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Satélites contra o ouro ilegal: como a PF usa inteligência artificial para frear o garimpo

Monitoramento por satélite revela avanço do garimpo ilegal sobre terras indígenas e unidades de conservação

Brasília|Mariana Saraiva, do R7, em Brasília

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O garimpo ilegal causa destruição ambiental e social, incluindo desmatamento e contaminação por mercúrio.
  • Terras indígenas, como a dos yanomamis, foram invadidas por até 30 mil garimpeiros, agravando crises humanitárias.
  • A Polônia Federal utiliza tecnologia avançada, como imagens de satélite e inteligência artificial, para combater o garimpo ilegal no país.
  • O investimento em monitoramento gira em torno de R$ 50 milhões, permitindo a integração de cerca de 680 órgãos públicos na fiscalização ambiental.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Tecnologia e inteligência artificial viram aliadas da PF no combate à exploração ilegal de ouro em áreas protegidas Polícia Federal/Divulgação

O garimpo ilegal está longe de ser sinônimo de progresso. Pelo contrário: deixa um rastro de destruição ambiental, social e humana. A atividade provoca desmatamento acelerado, contamina rios e solos com mercúrio, gera graves problemas de saúde, como danos neurológicos, câncer e doenças infecciosas, e aprofunda a desestruturação social. Conflitos armados, tráfico de drogas, armas e pessoas passam a fazer parte da rotina dessas regiões, que, em vez de desenvolvimento, acumulam pobreza e precarização das condições de vida.

Na terra indígena yanomami, em Roraima, os efeitos dessa engrenagem ilegal foram devastadores. Segundo o OGES (Observatório do Garimpo e seus Efeitos Socioambientais), o garimpo ilegal foi a principal atividade responsável pela crise humanitária vivida pelo povo yanomami.

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Nos últimos anos, entre 25 mil e 30 mil garimpeiros chegaram a invadir o território indígena, impulsionados por uma estrutura robusta que inclui balsas, aviões, bombas de sucção, escavadeiras e acampamentos clandestinos.

O resultado foi o avanço do desmatamento e a contaminação de rios e igarapés pelo uso indiscriminado de mercúrio na extração do ouro.

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Levantamento do Observatório da Mineração mostra que, até fevereiro de 2023, as terras indígenas mais impactadas pelo garimpo ilegal foram kayapó (11.542 hectares) e munduruku (4.743 hectares), no Pará, além da terra indígena yanomami (1.556 hectares), especialmente na porção localizada em Roraima.

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O mercúrio lançado nos cursos d’água não desaparece com o tempo. Ele se espalha por toda a cadeia alimentar, contaminando os peixes, principal fonte de proteína para populações indígenas e ribeirinhas da região Norte.

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Com o pescado impróprio para consumo e a água contaminada, quadros crônicos de desnutrição se agravam. Soma-se a isso o avanço da malária, favorecida pela formação de poças de água nas áreas escavadas, que funcionam como criadouros do mosquito transmissor. O resultado é trágico: centenas de mortes por causas evitáveis.

As Unidades de Conservação também entraram na mira dos garimpeiros. Entre 2010 e 2020, a área ocupada pela atividade garimpeira cresceu 352% dentro dessas áreas protegidas, segundo levantamento da rede MapBiomas (2022).

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As três unidades mais afetadas foram a Área de Proteção Ambiental (APA) do Tapajós (43.266 hectares), a Floresta Nacional do Amaná (5.400 hectares) e a Floresta Nacional do Crepori (1.686 hectares), todas no Pará.

Tecnologia contra o crime ambiental

Para frear esse avanço, a Polícia Federal tem apostado em tecnologia de ponta. O combate ao garimpo ilegal conta hoje com imagens aéreas de satélite e o uso de IA (inteligência artificial).

Em entrevista ao R7, Renato Madsen, da Diretoria da Amazônia e Meio Ambiente da Polícia Federal, destacou a importância dessas ferramentas.

“As imagens de satélite são fundamentais para entendermos a história de um local. Mais do que monitorar em tempo real, elas nos ajudam a reconstruir o que aconteceu ali”, explica.

Além de identificar crimes ambientais, as imagens auxiliam na estimativa dos prejuízos causados à União e ao meio ambiente.

Segundo Madsen, a tecnologia atual permite que o sistema gere alertas automáticos de desmatamento. “Se uma área tinha cobertura florestal até ontem e hoje aparece desmatada, o sistema nos alerta. Ele cruza essas informações com diversas bases de dados e indica se há indícios de crime”, detalha.

A inteligência artificial também consegue identificar o tipo de desmatamento. “Ela diferencia, por exemplo, se é para extração de madeira, mineração, abertura de pista de pouso. Pelas nuances da imagem, a ferramenta aponta a probabilidade do uso do solo e cruza com dados sobre terras indígenas, unidades de conservação e até possíveis proprietários da área”, afirma.

Com esse monitoramento, a PF consegue antecipar a dinâmica do desmatamento, prever sua expansão e avaliar se vale a pena deslocar equipes até o local.

“Usamos imagens de satélite há mais de 15 anos, mas antes era um processo manual e muito mais lento. A partir de 2021, com a criação da Plataforma Brasil Mais e o uso da IA, houve um salto enorme”, ressalta Madsen.

Amazônia no centro do alerta

Segundo o policial federal, a maior concentração de alertas segue na Amazônia. “É onde estão as grandes jazidas de ouro e também as áreas protegidas que não podem ser mineradas, como terras indígenas e unidades de conservação”, destaca.

O uso da inteligência artificial também impulsionou o número e a qualidade das operações. “Hoje, a temática ambiental é a segunda com maior demanda na Polícia Federal. Isso reflete tanto um novo momento do país quanto a eficiência das ferramentas tecnológicas”, afirma.

O investimento do governo federal no sistema de monitoramento e IA gira em torno de R$ 50 milhões. “Esse valor garante acesso a imagens de satélite de todo o país para diversos órgãos públicos. É uma ferramenta ampla, democrática e, hoje, uma das mais utilizadas pela PF na investigação de crimes ambientais”, conclui Madsen.

Plataforma Brasil Mais

A Plataforma Brasil Mais permite o acesso e o compartilhamento de imagens diárias de satélite da constelação PlanetScope, composta por centenas de nanossatélites. As imagens são fornecidas por meio do contrato nº 026/2025, firmado entre a Polícia Federal e a SCCON Geospatial.

Ao todo, são monitorados 8,5 milhões de km² do território nacional, com dados compartilhados com cerca de 680 órgãos públicos. O objetivo é ampliar o acesso às informações, fortalecer a fiscalização ambiental e integrar instituições de todo o país no combate aos crimes ambientais, por meio de adesão formal ao Programa Brasil Mais junto ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.

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