Mantega supera Malan e se torna o ministro da Fazenda há mais tempo no cargo
Responsável pela economia do País resistiu à crise mundial e a várias sugestões de demissão
Economia|Kamilla Dourado, do R7, em Brasília

Em 27 de março de 2006, o ministro Guido Mantega deixava a direção do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social) do, então, governo Lula e assumia o Ministério da Fazenda. Nesta quinta-feira (27), ele completa oito anos como responsável pela economia do País e ultrapassa Pedro Malan no tempo de cargo.
Nesse período, Mantega resistiu a uma crise econômica mundial e a várias sugestões da imprensa internacional para que fosse demitido. Ele já está há 11 anos no governo petista. Antes foi ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão.
Sempre calmo e sereno no lidar com a imprensa, é categórico e firme em suas declarações. Com o mesmo ar responde tanto a cenários pessimistas quanto a boas notícias.
Durante o período democrático, o ministro a ficar mais tempo no cargo havia sido Pedro Malan (1995-2002), durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Atualmente, Malan é presidente do conselho consultivo internacional do Itaú Unibanco, o maior banco privado do País. Antes, ele fez parte do conselho de administração da OGX, petroleira de Eike Batista, como membro independente. Mantega superou ainda o ministro que mais tempo passou no comando da Fazenda durante a ditadura militar, Delfim Neto que ocupou o posto por sete anos (1967-1974).
A postura pouco “desenvolvimentista” de Mantega é criticada por setores do mercado, mas a oposição mais ferrenha sofrida pelo ministro não vem de críticos no Brasil. A revista britânica “The Economist” parece ter uma birra pessoal contra o ministro. Em 2012, a publicação sugeriu que a demissão de Mantega seria o primeiro passo para uma mudança de rumo na economia brasileira. Dilma rebateu e disse que a revista estava muito mal informada.
Já em junho de 2013, a publicação ironizou a permanência de Mantega no cargo "Foi amplamente noticiado no Brasil que a nossa impertinência teve o efeito de fazer o ministro da Fazenda ficar 'indemitível'. Agora, vamos tentar um novo rumo. Pedimos para a presidente ficar com ele a todo custo: ele é um sucesso".
Para o professor de economia da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Robson Gonçalves a longevidade de Mantega, apesar das críticas, demonstra um "amadurecimento institucional" do País:
— Isso é um grande avanço em si. Antes, quando se tinha uma mudança de ministro, vinha uma mudança de política econômica logo em seguida, era uma política personalizada. No caso do ministro Mantega, não, é uma política econômica com forte influência da própria presidente e ele assume um papel mais de gestor da política, então dá uma continuidade que independe da estrutura.
Balanço
Durante o período como titular da pasta, a inflação passou de 3,14% em 2006 para 5,91% em 2013, quase perto do teto da meta, de 6,5%. O superávit primário (economia para o pagamento de juros da dívida) caiu de 3,2% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2006 para 1,9% no ano passado.
Por tudo isso, Mantega é acusado de colocar em risco o tripé da política econômica do País: controle de inflação, câmbio flutuante e superávit primário.
As previsões otimistas, não concretizadas, para o crescimento do PIB nos últimos dois anos aumentaram o mau-humor do mercado. Mas, apesar da saraivada de críticas, Mantega mantém o otimismo em relação aos rumos da economia brasileira.
Nesta segunda-feira (24), a agência de classificação de risco Standard & Poor's rebaixou a nota de crédito do Brasil de "BBB" para "BBB-". O índice é usado para medir a confiança de investir no País.
Para o ex-diretor do Banco Central, Carlos Eduardo Freitas, além do rebaixamento, as crises na Petrobras e no setor elétrico (uso das reservas do Tesouro Nacional para pagar as termelétricas), são espisódios recentes e indicadores de que o ministro não vem fazendo um bom trabalho.
— Com a evolução da economia, o Brasil parou de expandir a renda, que começou no governo Lula. Não dava mais de fazer o tipo de despesa fiscal que está fazendo. Ele manteve um comportamento de despesa pública incompatível com as condições da economia mundial. Ele está quebrando a Petrobras, a estatal brasileira para tentar uma política demagógica.
Por causa da Petrobas, o ministro também deve enfrentar o Congresso nos próximos dias. A sabatina dessa vez envolve a compra pela estatal da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA). A transação, que seria superfaturada, é investigada pelo TCU (Tribunal de Contas da União), Polícia Federal e Ministério Público Federal.
Nesta quarta-feira (26), o ministro, que também é atual presidente do Conselho de Administração da Petrobras, foi convidado pela Comissão de Orçamento e Finanças da Câmara dos Deputados para prestar esclarecimentos sobre o episódio.
Currículo
Guido Mantega nasceu em Genôva na Itália em 1949 e se mudou para o Brasil quando tinha dois anos de idade. É formado em economia pela Universidade de São Paulo e tem doutorado e especialização em sociologia. Foi professor do curso de economia na PUC-SP de 1982 a 1987 e é professor licenciado da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV.
Ele começou a trabalhar como assessor econômico do ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva em 1993 e em 2002, foi um dos coordenadores do programa econômico do PT. No governo petista, já foi presidente do BNDES e ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão.












