Especialistas veem limites para China substituir mercado norte-americano após tarifaço
Diante do cenário, foco do governo brasileiro segue na diversificação de aliados, mas também na continuidade do diálogo com os EUA
Brasília|Giovana Cardoso, do R7, em Brasília
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Alvo de um novo tarifaço dos Estados Unidos, o Brasil busca manter o diálogo com o governo de Donald Trump, ao mesmo tempo em que tenta construir novas parcerias comerciais. Entre as alternativas está a China, que, apesar de ser a maior parceira do Brasil, não consegue absorver automaticamente a lacuna deixada pelo mercado norte-americano, segundo especialistas ouvidos pelo R7.
A tentativa de expansão da colaboração com os chineses é focada principalmente nos segmentos ligados ao agronegócio, o que dificultaria a incorporação, por parte do país asiático, dos produtos manufaturados e de maior valor agregado produzidos pelo Brasil.
“Não é um mercado fácil. Existem barreiras sanitárias, tarifárias e toda uma legislação que o empresário precisa cumprir para deixar o produto apto ao consumo no mercado interno”, destaca o especialista em comércio exterior Felipe Teixeira, que aponta ainda as longas distâncias entre Brasil e China como um dificultador para as relações comerciais entre as duas nações.
“Para um país da Ásia, exportar uma fruta ou uma commodity para a China é muito mais simples do que para o Brasil, que precisa colocar a carga em contêiner, embarcar em navio e enfrentar uma logística muito mais longa e cara. Tudo isso precisa entrar na conta para saber se a operação realmente é viável”, argumenta.
Desde 2009, o país asiático é o maior parceiro comercial do Brasil, tendo alcançado o recorde no intercâmbio comercial em 2025, com US$ 100 bilhões. Além da China, o governo brasileiro negocia acordos de livre comércio com a Coreia do Sul e Japão.
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Mercosul e China
A necessidade de ampliar mercados também levou o governo a atuar diretamente na expansão das parcerias do Mercosul. No último dia 26, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Xi Jinping, da China, concordaram em acelerar as tratativas para um acordo Mercosul-China, “que contemple as necessárias flexibilidades”.
Em outra frente, o bloco promulgou, no dia 28 de julho, um acordo de livre comércio com Singapura, que prevê a eliminação de tarifas para 100% das exportações brasileiras ao país asiático.
Para a internacionalista e diretora de Relações Governamentais da BJM, Rebeca Lucena, o acordo entre o Mercosul e a China pode aumentar a sensibilidade política em Washington. Isso não significa, na avaliação dela, que o Brasil esteja optando por um alinhamento exclusivo com Pequim ou se afastando dos Estados Unidos.
“É claro que esse movimento pode ser utilizado politicamente pelo governo americano, mas uma tentativa de pressionar o Brasil a abandonar essa negociação tende a produzir o efeito contrário. Quanto maior a utilização de tarifas como instrumento de política externa, maior o incentivo para que países como o Brasil diversifiquem seus parceiros comerciais e reduzam sua dependência de um único mercado”, ressalta.
O possível acordo não é imediato e leva tempo, principalmente por englobar outros países, o que traz o foco para as parcerias bilaterais. A especialista entende que a aproximação com a China não precisa ser interpretada como uma substituição de alianças, “mas como parte de uma política externa que busca preservar autonomia e reduzir a dependência de qualquer mercado específico”.
Margem para negociar
Com a nova taxação dos EUA, o governo brasileiro avaliou, em um primeiro momento, aplicar a lei da reciprocidade, voltando atrás após pressão de entidades empresariais, que acreditam que uma eventual “retaliação” pode agravar os impactos sobre as exportações brasileiras, principalmente por acreditarem que a motivação de Trump é política, o que tornaria a medida pouco eficaz.
O cenário fez com que o Executivo descartasse a ofensiva e focasse em uma estratégia de reação fria e calculada, buscando preservar margem de negociação e maximizar ganhos para o Brasil.
Para o especialista em comércio exterior Jackson Campos, a aplicação da lei da reciprocidade teria o poder de punir o brasileiro ainda mais, com impactos que ultrapassam os efeitos das tarifas em vigor.
“O Brasil depende muito da tecnologia dos EUA por meio de importações, então aplicar a lei da reciprocidade é punir o brasileiro duas vezes: uma pelo desemprego que as quedas nas exportações podem gerar e outra porque, aumentando o imposto de produtos importados, o custo será repassado ao consumidor, gerando inflação”, salientou.
Rebeca Lucena destaca que o período eleitoral, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos (eleições legislativas), deve contribuir para o prolongamento das negociações. “Nesse contexto, a política comercial tende a permanecer fortemente influenciada por considerações domésticas e eleitorais, o que pode dificultar uma solução definitiva, mas não impede avanços graduais, novas exceções e entendimentos setoriais”, finaliza.
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