Petróleo causa queimaduras como a água-viva? Entenda as diferenças
Médicos orientam a nunca subestimar lesões na pele causadas por óleo; se substâncias químicas forem absorvidas, podem afetar outros órgãos
Saúde|Aline Chalet, do R7*

O turista Anderson Gabriel, 38, apresentou manchas no corpo após ter nadado na praia de Corurupe, em Ilhéus, no sul da Bahia, atingida pelo vazamento de petróleo. Ele chegou a afirmar, em entrevistas, que nadou por 40 minutos e que saiu da água após sentir coceira e ardência. Um das suspeitas, além da reação ao óleo, era queimadura por água-viva.
O dermatologista, Egon Daxbacher, da Sociedade Brasileira de Dermatologia, explica que o diagnóstico é feito a partir de um conjunto de fatores. Um deles é o formato da lesão. “As lesões causadas por água-viva ficam com o formato do animal ou do tentáculo. Nesse caso, teria que ser uma água viva gigante”, afirma.
O cirurgião plástico Marco Almeida, da Sociedade Brasileira de Queimaduras, acrescenta que o veneno da água-viva causa uma dor muito intensa no momento do contato com a pele, o que difere do depoimento do turista.
Já o petróleo pode causar dermatite de contato, inflamação na pele proveniente de uma alergia, segundo Daxbacher. A dermatite deixa a pele avermelhada e coça. O dermatologista diz que dificilmente arde.
Almeida afirma que, dependendo do tempo de exposição e área de contato, o óleo pode agredir partes mais profundas da pele, causando bolhas. Isso acontece porque o petróleo possui componentes que dissolvem as proteínas da membrana das células da pele. A reação é parecida com a de queimadura química.
O turista relatou que tentou tirar o óleo do corpo, mas não especificou se utilizou algum produto. “Na praia eu não vi óleo, mas quando cheguei em casa que eu fui tomar banho, começou a sair uma água escura [do corpo] e a bucha ficou muito oleosa”, relata Gabriel.
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As queimaduras químicas são causadas por produtos com pH muito ácido ou básico e não tem relação com temperatura, explica Daxbacher. “Pode acontecer de a pessoa, na tentativa de retirar [o óleo], usar produtos que são mais cáusticos ou ácidos e causam queimadura, como cloro, querosene, e thinner”, afirma.
Segundo o dermatologista, normalmente o relato do paciente é o fator principal do diagnóstico, mas que em casos que envolvem questões legais, como pedido de indenização, pode se fazer uma biópsia. “Outro fator, nesse caso, é a cor. Quando tem uma vermelhidão que vai evoluindo para uma pele mais escura, pigmentada, isso fala a favor de substância química”, diz.
Outra hipótese é que, com a pele sensível por conta do contato com o óleo, o sol possa ter causado uma queimadura mais grave que a de costume. “Se você vai para o sol com a pele ferida, ela não está com a defesa normal para se proteger dos raios. A queimadura do sol agrava a lesão”, afirma o dermatologista.
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Segundo Almeida, trata-se de um caso de difícil diagnóstico, pois as lesões causadas por contato com água-viva, óleo ou substâncias químicas são parecidas e porque ainda não se sabe totalmente as características e efeitos do petróleo na pele.
“São placas de petróleo no mar. Não sabemos qual o nível e o alcance da contaminação da água próxima a elas e se existem substâncias que se dissolvem na água. É preciso mais estudo”, explica.
O cirurgião afirma que as lesões tópicas causadas por água-viva, queimaduras químicas ou contato com o óleo são tratadas de maneira semelhante: se remove o agente agressor e trata a lesão.
O dermatologista aponta algumas diferenças no tratamento. No caso de reação por contato com o petróleo, ele recomenda que se tire o maior volume possível com água e sabão e depois use pastas removedoras utilizadas por mecânicos ou óleo de cozinha para ajudar na remoção. É recomendado ir ao dermatologista para indicação de hidratantes, cremes e medicamentos, dependendo do nível da irritação.
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As queimaduras químicas devem ser lavadas com água e sabão e o paciente deve ir imediatamente ao médico. O tratamento é feito com analgésicos e anti-inflamatórios orais e tópicos.
Já as lesões por água-viva devem ser lavadas com água do mar e vinagre. A água doce, por ter características de um ambiente estranho para o animal, ativa as células liberadoras do veneno que ficam na pele. O vinagre pode ser usado, pois ambientes ácidos ajudam a neutralizar a ação dos liberadores.
O dermatologista alerta para não retirar a água viva com as mãos, caso ela esteja presa à pele, pois toda a superfície do animal pode queimar, dependendo da espécie. É preciso retirar com uma espátula, luva ou outro objeto.
A ajuda médica também deve ser procurada. Dependendo da espécie da água-viva e do grau de envenenamento, podem ser utilizados antibióticos orais e tópicos. O principal tipo de tratamento são os curativos, que vão manter a ferida limpa e em ambiente ideal para acelerar a cicatrização.
Almeida alerta que o mais importante em tratamentos de queimadura é o tempo até iniciar o tratamento. “Quanto antes começar [os cuidados médicos], maior a chance de reversão do quadro”, afirma. É importante não passar nenhuma pomada ou substância como pasta de dente, urina e manteiga.
Os produtos não indicados podem piorar a queimadura ou dificultar o diagnóstico. O atendimento médico deve ser procurado em todos os casos de queimaduras de segundo grau, aquelas com bolha, e em caso de muita dor nas de primeiro grau.
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O cirurgião indica que as pessoas que têm contato com óleo devem usar os Equipamentos de Proteção Individuais (EPIs). O contato com o petróleo, além da dermatite de contato e as lesões químicas, pode causar danos a outros órgãos do corpo, caso seja absorvido pela pele ou por mucosas. Os órgãos afetados podem ser rins, intestino, figado, cérebro, entre outros.
Segundo Almeida, o comprometimento sistêmico pode ocorrer a partir de 6 horas de contato com o óleo. Ele alerta para não subestimar as lesões. “É importante procurar uma avaliação médica o mais rápido possível, pois uma pequena irritação na parte superficial da pele pode piorar com o tempo”, afirma.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia divulgou uma cartilha de cuidados para moradores e voluntários das áreas afetadas pelo derramamento de petróleo, confira.
*Estagiária do R7 sob supervisão de Deborah Giannini
Cuidados no banho podem aliviar sintomas da dermatite atópica:
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