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Agro entra em fase de ajuste sob crédito caro e custos elevados

Reorganização do setor substitui narrativa de retomada no curto prazo

Mundo Agro|Fabi GennariniOpens in new window

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Julian Tonioli, CEO da Auddas Foto cedida: Auddas

Os sinais recentes de melhora no agronegócio brasileiro reacenderam, no mercado, a expectativa de uma recuperação do setor. Mas, ao olhar para os fundamentos, o cenário ainda é de pressão. Crédito caro, custos elevados e gargalos estruturais continuam limitando uma retomada mais consistente.

O Mundo Agro abre a porteira para mais um artigo. Desta vez, com a análise de Julian Tonioli, CEO da Auddas.


" Voltou a circular no mercado a ideia de que o agronegócio brasileiro começa a dar sinais de recuperação. Relatórios recentes, como os divulgados pelo Banco do Brasil, apontam alguma melhora de percepção e ajustes pontuais no setor. É uma leitura que faz sentido do ponto de vista de sentimento, mas ainda parece prematura quando se olha para os fundamentos.

O agro continua operando sob um conjunto de pressões que não se resolveram. O crédito segue caro e mais restritivo, o que impacta diretamente a capacidade de financiamento dos produtores. Em um setor intensivo em capital e dependente de ciclos longos, custo de crédito não é detalhe, é variável central.


Ao mesmo tempo, houve nos últimos anos uma acomodação relevante nos preços das commodities, após um período de alta. Essa correção veio combinada com aumento de custos de produção, puxado por insumos, logística e outros fatores estruturais. Na prática, isso comprime margens e reduz a capacidade de absorver novos choques.

A infraestrutura continua sendo outro ponto crítico. O Brasil opera próximo do limite em termos de escoamento, armazenagem e transporte. Esse gargalo não aparece sempre de forma explícita, mas está embutido no custo e na perda de eficiência ao longo de toda a cadeia. É um problema estrutural, que não muda no curto prazo e que pesa diretamente sobre a competitividade do setor.


Diante desse cenário, o que se observa hoje não é uma recuperação, mas um processo de ajuste. O sistema financeiro começa a entender que parte relevante dos produtores precisa de tempo para se reorganizar. Alongamento de prazos, renegociações e maior flexibilidade passam a fazer parte da dinâmica. Não é uma solução definitiva, mas uma forma de evitar uma deterioração mais rápida.

Isso não diminui a importância do agro na economia brasileira. Pelo contrário. O setor foi determinante para o desempenho do PIB nos últimos anos e segue sendo um dos poucos com ganhos consistentes de produtividade. Esse avanço vem de investimento contínuo em tecnologia, tecnificação e, mais recentemente, uso de dados, inteligência artificial e soluções voltadas à eficiência operacional, como irrigação e gestão de recursos.


Essa capacidade de adaptação explica por que o agro tende a atravessar ciclos e seguir relevante. Mas atravessar ciclo não é o mesmo que estar em recuperação. O momento atual ainda é de transição.

E é justamente nesse tipo de ambiente que surgem oportunidades. Movimentos de consolidação tendem a se intensificar, ativos começam a ser reprecificados e produtores mais pressionados buscam alternativas para se manter competitivos. Para quem tem capital e visão de longo prazo, é um período que costuma gerar bons pontos de entrada.

No fim, a leitura é mais simples do que parece. O agro não está se recuperando ainda. Está se ajustando. O mercado está, na prática, comprando tempo para que o setor encontre um novo equilíbrio. E isso faz parte da dinâmica de um segmento que historicamente alterna ciclos de expansão, acomodação e pressão.

O que vai determinar uma recuperação de fato não são sinais pontuais, mas a combinação de fatores ao longo dos próximos ciclos: comportamento das safras, trajetória das commodities, custo de crédito e capacidade de reorganização dos produtores.

Até lá, o cenário é claro. Não é um setor em retomada, mas também não é um setor em ruptura. É um setor em transição. E, como em todo ciclo do agro, quem entende essa dinâmica e sabe operar nesse intervalo tende a sair mais forte do outro lado."

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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