Logo R7.com
RecordPlus

Florestas plantadas e clima colocam Brasil no centro da bioeconomia

Integração entre produção, conservação e eficiência ganha protagonismo nas estratégias do setor

Mundo Agro|Fabi GennariniOpens in new window

  • Google News
Eficiência, carbono e biodiversidade redesenham o negócio da celulose Foto cedida: Bracell

Em um cenário de maior pressão por eficiência, redução de emissões e preservação de recursos naturais, empresas do setor vêm integrando produção e conservação como parte do próprio modelo de negócio.

Nesta entrevista ao Mundo Agro, Márcio Nappo, vice-presidente de Sustentabilidade da Bracell, detalhou como essa mudança se traduz na prática — da expansão de florestas plantadas à captura de carbono — e quais são os desafios para manter crescimento com disciplina ambiental até 2030.


Márcio Nappo, vice-presidente de Sustentabilidade da Bracell Foto cedida: Bracell

Mundo Agro: Sustentabilidade já deixou de ser diferencial para se tornar pré-requisito no agro e na indústria florestal?

Márcio Nappo: Na nossa visão, sim. No caso da Bracell, a sustentabilidade já é tratada como parte indissociável da estratégia de negócios. O próprio relatório mostra que negócio e sustentabilidade são entendidos como “dois lados da mesma moeda”, com governança, metas de longo prazo e acompanhamento sistemático pelo Bracell 2030. Ou seja, não tratamos o tema como algo paralelo ou reputacional, mas como elemento central da forma de operar, crescer e gerir riscos.


Mundo Agro: Como transformar compromissos ESG em vantagem competitiva real, e não apenas reputacional?

Márcio Nappo: A Bracell é o maior player de celulose solúvel do mundo. As linhas seguem as diretrizes do Best Available Techniques (BAT) Reference Document for the Production of Pulp, Paper and Board, referência internacional para eficiência e sustentabilidade no setor A transformação acontece quando o compromisso se traduz em operação, eficiência, inovação e disciplina de gestão. No nosso caso, isso aparece de forma concreta em iniciativas como o uso de 90% de energia de fontes renováveis em 2025. Outros exemplos poderiam ser a modernização industrial, a integração logística entre celulose e tissue, a gestão de riscos socioambientais e o apoio aos clientes por meio de estudos de pegada de carbono dos produtos. Quando ESG melhora produtividade, reduz dependência de combustíveis fósseis, fortalece previsibilidade e amplia transparência para o cliente, ele gera vantagem competitiva real.


Mundo Agro: É possível crescer em escala global mantendo conservação ambiental no centro do negócio?

Márcio Nappo: Sim. O próprio relatório demonstra como buscamos estruturar esse equilíbrio de forma prática. A Bracell é líder na produção de celulose solúvel, possui atuação global, com presença em quatro continentes, e, ao mesmo tempo, vem fortalecendo iniciativas que integram produção e conservação ambiental.


Um dos principais exemplos é o Compromisso Um-Para-Um, uma iniciativa pioneira no setor de celulose brasileiro, lançada em 2022, pela qual nos comprometemos a apoiar a conservação de um hectare de floresta nativa para cada hectare de eucalipto plantado. Em 2025, avançamos nesse compromisso ao apoiar a proteção de 301 mil hectares de vegetação nativa em áreas públicas de conservação, superando a meta prevista.

Esse modelo vai além de uma meta quantitativa, sendo estruturado com governança clara e parcerias com órgãos públicos, e se organiza em frentes como proteção territorial e prevenção de incêndios, restauração e monitoramento da biodiversidade, educação ambiental, melhoria de infraestrutura e inovação tecnológica, incluindo o uso de inteligência artificial para monitoramento de áreas protegidas.

Além disso, o compromisso está integrado à estratégia de longo prazo da companhia, o Bracell 2030, e conectado ao nosso modelo de produção, que combina florestas plantadas com preservação de vegetação nativa. Isso reforça nossa visão de que crescimento econômico e conservação ambiental não são excludentes, pelo contrário, são complementares e essenciais para a sustentabilidade do negócio no longo prazo.

Mundo Agro: O modelo “Um-Para-Um” pode ser replicável em outras cadeias produtivas do agro?

Márcio Nappo: Com base em nossa experiência é possível afirmar com segurança que o Compromisso Um-Para-Um se consolidou como um modelo estruturado, apoiado por governança definida, metas de longo prazo e parcerias com órgãos públicos, organizado em cinco frentes de atuação.

A iniciativa foi concebida a partir da lógica do nosso negócio florestal e, nesse contexto, tornou-se pioneira no setor de celulose brasileiro. Embora esteja diretamente conectada às características da cadeia florestal, seus princípios — como planejamento de longo prazo, integração entre produção e conservação e cooperação com o poder público — podem inspirar reflexões sobre abordagens semelhantes em outras cadeias produtivas do agronegócio, respeitando as particularidades de cada setor.

Mundo Agro: Como equilibrar expansão de florestas plantadas com preservação de ecossistemas nativos?

Márcio Nappo: Na Bracell, esse equilíbrio passa por critérios claros de uso da terra e manejo. Nossas operações florestais não convertem áreas de floresta nativa em plantio de eucalipto e estas ocorrem em áreas já antropizadas. Além disso, trabalhamos com modelo de mosaico florestal, que intercala áreas plantadas com vegetação nativa, e destinamos mais de 30% da área de nossa operação florestal à preservação e conservação. Também atuamos com restauração, monitoramento de biodiversidade, prevenção a incêndios e georreferenciamento das fazendas com cruzamento de bases ambientais.

Mundo Agro: A conservação hoje é custo, ativo estratégico ou ambos?

Márcio Nappo: Para a Bracell, a conservação não é custo, é investimento e ativo estratégico. Ela demanda recursos, planejamento, monitoramento e parcerias, mas está integrada ao modelo de negócio e à geração de valor no longo prazo. O relatório evidencia que a conservação está diretamente conectada à proteção da biodiversidade, à gestão de riscos, à legitimidade territorial e à estratégia Bracell 2030. Por isso, tratamos a conservação como parte estruturante do negócio e essencial para sua perenidade.

Mundo Agro: A remoção de carbono pelas florestas plantadas pode reposicionar o Brasil como protagonista na agenda climática?

Márcio Nappo: Sim, esse potencial existe e é significativo. A Bracell acredita que o Brasil pode assumir um papel de liderança na agenda climática global ao colocar a natureza no centro das soluções, especialmente por meio da bioindústria e de uma nova economia de baixo carbono. Essa visão foi um dos focos do Seminário Bracell 2030, realizado em 2025. Na prática, nossos resultados demonstram esse potencial: em 2025, as florestas plantadas da Bracell removeram 1,8 milhão de toneladas de CO₂ equivalente, e as florestas nativas preservadas contribuíram com mais 1,6 milhão de toneladas, totalizando 3,4 milhões de tCO₂e. Esse debate também foi levado aos fóruns internacionais, como a COP30. Entendemos que iniciativas baseadas em florestas podem fortalecer o protagonismo climático do Brasil, desde que sustentadas por governança robusta, métricas confiáveis e conservação ambiental efetiva.

Mundo Agro: O setor florestal pode se tornar um dos principais vetores da economia de baixo carbono?

Márcio Nappo: Esse potencial existe. A nossa estratégia de sustentabilidade está baseada no conceito de bioeconomia circular, e o pilar Ação pelo Clima é explícito ao direcionar a companhia para uma economia de baixo carbono. Quando combinamos florestas plantadas, remoção de carbono, geração de energia renovável, eficiência industrial, substituição de insumos fósseis e desenvolvimento de produtos de base florestal, vemos uma contribuição concreta para esse movimento.

Mundo Agro: Como conciliar aumento de produtividade industrial com metas ambientais cada vez mais exigentes?

Márcio Nappo: Nossa experiência mostra que isso exige modernização tecnológica, gestão integrada e metas claras. Em 2025, por exemplo, concluímos uma nova planta de cozimento na Bahia, com ganhos de segurança e redução de 20% no consumo de produtos químicos de cozimento, 30% de vapor e recuperação de 100% da água de selagem. O relatório também mostra investimentos em monitoramento de ativos, automação, reaproveitamento de subprodutos e eficiência energética. Na nossa visão, produtividade sustentável depende de inovação contínua e de incorporar indicadores ambientais à rotina operacional.

Mundo Agro: Eficiência operacional e sustentabilidade caminham juntas ou há trade-offs inevitáveis?

Márcio Nappo: Na Bracell, entendemos que eficiência operacional e sustentabilidade caminham sempre juntas. As práticas sustentáveis são um vetor direto de eficiência, e o Relatório de Sustentabilidade traz exemplos concretos disso, como a integração logística que elimina etapas de secagem e transporte rodoviário de celulose, o uso de armazéns verticais automatizados com menor consumo de energia, a ampliação da participação de energia renovável e melhorias contínuas de processo que reduzem o uso de insumos, vapor, gás natural e água.

Sustentabilidade é uma jornada, feita de aprendizado e aprimoramento contínuo. Os indicadores ajudam a identificar oportunidades de ajuste e direcionar decisões operacionais, reforçando nosso compromisso com a evolução permanente do desempenho ambiental e produtivo.

Mundo Agro: O setor de celulose pode se tornar referência global em modelo sustentável de produção?

Márcio Nappo: Entendemos que pode, e o relatório mostra fundamentos para isso: certificações internacionais, uso intensivo de energia renovável, metas públicas, inventário de GEE auditado externamente, gestão de biodiversidade, bioeconomia circular e rastreabilidade da madeira. No caso da Bracell, isso se soma ao fato de sermos líderes globais em celulose solúvel e uma das principais produtoras globais de celulose de eucalipto. Mais do que um discurso, isso depende de consistência, transparência e melhoria contínua.

Mundo Agro: Quais serão os principais desafios para cumprir metas até 2030?

Márcio Nappo: A Bracell estabeleceu metas claras e ambiciosas até 2030, integradas a uma estratégia de sustentabilidade de longo prazo que orienta o crescimento do negócio. Essa estratégia se apoia em pilares como ação climática, biodiversidade, eficiência no uso de recursos, desenvolvimento social e diversidade, sempre conectados à criação de valor sustentável.

O cumprimento dessas metas exige disciplina de execução, monitoramento contínuo de indicadores, capacidade de inovação tecnológica e operacional, gestão de riscos e adaptação constante às demandas regulatórias e de mercado. Crescer com consistência, eficiência e responsabilidade ambiental não é apenas um compromisso, mas parte da forma como a Bracell planeja, investe e toma decisões estratégicas, assegurando a perenidade do negócio no longo prazo.

Portanto, o desafio até 2030 é manter crescimento com disciplina de execução, inovação, gestão de riscos e capacidade de adaptação às exigências regulatórias e de mercado cada vez maiores.

Mundo Agro: O consumidor final já influencia, de fato, as decisões ambientais de empresas B2B como a indústria de celulose?

Márcio Nappo: Influencia cada vez mais, ainda que de forma indireta em muitos casos. O relatório mostra que a Bracell investe em certificações, rastreabilidade, transparência climática e estudos de pegada de carbono, justamente para apoiar clientes em suas próprias estratégias de descarbonização. Isso indica que as exigências do mercado, inclusive aquelas que vêm do consumidor final e percorrem a cadeia, chegam até a indústria de base. No nosso caso, isso vale, tanto para a atuação B2B em celulose, quanto para o negócio de tissue, que também se conecta diretamente ao mercado de consumo.

A influência do consumidor final tem se intensificado ao longo da cadeia de valor, ainda que muitas vezes de forma indireta. A Bracell responde a esse movimento por meio de investimentos contínuos em certificações, rastreabilidade e transparência, apoiando seus clientes em suas estratégias de descarbonização e no fortalecimento de cadeias mais sustentáveis. Nosso Relatório de Sustentabilidade, elaborado em alinhamento às diretrizes da GRI (Global Reporting Initiative), dá visibilidade às práticas e aos resultados da companhia, evidenciando a integração da sustentabilidade ao modelo de negócio — compromisso reconhecido em 2024, quando figuramos entre os 15 melhores relatórios do Brasil, segundo o CEBDS.

Essa dinâmica alcança tanto nossa atuação B2B em celulose quanto o negócio de tissue, que conecta a Bracell de forma cada vez mais direta ao mercado consumidor. Atualmente, somos o quarto maior fabricante de papéis tissue e fraldas do país e, em 2025, ampliamos significativamente nossa presença comercial nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, consolidando a liderança no Nordeste em tissue. Essa expansão reforça nossa responsabilidade de integrar eficiência operacional, qualidade e sustentabilidade ao longo de toda a cadeia de valor.

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.