Por que você leva um susto ao pegar no sono? A ciência explica
O famoso tranco antes de dormir pode ser um reflexo antigo preservado pelo cérebro humano
Fala Ciência|Do R7

Você está quase dormindo quando, de repente, sente o corpo dar um tranco. Em alguns casos, a sensação é tão intensa que parece uma queda livre. O coração acelera, os olhos se abrem e o sono desaparece por alguns segundos. Embora essa experiência possa parecer estranha, ela é extremamente comum e tem nome: espasmo mioclônico do sono, também conhecido como hypnic jerk.
Estima-se que a maioria das pessoas já tenha vivenciado esse fenômeno ao menos uma vez na vida. Apesar de causar preocupação em algumas situações, ele costuma ser considerado um evento fisiológico normal durante a transição entre a vigília e o sono.
Quando o cérebro interpreta errado o relaxamento muscular
À medida que adormecemos, o organismo inicia uma série de mudanças. A frequência cardíaca diminui, a respiração se torna mais lenta e os músculos começam a relaxar progressivamente.
Em algumas pessoas, porém, o cérebro parece interpretar esse relaxamento abrupto como um sinal de perigo. Como resultado, ocorre uma descarga nervosa repentina que provoca uma contração involuntária dos músculos, produzindo o famoso “tranco” que desperta o indivíduo.
Esse movimento pode ser acompanhado por diferentes sensações, como:
• Impressão de estar caindo de um lugar alto.
• Sensação de tropeço ou desequilíbrio.
• Percepção de um choque rápido pelo corpo.
• Breve sensação de susto ou alerta.
Embora o mecanismo exato ainda seja investigado, os cientistas acreditam que ele esteja relacionado aos circuitos cerebrais responsáveis pela vigilância e pela manutenção da postura corporal.
Uma possível herança dos nossos ancestrais
Uma das hipóteses evolutivas mais conhecidas sugere que o espasmo mioclônico pode ter surgido em um período remoto da evolução dos primatas.
Segundo essa teoria, ancestrais que descansavam em árvores precisavam evitar quedas durante o sono. Quando o relaxamento muscular acontecia rapidamente, o cérebro poderia interpretar essa mudança como uma perda de equilíbrio iminente. Como resposta, acionava um movimento brusco capaz de reposicionar o corpo ou aumentar o estado de alerta.
Embora essa hipótese não possa ser comprovada diretamente, ela continua sendo uma explicação plausível para a persistência desse reflexo em humanos modernos.
O que a ciência recente descobriu sobre os espasmos mioclônicos
O interesse científico pelos movimentos involuntários durante o sono permanece ativo. Em março de 2025, uma revisão publicada na revista Movement Disorders Clinical Practice, liderada por Anna Latorre, analisou os mecanismos neurofisiológicos envolvidos em diferentes formas de mioclonia. O trabalho destacou a importância das redes cerebrais que controlam movimentos rápidos e involuntários, contribuindo para a compreensão desses fenômenos durante as transições entre vigília e sono.
Além disso, pesquisas atuais indicam que fatores como estresse, ansiedade, privação de sono, consumo excessivo de cafeína e fadiga física podem aumentar a frequência dos espasmos mioclônicos em pessoas predispostas.
Quando o tranco ao dormir merece atenção?
Na maioria dos casos, o fenômeno é totalmente benigno. Entretanto, vale procurar avaliação médica se os episódios forem muito frequentes, causarem insônia importante ou vierem acompanhados de outros sintomas neurológicos.
Felizmente, para a grande maioria das pessoas, o susto antes de dormir é apenas um lembrete curioso de que nosso cérebro ainda carrega vestígios de mecanismos desenvolvidos ao longo de milhões de anos de evolução.
Da próxima vez que sentir aquela sensação repentina de queda, lembre-se: seu organismo pode estar reproduzindo um reflexo que ajudou ancestrais distantes a permanecerem seguros enquanto descansavam.














