Exportadores contestam tarifas propostas por Trump e apontam efeitos colaterais nos EUA
Para representantes dos setores de alimentos, tecnologia e insumos industriais, sobretaxas não resolverão disputas comerciais
Economia|Augusto Fernandes, do R7, em Brasília
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7
Representantes de diferentes setores da economia brasileira e de empresas norte-americanas que importam itens do Brasil começaram a se mobilizar formalmente contra as novas tarifas propostas pelo governo dos Estados Unidos para uma série de produtos.
Em manifestações enviadas à consulta pública aberta por Washington, empresas e entidades argumentam que as sobretaxas poderão provocar aumento de preços, interrupções em cadeias de suprimentos e perda de competitividade para empresas norte-americanas, sem produzir os efeitos pretendidos pelas autoridades dos EUA.
Na semana passada, a equipe econômica norte-americana propôs a aplicação de duas tarifas adicionais sobre produtos brasileiros: uma de 25%, sob a alegação de que o Brasil adota práticas comerciais consideradas desleais em áreas como comércio digital, sistemas de pagamento e combate ao desmatamento ilegal; e outra de 12,5%, relacionada ao que o governo dos EUA classifica como insuficiência no enfrentamento ao trabalho forçado.
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As medidas ainda não foram implementadas. Antes de bater o martelo, o governo norte-americano abriu um período para receber contribuições de empresas, associações e especialistas interessados no tema. Duas audiências públicas estão previstas para o início de julho.
Nos documentos já protocolados, setores ligados à pesca, siderurgia, tecnologia, agricultura e alimentos sustentam que as tarifas podem atingir justamente empresas e consumidores norte-americanos que dependem de produtos brasileiros.

Pescados
Representantes do setor de pescados argumentam que os Estados Unidos dependem estruturalmente de importações para abastecer aproximadamente 80% do consumo doméstico de frutos do mar.
O setor afirma que os produtos brasileiros não competem diretamente com uma produção doméstica robusta e, por isso, a tarifa não estimularia a indústria norte-americana. Em vez disso, o custo adicional seria absorvido por importadores, restaurantes e redes varejistas, chegando ao consumidor final por meio de preços mais elevados.
Os representantes também questionam a lógica da medida ao destacar que a pesca marinha não possui relação com temas que fundamentaram a investigação norte-americana, como comércio digital, sistemas de pagamento ou desmatamento ilegal.
Siderurgia
Outro setor que apresentou objeções foi o de ferro-gusa, insumo utilizado por siderúrgicas e fundições norte-americanas.
A argumentação é que o produto brasileiro ocupa uma posição estratégica nas cadeias industriais dos Estados Unidos devido ao seu elevado grau de pureza e às características obtidas pelo processo produtivo baseado em carvão vegetal.
“A substituição desse insumo por materiais de qualidade inferior aumenta o risco de falhas em componentes utilizados em aplicações submetidas a altos níveis de esforço, comprometendo a integridade estrutural de bens industriais produzidos nos Estados Unidos”, diz o documento apresentado na consulta pública.
No ano passado, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, o produto ficou em quinto lugar no ranking de exportações do Brasil para os EUA, movimentando US$ 1.744.308.666.
Os representantes afirmam que o mercado norte-americano praticamente não possui oferta doméstica suficiente para substituir o material importado. Além disso, alternativas tradicionalmente utilizadas pelos Estados Unidos, especialmente fornecedores da região do Mar Negro, teriam sido comprometidas pela guerra na Ucrânia e por sanções econômicas internacionais.
Na avaliação do setor, a tarifa poderia provocar aumento imediato dos custos de produção de peças industriais, motores, equipamentos agrícolas e outros bens manufaturados.
Tecnologia
Representantes do setor de tecnologia também contestaram a proposta norte-americana.
O argumento apresentado é que a aplicação de tarifas sobre bens físicos não possui relação direta com as questões investigadas pelo governo dos EUA, que envolvem temas como comércio digital, sistemas de pagamento eletrônico e propriedade intelectual.
Segundo a manifestação, exportadores de produtos e serviços não têm controle sobre decisões regulatórias ou judiciais tomadas pelo governo brasileiro e, portanto, acabam sendo penalizados por questões sobre as quais não exercem influência.
Mel orgânico e sementes
O setor de mel orgânico destacou a forte dependência do mercado norte-americano da produção brasileira. Segundo a manifestação, mais de três quartos do mel orgânico certificado importado pelos Estados Unidos têm origem no Brasil.
Os representantes afirmam que esse mercado depende de cadeias de fornecimento altamente especializadas, envolvendo certificações, rastreabilidade e relações comerciais construídas ao longo de vários anos.
Na avaliação do setor, uma substituição rápida por outros fornecedores seria praticamente inviável, o que poderia gerar escassez do produto e aumento de preços.
Argumento semelhante foi apresentado pelo setor de sementes. A avaliação é que as cadeias globais de fornecimento são essenciais para o desenvolvimento e a circulação de novas tecnologias agrícolas.
As entidades afirmam que a imposição de tarifas pode dificultar o acesso de agricultores norte-americanos a inovações importantes para ganhos de produtividade, além de afetar empresas do próprio setor instaladas nos Estados Unidos.
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