Os impactos ambientais no ouro-verde do sertão e o papel do cooperativismo no semiárido
Associação detalha como a união entre diferentes produtores permitiu alcançar mercado internacional
R7 Planalto|Do R7
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

A família de Cassiano Rios, 48 anos, sempre tirou do ouro-verde do sertão parte do seu sustento. Antes, sem tanto conhecimento, o processo era ainda mais artesanal, feito com duas lâminas, que permitia a extração de 16 a 20 quilos de fios de sisal da folha da Agave. Hoje, o número de produção chega a 400 quilos por dia, graças ao desenvolvimento de motores que agilizam o processo de retirada da fibra da planta.
Depois, o sisal é posto para secar por três a quatro dias, até ser destinado para a Apaeb (Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira), uma cooperativa que revela a força da união no semiárido brasileiro.
Apesar disso, Cassiano confessa: antes, uma mesma planta podia ser podada em até 12 meses, mas com o aquecimento e queda de chuvas na região de Valente (BA), cidade a cerca de 3 horas de viagem de Salvador, está demorando mais para o crescimento adequado das folhas e o tempo de espera chega a um ano e meio.
“Com as mudanças ambientais, o índice pluviométrico caiu muito o que impede a poda mais rápida. Por isso eu mantenho plantas nativas [da caatinga] junto com a plantação de Agave, para garantir a sobrevivência dela. Com isso, o espaço plantado diminui, mas em época de seca, o sisal que está perto de árvores não morre”, explica.

Cassiano explica o motivo desse respeito com a natureza: “Eu, como pequeno produtor, nasci na roça, sobrevivo da roça, e tenho que fazer a minha parte”.
A história do sertão baiano com o sisal começou por volta de 1948, e hoje cerca de 90% da produção brasileira vem da região. “Antes, a gente ia para Feira de Santana (BA) para conseguir vender o sisal, mas com a cooperativa, conseguimos destinar o produto ainda aqui”, detalha.
O risco de desertificação
O professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco Gustavo Hess de Negreiros explica que o processo de desertificação não é apenas climático. “Há um lado do que a gente chama de áreas suscetíveis à desertificação que são áreas áridas, semiáridas e subúmidas secas. Aliado à indução do uso do solo de modo errado, o processo de desertificação ocorre, que na verdade é um processo de degradação”, pontua.
Uma demanda por produções cada vez maiores e a prática de monocultura em extensas áreas antes de vegetação natural amplificam os impactos ambientais. “Você junta o clima e o processo de produção cada vez mais intenso e os dois conduzem esse processo de degradação e a capacidade daquele ambiente se recuperar”, observa.
Para o professor, uma forma de mudar isso é repensar o sistema produtivo. “Precisamos de um sistema mais agroecológico, mais integrado, de olho nas respostas que a natureza vai dar de volta e não simplesmente focado na produtividade, na produção em si”, avalia.
Para o doutor em ciência florestal, o cooperativismo pode ser um caminho. “Penso que as cooperativas de uma forma geral, elas são um caminho muito interessante para a gente fazer essa discussão por elas agregarem, cooperarem entre diferentes produtores, seja no nível que for, de agricultura familiar ou agronegócio. Mas não adianta mudar apenas o produtor, tem que ser uma reavaliação do sistema produtivo, uma nova forma de olhar o meio ambiente”, afirma.
A produção de sisal

O R7 Planalto acompanhou de perto todas as etapas de extração da fibra do sisal, até o beneficiamento da fibra, limpeza e por fim confecções de tapetes no sertão baiano. A Apaeb foi fundada em 1980, com o foco de venda no mercado internacional, e hoje chega a exportar 800 toneladas de fibra e vende para 24 países.
Diretor-presidente da Apaeb, Jario de Santana, 53 anos, explica que todo o processo é feito de forma natural. “Os resíduos retirados do sisal servem de alimentação para o gado e a fibra é sustentável e não causa dano ao meio ambiente, bem diferente do produto sintético”, detalha.
Para o associado Ismael Ferreira de Oliveira, foi o cooperativismo que permitiu que a associação tivesse o destaque que tem hoje no mercado internacional e que o ouro-verde do nordeste se consolida como uma importante fonte de renda dos moradores de cerca de 46 municípios da região.
“É a força de todos juntos, trabalhando, e beneficiando as entregas, que permite que a gente possa concorrer com os grandes”, explica.

*O jornalista viajou a convite do Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras)
Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp














