Clima amistoso entre Lula e Trump impulsiona nova rodada de negociações comerciais
Presidentes abriram prazo de 30 dias para negociar tarifas; especialistas, contudo, veem pouco espaço para acordo
Brasília|Mariana Saraiva, do R7, em Brasília
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Depois do encontro com Donald Trump em Washington, D.C., nessa quinta-feira (7), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que Brasil e Estados Unidos terão um prazo de 30 dias para negociar sobre tarifas. O encontro entre os dois líderes foi classificado pelo brasileiro como “positivo”.
Especialistas ouvidos pelo R7 avaliam que a negociação pode trazer avanços pontuais, mas consideram improvável uma solução estrutural em apenas um mês, apesar do clima positivo demonstrado por Lula e Trump após a reunião.
Para o internacionalista João Alfredo Nyegray, o prazo é suficiente para avanços concretos, mas pode não resolver disputas comerciais mais profundas.
“Em comércio internacional, 30 dias não resolvem disputas complexas, especialmente quando envolvem tarifas, Pix, etanol, big techs, propriedade intelectual e desmatamento ilegal, temas que aparecem formalmente na investigação americana sobre práticas brasileiras. O prazo serve mais como uma janela política para produzir um primeiro gesto: suspender parte das tarifas remanescentes, criar grupos técnicos ou anunciar um roteiro de negociação”, explica.
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Nyegray também avalia que o bom clima político ajuda nas negociações, mas não substitui interesses econômicos.
“No caso de Trump, a relação pessoal importa mais do que em governos tradicionais, porque ele costuma negociar com forte componente de impressão pessoal, reciprocidade simbólica e cálculo político doméstico. O elogio a Lula e a longa reunião reduzem o risco de uma escalada imediata. Mas isso não elimina pressões de setores americanos que reclamam de barreiras brasileiras, nem muda automaticamente o interesse dos EUA em proteger empresas de tecnologia, cartões, etanol, aço e serviços digitais”, afirma.
Suspensão de medidas de retaliação
Para Ricardo Caichiolo, professor de Relações Internacionais e diretor do Ibmec Brasília, negociações tarifárias costumam levar meses ou até anos, envolvendo análises técnicas, consultas a setores econômicos e avaliações jurídicas dos dois países.
“O que é possível fazer em 30 dias é avançar em medidas pontuais. Trump aceitou que equipes dos dois países listem diferenças tributárias e, se necessário, discutam reduções recíprocas. Isso indica debates específicos sobre determinados temas”, diz.
Segundo Caichiolo, o prazo pode servir para mapear assimetrias tarifárias, suspender eventuais medidas de retaliação, criar grupos técnicos e até anunciar exceções temporárias ou reduções em setores específicos. “O prazo de 30 dias é bastante curto, mas é possível que medidas pontuais sejam adotadas nesse período”, avalia.
O especialista considera que o principal ganho do encontro foi o ambiente político positivo entre os dois países. “Talvez esse seja o principal resultado da reunião. Trump publicou que a conversa foi muito boa, confirmou reuniões técnicas entre representantes dos governos e negociações comerciais. Isso reduz o risco de decisões impulsivas e dá respaldo político para concessões técnicas”, pontua.
Redução de tarifas
Nyegray acredita que existe espaço para redução de tarifas no curto prazo, mas de forma seletiva. “Trump pode flexibilizar tarifas quando percebe ganho político, redução de custos para consumidores ou vantagem estratégica. O cenário mais plausível é um alívio parcial em setores específicos, condicionado a gestos brasileiros em áreas sensíveis”, opina.
Caichiolo também considera possível uma flexibilização de tarifas, desde que haja interesse político e econômico dos dois lados. “Os Estados Unidos têm interesse em minerais críticos, cadeias industriais fora da Ásia e segurança energética. O Brasil busca previsibilidade na relação comercial e quer evitar sobretaxas sobre seus produtos.”
Segundo Nyegray, os setores brasileiros que podem ser mais beneficiados são os diretamente afetados por tarifas e aqueles ligados à nova agenda estratégica. “Aço, alumínio, cobre, móveis e outros bens industriais podem ganhar caso haja redução de sobretaxas. Mineração e minerais críticos também têm potencial de crescimento, especialmente com investimentos americanos em terras raras e cadeias de suprimento”, destaca.
Caichiolo vê potencial de ganhos para o agronegócio, mineração, siderurgia, setor aeronáutico e energia. “Carne bovina, suco de laranja, açúcar, café, níquel, lítio, terras raras, aço, alumínio e a cadeia ligada à Embraer podem ser beneficiados. Além disso, há oportunidades em etanol, biomassa e componentes para a transição energética”, concluiu.
Divergências entre os dois lados
Em entrevista à imprensa após a reunião com Trump, Lula disse que o prazo de 30 dias pode servir para que ambos os lados entrem em consenso.
Segundo ele, autoridades americanas afirmam que o Brasil cobra impostos muito altos sobre alguns produtos, enquanto o lado brasileiro argumenta que a média tarifária aplicada é baixa, de 2,7%.
De acordo com Lula, representantes de comércio dos dois países vão se reunir para analisar dados e entregar uma proposta final, permitindo que os próprios presidentes possam “bater o martelo” e decidir quem terá que ceder.
“Eu falei assim: ‘Trump, vamos fazer o seguinte: vamos criar um grupo de trabalho e permitir que o pessoal da indústria e comércio do Brasil, junto com o pessoal do comércio dos Estados Unidos, se reúna em 30 dias e apresente uma proposta para que possamos bater o martelo’, afirmou.
“Quem tiver errado vai ceder. Se a gente tiver que ceder, nós vamos ceder. Se vocês tiverem que ceder, vocês vão ter que ceder”, acrescentou.
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que, durante a reunião, foi discutida a questão das tarifas efetivas aplicadas pelo Brasil e a avaliação de que não caberiam sobretaxas sobre produtos brasileiros. “Ficamos de nos reunir nos próximos 30 dias para avaliar e chegar a uma conclusão”, declarou.
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