Suspeita de lavagem e confusão patrimonial: o que levou a polícia à produtora de ‘Dark Horse’
Operação investiga notas frias em contrato de R$ 108 mi em SP; decisão cita indícios de repasse indireto de verba pública para filme
Brasília|Do R7, com Estadão Conteúdo
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A Polícia Civil de São Paulo investiga, além de supostas fraudes no contrato de Wi-Fi da prefeitura de São Paulo com o ICB (Instituto Conhecer Brasil), a suspeita de “desvio de finalidade e confusão patrimonial” para a lavagem de dinheiro envolvendo Karina Ferreira da Gama e a produtora Go Up Entertainment Ltda.
Sócia-administradora da Go Up — responsável pelo filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro —, Karina recebeu R$ 1 milhão de uma emenda parlamentar do deputado federal Mário Frias (PL-SP).
Nesta segunda-feira (1º), a corporação cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados à Karina. Os policiais buscaram provas de desvios, autofaturamento e notas fiscais frias em um contrato de R$ 108 milhões para a instalação e o fornecimento de wi-fi gratuito na capital paulista. Ninguém foi preso.
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A decisão judicial que autorizou a Operação Wi-Fi cita a ligação de Karina Gama com a realização do filme Dark Horse. Há suspeita de repasse indireto de recursos públicos oriundos do programa municipal para financiamento audiovisual para o filme. A prefeitura já negou que o longa-metragem tenha recebido recursos municipais.
Em nota divulgada na manhã desta segunda-feira (1º), a administração municipal afirmou que “repudia veementemente ilações de desvios de recursos públicos”, sustentando que o contrato firmado com o Instituto Conhecer Brasil “seguiu rigorosamente os princípios da legalidade, transparência e economicidade” (confira a íntegra abaixo).
A reportagem procurou a Go UP, o ICB e Karina, mas não conseguiu localizar suas defesas. Em oportunidades anteriores, todos negaram qualquer irregularidade. O espaço segue aberto para manifestações.
Inconsistências em faturas
Entre as irregularidades investigadas, está a apresentação de quatro faturas emitidas pela empresa Make Onde Tecnologia Digital Ltda, totalizando R$ 8,5 milhões, sem a emissão das respectivas notas fiscais ou o recolhimento tributário. As faturas têm numeração sequencial, mesma data de emissão e vencimento. Além disso, os valores teriam sido artificialmente fracionados, o que sugeriria possível montagem para justificar saídas ilícitas de recursos financeiros.
A Make One foi uma das empresas contratadas pelo ICB para a execução dos 5 mil pontos de Wi-Fi na periferia da cidade, contrato que está no centro da Operação desencadeada hoje. Ela foi um dos alvos das buscas. A reportagem não conseguiu localizar seus sócios nem advogados. O espaço está disponível para manifestação.
Além da Make One, a investigação também apura notas fiscais emitidas pela empresa Complexys Soluções Integradas no valor de R$ 2 milhões, que foram canceladas no mesmo dia da emissão, mas usadas para justificar despesas em prestação de contas apresentada à prefeitura.
Outra empresa que teria sido usada para justificar os gastos do ICB foi a JR Feijão Ltda, com sede no Ceará, que teria recebido R$ 406 mil em 2024.
Haveria ainda a suspeita de autofaturamento por meio de notas fiscais emitidas pelo ICB de mais de R$ 1,4 milhão e duplicidade de faturas no valor de R$ 925 mil, conforme parecer da própria secretaria municipal, que teria constatado a gravidade das irregularidades financeiras na execução do contrato.
Sócio preso
Por fim, há suspeitas em relação à subcontratação da Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda, atualmente denominada Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda. Contratada pelo ICB por R$ 12 milhões, a Favela Conectada teria recebido R$ 2 milhões até dezembro de 2025.
A polícia chegou a constatar a ausência de dados essenciais no contrato do ICB com a Favela, como o nome completo do representante da empresa contratada, identificado apenas como Alex. A corporação constatou que se trata de Alex Sandro Bispo dos Santos, preso por feminicídio. Após sua prisão, a empresa foi transferida para uma mulher que declarou morar no mesmo endereço do ex-proprietário.
A reportagem não conseguiu localizar as defesa da Complexys, da JR Feijão, da Favela Conectada nem a de Bispo dos Santos. O espaço segue aberto para manifestações.
‘Fins eleitoreiros’
Nesta segunda-feira, o senador e pré-candidato ao Planalto pelo PL, Flávio Bolsonaro, comentou a operação realizada pela Polícia Civil. Ele afirmou que a ofensiva não tem relação com o filme Dark Horse.
“Não foi uma operação contra a produtora. Foi com relação a algo que foi feito alguns anos atrás, um contrato com uma entidade que tratava de levar wi-fi gratuito para a população”, argumentou. “Inclusive, foi um contrato firmado muito antes de sequer existir alguma ideia para o filme. Então, em tese, não tem nada a ver com a produção”, acrescentou o parlamentar.
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Flávio também sugeriu que a investigação tenha motivação política. “Eu não quero crer que uma parte da polícia esteja sendo usada para fins eleitoreiros e que uma operação como essa esteja sendo utilizada não para verificar se houve algum problema nesse contrato de wi-fi, mas para tentar, por uma via transversa — chamada pescaria probatória — encontrar alguma coisa que possa ser usada contra o filme do presidente Bolsonaro”, declarou.
Nota oficial da prefeitura de SP
“A Prefeitura de São Paulo informa que colabora com investigações em andamento e segue à disposição das autoridades, tendo já prestado informações. Todo o material requisitado na manhã desta segunda-feira já havia sido disponibilizado às autoridades e são, desde sempre, de acesso público, por meio da prestação de contas do município. A administração ressalta que o programa funciona normalmente na cidade e pode ser acompanhado em tempo real no link https://wifilivrecomunidades.org/sp. Por volta das 9h desta segunda-feira, dos 3,2 mil pontos contratados pela prefeitura, apenas 52 estavam off-line e passavam por manutenção. Não houve pagamento por parte da administração para 5 mil pontos. O aditivo em questão é exclusivamente para manutenção dos 3,2 mil pontos já instalados nas comunidades periféricas da cidade.
A prefeitura reforça que toda a prestação de contas, com documentos, notas fiscais, contratos e outras informações, está no sistema SEI, que é público. O processo passou também por acompanhamento do Tribunal de Contas do Município (TCM). A Prefeitura repudia veementemente ilações de desvios de recursos públicos, uma vez que o contrato do Instituto Conhecer Brasil seguiu rigorosamente os princípios da legalidade, transparência e economicidade.
Vale lembrar que o chamamento público, aberto por 30 dias para qualquer entidade interessada, ocorreu em 2024, quando não havia sequer produção do filme mencionado, e o processo cumpriu todas as exigências legais. Para 2026, o custo estimado na parceria com o instituto corresponde a R$ 1.280,80 por ponto/mês, significativamente menor do que as propostas recebidas em 2022, de R$ 2.026,26 por ponto/mês e R$ 5.092,14 por ponto/mês."
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