantes dos funcionários. O sindicato agora insiste que a qualidade de um parceiro não pode ser medida apenas pela solidez financeira e expertise aeronáutica, mas também deve incluir a forma como ele administra as relações trabalhistas e os direitos sindicais.

A Lufthansa está na mira da SPAC.


É neste último ponto que a Lufthansa se tornou alvo de preocupação. A SPAC (União da Aviação Civil Portuguesa) afirma acompanhar “com preocupação” um conflito aberto na Alemanha entre o grupo e o sindicato dos pilotos, Vereinigung Cockpit (VC), após a Lufthansa ter rescindido abrupta e unilateralmente um acordo que regulamentava os dias de atividade sindical dos representantes dos pilotos. Para os pilotos portugueses, esta decisão “constitui uma clara restrição ao exercício da atividade sindical e assemelha-se a uma prática de ‘quebra de sindicatos’”, ou seja, o desmantelamento das organizações sindicais.

“O que nos preocupa particularmente é que a Lufthansa seja uma potencial futura acionista da TAP”, enfatiza o sindicato, alertando: “É inaceitável que um potencial proprietário adote táticas de enfraquecimento sindical ou mantenha uma relação antiética e não construtiva com seus trabalhadores”. Segundo a SPAC, importar esse tipo de cultura social para Portugal colocaria em risco “a paz laboral dentro da TAP” e prejudicaria a estabilidade operacional do hub de Lisboa, essencial para as conexões transatlânticas e regionais da companhia aérea.

O encerramento do CityLine como sinal de alerta

Os pilotos portugueses também citam o encerramento da Lufthansa CityLine , subsidiária regional do grupo sediada na Alemanha, como mais um sinal. Em meados de abril, a Lufthansa anunciou a suspensão imediata das operações da CityLine, alegando tanto o aumento vertiginoso dos preços do querosene – mais do que o dobro dos preços anteriores à guerra no Médio Oriente – como o peso financeiro de uma série de greves iniciadas pelos sindicatos de pilotos e comissários de bordo.

O grupo, proprietário da Swiss, Austrian Airlines e Eurowings, já havia planejado transferir algumas dessas operações para uma nova entidade, a City Airlines, mas o encerramento foi acelerado “para limitar maiores prejuízos para esta empresa deficitária “. Embora a Lufthansa afirme que pretende realocar os funcionários afetados em suas outras subsidiárias, a SPAC vê isso como a confirmação de uma estratégia de reestruturação acelerada, que provavelmente criará tensão e incerteza entre as tripulações da TAP caso a companhia aérea seja integrada ao grupo alemão no futuro.

Desafios para o polo de Lisboa e para a rede.

Para além das implicações sociais, a escolha do futuro acionista industrial da TAP terá um efeito estruturante no panorama da aviação portuguesa. O governo estipulou como condições a manutenção e expansão dos serviços de Lisboa como centro de operações, bem como o desenvolvimento de outros aeroportos nacionais – nomeadamente o do Porto e o de Faro – para não concentrar todo o crescimento apenas na capital.

O parceiro também terá que se comprometer a preservar as rotas estratégicas da TAP, particularmente para o Brasil, a África lusófona e a América do Norte, onde a companhia aérea ocupa posições-chave a partir de Lisboa. Para a SPAC, a estabilidade dessas rotas, aliada a um ambiente de relações laborais estável, é essencial para garantir a confiabilidade operacional e a competitividade do hub face às principais concorrentes europeias, como a Air France-KLM, a Lufthansa e a IAG.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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