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Tradição e cooperativismo: a força que move o sertão na Roliúde brasileira

Em uma cidade com menos de seis mil habitantes, o trabalho no couro de bode é a sobrevivência de uma prática de mais de 200 anos

R7 Planalto|Edis Henrique Peres, enviado a Cabaceiras (PA)*

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Em Cabaceiras (PA), a tradição de trabalhar com couro de bode tem mais de 200 anos e sobrevive graças ao cooperativismo.
  • José Carlos Castro, conhecido como Carlinhos, promoveu a união dos moradores para fundar a cooperativa Arteza, que hoje é referência no Brasil.
  • A cooperativa cresceu de 2.000 para 26.000 peles de bode produzidas mensalmente, além de utilizar práticas sustentáveis no processo de curtimento.
  • O cooperativismo não apenas revitalizou a tradição local, mas também elevou a autoestima da comunidade e garantiu a continuidade do ofício entre as novas gerações.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Carlinhos (centro) conseguiu que o filho (lado direito) seguisse seus passos Robson Cesco /Sistema OCB - 12.05.2026

Debaixo de um juazeiro, José Carlos Castro, 70 anos, contou ao R7 Planalto a sua história com o cooperativismo e como o modelo garantiu para Cabaceiras (PA), cidade de 5,5 mil habitantes, a permanência e a manutenção de uma tradição que data de mais de 200 anos. A região de Ribeira, município da cidade, fica a cerca de três horas de João Pessoa, capital da Paraíba, e é conhecida pelo curtimento de couro de bode e também por ser a Roliúde Nordestina, devido a gravação de importantes filmes na região, como o Auto da Compadecida na década de 1990.

A jornada de Carlinhos, como é conhecido, começou antes mesmo de ele ter contato com o modelo do cooperativismo, quando percebeu que sem a união dos moradores da região o trabalho com o couro seria esquecido. “Era prática quando a criança nascesse, já comprar uma vaquinha para que quando ele completasse 18 anos, a família vendesse o animal para o filho ter dinheiro para uma passagem para o Rio de Janeiro”, conta.


Carlinhos é filho e neto de curtidores de couro, que por sua vez têm a tradição do trabalho com a pele do bode de gerações anteriores. Segundo Carlinhos, a prática remonta de indígenas que viviam na região, que precisavam de gibão para transitar pela vegetação espinhosa do local. Logo depois, o trabalho com o couro foi incorporado pelos vaqueiros, até chegar nas famílias atuais.

O ponto de virada na vida do morador de Ribeira foi a morte do pai, que tinha 53 anos quando sofreu um acidente de moto. A partir de então, ele percebeu que a sobrevivência dos moradores dependia de trabalharem juntos. “Todo mundo achava que o curtume tinha acabado, que não tinha mais condição, que o curtume [do couro de bode] só trazia catinga”, relata, ao lembrar o preconceito que a população tinha com quem trabalhava com o ofício e precisava carregar as peles dos animais, em geral de odor forte, nos paus de arara até a cidade para vender os produtos.


Processo de curtimento do couro leva em torno de 30 dias e usa produtos naturais Robson Cesco /Sistema OCB - 12.05.2026

O cheiro desagradável foi justamente um dos desafios que Carlinhos encontrou para aumentar a aceitação do material. Ele teve a oportunidade de um curso em Campina Grande (PB) que ensinava como reduzir o odor no processo de curtimento. Quando voltou, aplicou a técnica nas peles que produzia. Mas Carlinhos não queria avançar sozinho: chamou famílias tradicionais para se juntar com ele em uma cooperativa, antes mesmo de conhecer o modelo por esse nome. No primeiro momento, no entanto, todos negaram.

Alguns meses depois, com o sucesso do couro de Carlinhos que não tinha cheiro forte, os donos de armazéns começaram a exigir que os outros curtumeiros adotassem a mesma técnica e ele prontamente repassou o conhecimento aos amigos da região. Quando entenderam que era possível ter um trabalho com dignidade no couro, 28 famílias decidiram fundar a cooperativa Arteza, em 1998, hoje referência em todo o Brasil pelo trabalho artesanal.


“Em três meses o projeto estava bombando. Porque o curtume estava melhor, com maciez e melhor no couro. Quando organizei o grupo, disse que a gente tinha que sentar e estipular regras, definir a forma da gente trabalhar e estipular um preço único, porque antes sempre estavam desvalorizando nosso trabalho. E quando eles viram que dava certo, eles aceitaram. Antes, era eu chaleirando para vender, depois de seis meses, era os outros me chaleirando para comprar”, conta orgulhoso.

Produção de peles na cooperativa saltou de seis mil para mais de 20 mil peças ao mês Robson Cesco /Sistema OCB - 12.05.2026

Em 27 anos, a cooperativa deixou de produzir 2.000 peles por mês, para 26 mil peles de bode, atualmente, sendo, além disso, trabalhado outros 45 mil quilos de couro de boi. “Isso foi a redenção da comunidade. Eles não enxergavam mais o que fazer, não tinham motivo de permanecer aqui [em Ribeira], mas depois que eles viram que era possível, a tradição voltou a ser ensinada de pai para filho”, comemora.


Processo sustentável

A Arteza tem ainda o compromisso de adotar um processo sustentável. Para retirar o cheiro do curtimento do couro, eles usam a casca de uma planta abundante na região, o angico, e os rejeitos produzidos no processo ainda podem ser usados como adubo.

Ângelo Mácio Gomes Meira, presidente da Arteza, detalha que antes o curtimento era feito de forma rudimentar, na beira do rio, e hoje o couro pode se transformar em um produto de luxo. “Subiu também a auto-estima dos moradores de trabalhar com algo que não causa mais vergonha, como era antes devido ao odor do curtimento. Isso mudou a comunidade”, afirma.

Couro se transforma nas mãos dos artesãos em produtos únicos e reconhecidos em todo o Brasil Robson Cesco /Sistema OCB - 12.05.2026

O filho de Carlinhos, Lucas Araújo Castro, seguiu os passos do pai: já foi presidente da cooperativa e hoje atua como diretor administrativo-financeiro na Arteza. Mas antes, Lucas seguiu o caminho de muitos jovens da sua época: ir para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Formou-se em administração e decidiu voltar para Ribeira.

“Foi a melhor e maior escolha que fiz na minha vida. Eu sempre digo, a gente precisa difundir ainda mais essa ideia do cooperativismo. Unido não é fácil, imagina cada um por si”, defendeu.

Para Lucas, o foco principal do modelo de negócio são os “cooperados” e as histórias que cada família carrega. “Existe um valor muito diferente do dinheiro, do tanto que uma empresa gera, que é a manutenção de uma cultura, de uma tradição, da história de uma comunidade, que não é possível estimar em quantia”, reforça.

A magia na ponta dos dedos

Depois que o curtimento do couro ocorre ao longo de um processo que dura cerca de 30 dias, o material é levado para a central da Arteza, onde artesãos trabalham com a produção de bolsas, sandálias, cintos e outros itens. Alessandra Sousa, 26 anos, começou cedo no ofício: “A precisão era grande. Com 12 anos já tentava ajudar em casa e aos poucos comecei a trabalhar com o couro”, detalha.

Alessandra é uma das cooperadas e artesãs da Arteza, focada na produção de sandálias Robson Cesco /Sistema OCB - 12.05.2026
Tarcísio conseguiu através do artesanato com couro garantir o sustento da sua família Robson Cesco /Sistema OCB - 12.05.2026

Uma sandália pode levar de 2 a 3 dias para ficar pronta e Alessandra garante que a equipe emprega muito cuidado em todas as etapas. Quem também faz parte do processo é Tarcísio Andrade, 31 anos, que se orgulha de criar os dois filhos com o trabalho artesanal. “Desde jovem eu já queria ser independente, e através do artesanato eu consegui isso. E, hoje, garanto o sustento da minha casa, da minha família”, relata.

O cenário na Paraíba

Ana Margarida, gerente de desenvolvimento de Cooperativas do OCB-PB (Organização das Cooperativas Brasileiras da Paraíba), explica que hoje são 78 cooperativas no estado, atuando em diversas frentes, com mais de 114 mil cooperados e 4.302 pessoas empregadas. “Para garantir o fortalecimento das cooperativas, oferecemos consultorias e capacitações específicas para cada modelo, entendendo o que cada grupo precisa.

*O jornalista viajou a convite do Sistema OCB.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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