Trump pediu ao Brasil que não proibisse ‘dissidentes políticos’ nas eleições de 2026
Exigência fazia parte de pacote apresentado pelos EUA durante as negociações para revisão de tarifaço de 50%
Brasília|Natália Martins, da RECORD Brasília, e Augusto Fernandes, do R7, em Brasília
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O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exigiu que o Brasil se comprometesse a realizar eleições “livres e justas” em 2026 e não prendesse, detivesse ou restringisse “arbitrariamente” a participação de “dissidentes políticos” no processo eleitoral.
A exigência foi apresentada durante as negociações entre os dois países para a revisão do tarifaço de 50% imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros no ano passado.
A demanda consta de um documento elaborado pelo governo americano e entregue a negociadores brasileiros. O texto reunia 21 exigências de Washington para a revisão das tarifas. A existência do documento foi confirmada ao R7 por outras fontes da diplomacia brasileira.
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A proposta não foi aceita pelo governo brasileiro. Uma fonte do Itamaraty confirmou à reportagem que diplomatas brasileiros receberam o documento durante as negociações, mas afirmou que a exigência não prosperou.
Segundo essa fonte, o governo brasileiro argumentou que não existem dissidentes políticos no Brasil. A avaliação apresentada pelos diplomatas foi a de que, em uma democracia, não há essa categoria de pessoas.
Exigências dos Estados Unidos
Em um dos pontos, os Estados Unidos estabeleceram que o Brasil deveria se comprometer com a realização de eleições presidenciais “livres e justas” em 2026.
Na sequência, o documento determinava que o país não deveria “deter, prender nem limitar arbitrariamente, de qualquer outra forma, a participação de dissidentes políticos no processo eleitoral”.
A questão eleitoral foi uma das 21 demandas apresentadas pelos Estados Unidos. A maior parte dos pontos tratava de questões comerciais e econômicas, mas o pacote também incluía temas relacionados à liberdade de expressão, redes sociais, sanções financeiras e acesso de empresas americanas ao mercado brasileiro.
Trump citou Bolsonaro ao justificar tarifaço de 50%
A exigência apresentada durante as negociações retoma um argumento utilizado por Trump quando anunciou, em julho de 2025, a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros.
Ao confirmar a medida, o presidente americano citou explicitamente o processo contra Jair Bolsonaro e afirmou que o tratamento dado ao ex-presidente poderia comprometer a realização de eleições “livres e justas” no Brasil em 2026.
Na ocasião, Trump afirmou que autoridades brasileiras estariam “perseguindo” Bolsonaro e classificou como injustas as acusações criminais contra o ex-presidente relacionadas ao segundo turno das eleições de 2022.
Também criticou a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de levar Bolsonaro a julgamento por tentativa de golpe de Estado, no qual ele foi condenado a 27 anos e três meses de prisão.
“A perseguição política, por meio de processos fabricados, ameaça o desenvolvimento ordenado das instituições políticas, administrativas e econômicas do Brasil, inclusive comprometendo a capacidade do país de realizar eleições presidenciais livres e justas em 2026. O tratamento dado pelo governo brasileiro ao ex-presidente Bolsonaro também contribui para a ruptura deliberada do Estado de Direito no Brasil, para a intimidação com motivação política e para violações dos direitos humanos”, disse Trump no decreto que confirmou o tarifaço, à época.
O presidente americano também mencionou decisões tomadas no Brasil envolvendo empresas e cidadãos dos Estados Unidos. Trump afirmou que essas medidas teriam violado a liberdade de expressão de americanos e pressionado empresas americanas a restringirem conteúdos publicados por usuários, sob risco de multas, processos criminais, congelamento de bens ou exclusão do mercado brasileiro.
“As políticas, práticas e ações do Governo do Brasil são repugnantes aos valores morais e políticos de sociedades democráticas e livres e conflitam com a política dos Estados Unidos de promover governos democráticos em todo o mundo, o princípio da liberdade de expressão e eleições livres e justas, o Estado de Direito e o respeito aos direitos humanos.”
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