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‘Perda de renda’ com crédito consignado acende sinal de alerta nas construtoras

Desconto em folha reduz capacidade de pagamento da população e ameaça linhas de financiamento das empresas

Economia|Do Estadão Conteúdo

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Crescimento do crédito consignado e endividamento das famílias preocupam construtoras.
  • Construtoras populares, como as do Minha Casa Minha Vida, enfrentam riscos maiores devido à falta de poupança dos clientes.
  • O aumento do crédito consignado, especialmente com o FGTS como garantia, reduz a renda disponível e eleva o risco de inadimplência.
  • Construtoras como MRV e Cury monitoram de perto a situação, que já afeta vendas e pode impactar outros setores econômicos.

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Risco é maior para construtoras de moradias populares, no âmbito do Minha Casa Minha Vida Ricardo Stuckert/PR - Arquivo

A disparada na liberação do crédito consignado, somada ao endividamento significativo das famílias brasileiras, acendeu o sinal de alerta das construtoras. Há uma preocupação de que uma possível piora na capacidade de pagamento da população atrapalhe não somente as vendas de imóveis, mas os financiamentos concedidos aos consumidores.

Esse fator de risco é mais alto para as construtoras que atuam no segmento de moradias populares, dentro do Minha Casa Minha Vida. Nesses casos, é muito comum o cliente não ter uma poupança capaz de arcar com valores que variam de 20% a 30% do preço do imóvel, pagos na entrada da compra.


Esse montante acaba parcelado pelas construtoras — uma espécie de financiamento, chamado de “pro soluto” no jargão do setor. Embora facilite os negócios, o problema do pro soluto é que ele não tem garantia em caso de inadimplência dos consumidores, pois o imóvel já é usado como salvaguarda para o banco, que financia os 70% a 80% restantes.

Inadimplência

Com o endividamento crescente da população, turbinado pelo novo consignado, o risco de inadimplência está mais alto. “O valor líquido do salário recebido pelos empregados vem sendo reduzido pelo consignado privado. O risco da carteira de pro soluto está se ampliando”, constata o consultor de negócios imobiliários José Urbano Duarte, ex-diretor de habitação da Caixa Econômica Federal.


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A concessão de consignado no Brasil girava em torno de R$ 1,6 bilhão por mês, na média, até março de 2025. Foi quando o governo federal lançou o “Crédito do Trabalhador”, modalidade de consignado que tem o FGTS como garantia, abrindo espaço para taxa de juros menores. Depois disso, o volume de empréstimos saltou para mais de R$ 6 bilhões por mês, atingindo um pico de R$ 10,9 bilhões em março de 2026, conforme levantamento feito por Urbano.

O reflexo desse crescimento a passos largos do crédito consignado é a “perda de renda” da população nos meses seguintes, uma vez que a parcela dos financiamentos é debitada diretamente do contracheque dos trabalhadores para pagar os bancos em primeiro lugar. O resultado é o aumento no risco de inadimplência em outros compromissos já assumidos por essas pessoas, abrangendo desde o pro soluto até o aluguel e a fatura do cartão de crédito, entre outras contas.


“A consequência dessa dinâmica é o menor risco do consignado para os bancos e aumento da oferta dessas linhas, porém com uma captura crescente da renda e ampliação do risco, aumentando a inadimplência nas demais linhas de crédito”, observou Urbano.

Fator de pressão

O diretor financeiro da MRV, Ricardo Paixão, concorda que o cenário merece atenção das construtoras, bem como de outros setores produtivos. “Isso atrapalha tudo, não só a carteira pro soluto. Afeta desde o aluguel até os gastos nos supermercados”, ressaltou.


“O banco é como um credor sênior do consumidor. A vantagem é ser uma dívida mais barata, mas o problema é a população ficar cada vez mais endividada. Pode ser um fator de pressão”. O diretor financeiro acrescentou que a MRV não teve piora na inadimplência dos seus clientes até aqui, mas afirmou que esse é um ponto de atenção para o ano.

A construtora Cury também está de olho nesse quadro. “A inadimplência requer um monitoramento de perto. Impactou nossa carteira? Ainda não. Ela ainda está sob controle, mas estamos realmente muito atentos devido a famílias estarem mais endividadas”, disse João Carlos Mazzuco, diretor financeiro da Cury.

O copresidente da construtora, Leonardo Mesquita, por sua vez, afirma que o endividamento crescente já atrapalha as vendas. “Há muitas pessoas que deixam de comprar um imóvel pelo nome negativado. Nos estandes, dizemos muito mais ‘não’ do que ‘sim’. O endividamento nos atrapalha”, ressaltou.

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