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Relevância da obra de Renato Russo permanece, diz 'tchurma'

Amigos do cantor citam linguagem própria e conteúdo atemporal como fatores que tornam músicas pertinentes ainda hoje

Brasília|Lucas Nanini, do R7, em Brasília

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Renato Russo durante show em Brasília, no início da Legião Urbana
Renato Russo durante show em Brasília, no início da Legião Urbana Renato Mendonça

Ícone dos anos 1980/1990, o cantor e compositor Renato Russo continua a gerar interesse do público 25 anos após sua morte. Admirado por uma verdadeira legião de fãs e até críticos, campeão de vendas e artista reverenciado em releituras, filmes, livros, exposições e musicais, ele tem uma obra considerada retrato de uma era, mas também atemporal.

Dono de uma linguagem característica, ele levava ao público letras sobre temas conhecidos, como violência, amor e contestação política, mas com referências eruditas, recorrendo a títulos de filmes, grupos terroristas, embarcações que naufragaram ou até poetas como Camões e versículos da Bíblia. 


Aqueles que conviveram com Renato, fizeram parte da "tchurma", afirmam que as obras dele e a forma de fazer arte continuam relevantes mesmo após quatro décadas desde que ele escreveu letras como “Que País É Este”, “Faroeste Caboclo” e “Eu Sei”. Quem acompanhou de fora também acredita nisso.

Ainda que a tecnologia tenha transformado as linguagens e o modo de consumo da arte, os trabalhos de Renato e da Legião Urbana continuam a ganhar adeptos. Isso ocorre porque os temas são parte do universo das pessoas, dizem os músicos, produtores e amigos do cantor.


“Seria maravilhoso falar da irrelevância da obra do Renato, dizer que músicas como ‘Que País É Este’ e ‘Perfeição’ deixaram de ser atuais. Só que a pertinência continua, o país não andou”, afirma o diretor de TV Zé Renato Martins, amigo dos tempos da Turma da Colina.

Ele era um visionário%2C estava à frente de seu tempo%2C tinha sua própria lógica%2C e com isso fazia coisas belíssimas desse mistério que é a música. Eu entrei nesse plano do Renato de transformar isso em música%2C e nós da Legião fomos cúmplices disso tudo%2C entrávamos no estúdio e materializávamos aquelas ideias em canções imortalizadas nos discos

(Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião Urbana)

Para ele, a força do ex-líder da Legião foi o que fez nascer o que ficou conhecido como “rock de Brasília”. “Se o Renato tivesse nascido no sertão do Cariri, não seria o rock de Brasília, mas do sertão do Cariri. Ele tinha esse poder de juntar as pessoas, ele liderava, decidia quem ia ser o quê. Era uma força muito grande.”


Intuição

O “magnetismo” do artista é citado também por quem dividiu o palco e os estúdios com ele. O guitarrista Dado Villa-Lobos, parceiro dos tempos de Legião Urbana, afirma que Renato tinha um conhecimento incrível sobre as coisas, sobre as realidades das pessoas, e tinha o dom de transformar isso em arte. A intuição guiava o músico.


“Ele era um visionário, estava à frente de seu tempo, tinha sua própria lógica, e com isso fazia coisas belíssimas desse mistério que é a música. Eu entrei nesse plano do Renato de transformar isso em música, e nós da Legião fomos cúmplices disso tudo, entrávamos no estúdio e materializávamos aquelas ideias em canções imortalizadas nos discos”, afirma Dado.

O guitarrista e vocalista Philippe Seabra, da Plebe Rude, afirma que Renato fazia música de modo intenso e muito pessoal, e que fazia isso de um modo simples, que possibilitava fácil compreensão por parte das pessoas. A equação favorecia o nível de identificação com o público.

“Ele fazia isso de um modo punk. Tinha toda uma bagagem de pop-rock, e isso é ainda mais brilhante porque ele fazia tudo com acordes simples, fáceis de tocar. E se é fácil de tocar ajuda na difusão da música. É a atitude punk, o empoderamento de poder fazer música com acordes básicos e passar seu recado”, diz Seabra.

A Plebe Rude foi uma banda que sempre esteve presente na vida de Renato. O grupo fez shows juntos com o Aborto Elétrico e a Legião Urbana. Foi em um show da Plebe que o cantor estreou como "trovador solitário". 

Seabra também é o curador da "Rota do Rock" de Brasília, que identifica pontos da capital federal onde aconteceu a história do gênero. Quem visita locais como a casa onde morou Renato Russo e os lugares onde a turma se reunia para tocar ou curtir encontra placas explicativas sobre os fatos relacionados. Pela internet, é possível acompanhar todo o roteiro, que reúne 41 espaços. 

Cantava a verdade

Outro fator citado por ele é que Renato cantava a sua verdade. Para Seabra, mesmo quando o compositor fazia um “pop safado”, citava na letra coisas como “ a gente faz uma feijoada” (presente na letra de “Vamos Fazer um Filme”, do disco “O Descobrimento do Brasil", de 1993), ele escrevia e executava com sinceridade.

“Ele cantava aquilo com convicção, de uma forma agressiva, meio triste, mas fazia aquilo de um jeito dele. Legião era um fenômeno, e fenômeno não se discute. Por isso as pessoas ainda ouvem”, diz.

Renato Russo na juventude
Renato Russo na juventude

A produtora cultural Bianca De Felippes, que já fez diversos trabalhos sobre a obra de Renato Russo, afirma que se surpreende a cada dia com o que encontra sobre o artista. Depois de produzir as versões cinematográficas de “Faroeste Caboclo” e “Eduardo e Mônica” e um musical sobre o cantor e compositor, ela iniciou pesquisa para produzir um documentário sobre o ex-líder da Legião.

“Ele era um artista sem preconceito e com referenciais. Conhecia tudo quanto era banda, filmes, livros, num tempo que não tinha internet. Ele gostava de Xuxa a Pavarotti, e aquilo era real dele”, diz Bianca.

Para ela, a música de Renato se renova e alcança novos públicos, mesmo aqueles que não são herdeiros diretos dos fãs da Legião Urbana. “No musical a gente vê o poder do Renato. É um monólogo, um ator apenas, e o público enlouquece com as músicas.”

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