Tarifaço: ex-secretário de Comércio alerta para alto risco ao setor de calçados e móveis
Welber Barral será um dos interlocutores do setor produtivo do Brasil nas audiências dos EUA sobre o tarifaço
Brasília|Débora Sobreira*, do R7, em Brasília
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A série de audiências públicas sobre as propostas tarifárias, que se iniciou nessa segunda-feira (6) em Washington, nos Estados Unidos, reúne representantes da sociedade civil e dos setores produtivos para uma discussão antes da decisão final do governo americano. Confirmado no debate, o ex-Secretário de Comércio Exterior do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio), Welber Barral, teme um risco de diferentes escalas de prejuízo para o mercado brasileiro caso as sanções prevaleçam.
Em entrevista ao R7, Barral afirma já não enxergar uma ameaça generalizada à indústria nacional, porém alerta para um risco elevado a setores de maior dependência do mercado norte-americano; é o caso do ramo de calçados, que tem os Estados Unidos como o principal comprador.
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“O Brasil não é mais tão dependente do mercado americano; são só 9% das exportações brasileiras hoje. Mas tem setores específicos que são muito afetados: é o caso do setor de móveis, de algumas empresas do setor de calçados, têxteis, que acabaram investindo muito no mercado americano e foram afetados. Ou seja, você não tem um efeito macroeconômico, mas sim um efeito setorial importante”, explica.
A nova proposta de taxações contra o Brasil inclui tarifas de 12,5% e sobretaxas de 25% que, caso sejam efetivadas, podem afetar cerca de 4.187 produtos de origem brasileira — o que equivale a US$ 14,9 bilhões —, segundo levantamento da CNI (Confederação Nacional da Indústria).
Welber é advogado e ocupou a pasta do MDIC entre 2007 e 2011. Ele participará da roda de audiências públicas a serem realizadas nesta semana por meio da BMJ Associados, escritório do qual é sócio-fundador e que representa onze empresas e entidades com interesses ligados à discussão. Com a manifestação por escrito já protocolada no USTR (United States Trade Representative), a estratégia para esta semana é a leitura de uma versão reduzida com as demandas principais.
“O governo articulou, reuniu-se com o setor privado antes, alinhou a manifestação que eles iriam fazer para que não ficasse repetitiva, e, a partir de agora, a negociação está sendo 100% conduzida pelo governo”, conclui.
Barral defende que o momento é crucial não somente por questões políticas, mas principalmente para o debate técnico.
“O que vai acontecer depois é que o relatório final vai considerar essas demandas, e isso é importante para a eventual discussão judicial futura, inclusive para a legalidade da investigação nas próprias cortes americanas”, diz o advogado.
Debates sobre sanções
A sequência de audiências que tomarão espaço nos Estados Unidos ao longo desta semana tem como foco a proposta do governo norte-americano de impor tarifas de 25% aos produtos brasileiros, divulgadas pelo presidente Donald Trump em junho deste ano.
A gestão do líder norte-americano acusa o Brasil de práticas desleais ligadas ao comércio, que emplacam o país na Seção 301, mecanismo dos EUA que permite o uso de sanções unilaterais como mecanismo de retaliação.
As principais acusações do USTR ao Brasil envolvem: tentativa de regulação das redes sociais, concorrência desleal do Pix em relação às bandeiras de crédito americanas; negligência no combate ao desmatamento, à corrupção e à violação de propriedade intelectual; falta de reciprocidade na exportação de etanol e aplicação de tarifas favoráveis ao comércio com o México e com a Índia.
O Brasil tem até 15 de julho para negociar uma proposta de negociação para extinção das tarifas de 25% sobre remessas destinadas aos EUA.
*Estagiária do R7, sob supervisão de Augusto Fernandes, editor-chefe.
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