Tradição e cooperativismo: a força que move o sertão na Roliúde brasileira
Em uma cidade com menos de seis mil habitantes, o trabalho no couro de bode é a sobrevivência de uma prática de mais de 200 anos
R7 Planalto|Edis Henrique Peres, enviado a Cabaceiras (PA)*
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Debaixo de um juazeiro, José Carlos Castro, 70 anos, contou ao R7 Planalto a sua história com o cooperativismo e como o modelo garantiu para Cabaceiras (PA), cidade de 5,5 mil habitantes, a permanência e a manutenção de uma tradição que data de mais de 200 anos. A região de Ribeira, município da cidade, fica a cerca de três horas de João Pessoa, capital da Paraíba, e é conhecida pelo curtimento de couro de bode e também por ser a Roliúde Nordestina, devido a gravação de importantes filmes na região, como o Auto da Compadecida na década de 1990.
A jornada de Carlinhos, como é conhecido, começou antes mesmo de ele ter contato com o modelo do cooperativismo, quando percebeu que sem a união dos moradores da região o trabalho com o couro seria esquecido. “Era prática quando a criança nascesse, já comprar uma vaquinha para que quando ele completasse 18 anos, a família vendesse o animal para o filho ter dinheiro para uma passagem para o Rio de Janeiro”, conta.
Carlinhos é filho e neto de curtidores de couro, que por sua vez têm a tradição do trabalho com a pele do bode de gerações anteriores. Segundo Carlinhos, a prática remonta de indígenas que viviam na região, que precisavam de gibão para transitar pela vegetação espinhosa do local. Logo depois, o trabalho com o couro foi incorporado pelos vaqueiros, até chegar nas famílias atuais.
O ponto de virada na vida do morador de Ribeira foi a morte do pai, que tinha 53 anos quando sofreu um acidente de moto. A partir de então, ele percebeu que a sobrevivência dos moradores dependia de trabalharem juntos. “Todo mundo achava que o curtume tinha acabado, que não tinha mais condição, que o curtume [do couro de bode] só trazia catinga”, relata, ao lembrar o preconceito que a população tinha com quem trabalhava com o ofício e precisava carregar as peles dos animais, em geral de odor forte, nos paus de arara até a cidade para vender os produtos.
O cheiro desagradável foi justamente um dos desafios que Carlinhos encontrou para aumentar a aceitação do material. Ele teve a oportunidade de um curso em Campina Grande (PB) que ensinava como reduzir o odor no processo de curtimento. Quando voltou, aplicou a técnica nas peles que produzia. Mas Carlinhos não queria avançar sozinho: chamou famílias tradicionais para se juntar com ele em uma cooperativa, antes mesmo de conhecer o modelo por esse nome. No primeiro momento, no entanto, todos negaram.
Alguns meses depois, com o sucesso do couro de Carlinhos que não tinha cheiro forte, os donos de armazéns começaram a exigir que os outros curtumeiros adotassem a mesma técnica e ele prontamente repassou o conhecimento aos amigos da região. Quando entenderam que era possível ter um trabalho com dignidade no couro, 28 famílias decidiram fundar a cooperativa Arteza, em 1998, hoje referência em todo o Brasil pelo trabalho artesanal.
“Em três meses o projeto estava bombando. Porque o curtume estava melhor, com maciez e melhor no couro. Quando organizei o grupo, disse que a gente tinha que sentar e estipular regras, definir a forma da gente trabalhar e estipular um preço único, porque antes sempre estavam desvalorizando nosso trabalho. E quando eles viram que dava certo, eles aceitaram. Antes, era eu chaleirando para vender, depois de seis meses, era os outros me chaleirando para comprar”, conta orgulhoso.

Em 27 anos, a cooperativa deixou de produzir 2.000 peles por mês, para 26 mil peles de bode, atualmente, sendo, além disso, trabalhado outros 45 mil quilos de couro de boi. “Isso foi a redenção da comunidade. Eles não enxergavam mais o que fazer, não tinham motivo de permanecer aqui [em Ribeira], mas depois que eles viram que era possível, a tradição voltou a ser ensinada de pai para filho”, comemora.
Processo sustentável
A Arteza tem ainda o compromisso de adotar um processo sustentável. Para retirar o cheiro do curtimento do couro, eles usam a casca de uma planta abundante na região, o angico, e os rejeitos produzidos no processo ainda podem ser usados como adubo.
Ângelo Mácio Gomes Meira, presidente da Arteza, detalha que antes o curtimento era feito de forma rudimentar, na beira do rio, e hoje o couro pode se transformar em um produto de luxo. “Subiu também a auto-estima dos moradores de trabalhar com algo que não causa mais vergonha, como era antes devido ao odor do curtimento. Isso mudou a comunidade”, afirma.
O filho de Carlinhos, Lucas Araújo Castro, seguiu os passos do pai: já foi presidente da cooperativa e hoje atua como diretor administrativo-financeiro na Arteza. Mas antes, Lucas seguiu o caminho de muitos jovens da sua época: ir para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Formou-se em administração e decidiu voltar para Ribeira.
“Foi a melhor e maior escolha que fiz na minha vida. Eu sempre digo, a gente precisa difundir ainda mais essa ideia do cooperativismo. Unido não é fácil, imagina cada um por si”, defendeu.
Para Lucas, o foco principal do modelo de negócio são os “cooperados” e as histórias que cada família carrega. “Existe um valor muito diferente do dinheiro, do tanto que uma empresa gera, que é a manutenção de uma cultura, de uma tradição, da história de uma comunidade, que não é possível estimar em quantia”, reforça.
A magia na ponta dos dedos
Depois que o curtimento do couro ocorre ao longo de um processo que dura cerca de 30 dias, o material é levado para a central da Arteza, onde artesãos trabalham com a produção de bolsas, sandálias, cintos e outros itens. Alessandra Sousa, 26 anos, começou cedo no ofício: “A precisão era grande. Com 12 anos já tentava ajudar em casa e aos poucos comecei a trabalhar com o couro”, detalha.


Uma sandália pode levar de 2 a 3 dias para ficar pronta e Alessandra garante que a equipe emprega muito cuidado em todas as etapas. Quem também faz parte do processo é Tarcísio Andrade, 31 anos, que se orgulha de criar os dois filhos com o trabalho artesanal. “Desde jovem eu já queria ser independente, e através do artesanato eu consegui isso. E, hoje, garanto o sustento da minha casa, da minha família”, relata.
O cenário na Paraíba
Ana Margarida, gerente de desenvolvimento de Cooperativas do OCB-PB (Organização das Cooperativas Brasileiras da Paraíba), explica que hoje são 78 cooperativas no estado, atuando em diversas frentes, com mais de 114 mil cooperados e 4.302 pessoas empregadas. “Para garantir o fortalecimento das cooperativas, oferecemos consultorias e capacitações específicas para cada modelo, entendendo o que cada grupo precisa.
*O jornalista viajou a convite do Sistema OCB.
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