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A militarização permanente dos Estados Unidos

EUA gastaram mais de US$ 700 bilhões no ano passado com defesa

Internacional|Do R7

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Pilotos da Guarda Nacionla da Georgia preparam o helicóptero Chinook CH-47 para levantar voo
Pilotos da Guarda Nacionla da Georgia preparam o helicóptero Chinook CH-47 para levantar voo

Em 1961, o presidente Dwight D. Eisenhower deixou o cargo com um alerta contra o poderio crescente do complexo industrial militar na vida norte-americana. A maioria se lembra do termo popularizado pelo presidente, mas poucos se lembram dos argumentos.

No discurso de despedida, Eisenhower defendeu um melhor equilíbrio entre assuntos militares e domésticos na nossa economia, política e cultura. Ele temia que a busca do setor de defesa por lucros deformaria a política externa e, de forma oposta, o excesso de controle estatal sobre o setor privado causaria estagnação econômica.


Eisenhower alertava que preparativos contínuos para guerra eram incongruentes com a história da nação. O presidente advertia que a guerra e seus preparativos ocupavam uma porção grande demais da vida nacional, com desdobramentos graves em nossa saúde espiritual.

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O complexo industrial militar não emergiu exatamente da forma prevista por Eisenhower. Os EUA gastam uma quantia enorme em defesa — mais de US$ 700 bilhões no ano passado, quase metade de todos os gastos militares no mundo —, mas em termos de nossa economia total, ele vem declinando gradualmente para menos de cinco por cento do Produto Interno Bruto, contra 14 por cento em 1953.


A pesquisa ligada à defesa não produziu uma guarnição estatal ossificada; na verdade, ela gerou uma série de tecnologias benéficas, da internet, passando pela energia nuclear civil e chegando à navegação via GPS. Os EUA têm uma indústria de armamentos enorme, mas isso não impediu o crescimento econômico e dos empregos. De fato, o argumento favorito do Congresso contra a redução dos gastos com defesa é a perda de empregos que tais cortes acarretariam.

E o setor privado não infectou a política externa na forma como Eisenhower previu. A política externa vem se tornando cada vez mais dependente das soluções militares desde a II Guerra Mundial, mas estamos muito distantes das repetidas ocupações do Haiti, Nicarágua e República Dominicana pelos Fuzileiros Navais do começo do século XX, quando interesses comerciais influenciavam a ação militar.


De todas as críticas contra a Guerra do Iraque, em 2003, a ideia de que foi levada a cabo para, de algum jeito mágico, reduzir o custo do petróleo é a menos crível de todas. Embora seja verdade que mercenários e empreiteiros tenham explorado as guerras da década passada, as decisões difíceis quanto ao uso da força militar são tomadas hoje em dia praticamente do mesmo jeito que na época de Eisenhower: pelo presidente, orientado pelo Estado-Maior conjunto e o Conselho de Segurança Nacional e, mais ou menos, endossado pelo Congresso. As empresas não votam, pelo menos não por enquanto.

Contudo, o alerta de Eisenhower a que menos se deu importância — referente aos efeitos espirituais das preparações permanentes para guerra — agora é mais importante do que nunca. Nossa cultura se militarizou consideravelmente desde os dias de Eisenhower e, os civis, não as forças armadas, foram a causa principal. Do uso constante da frase "apoie nossas tropas" pelos legisladores para justificar os gastos com defesa, passando por programas de TV e videogames como "NCIS", "Homeland" e "Call of Duty" e chegando ao vergonhoso e irreal "Stars Earn Stripes", reality show da NBC, os norte-americanos estão sujeitos a uma dieta diária de histórias a valorizar os militares enquanto os roteiristas correm atrás de seus próprios projetos políticos e comerciais oportunistas. É claro, os veteranos merecem nosso agradecimento por terem servido o país, a exemplo de policiais, emergencistas e professores. Entretanto, nenhuma instituição – principalmente uma financiada pelos contribuintes — deveria ser imune à crítica ponderada.

Como todas as instituições, os militares trabalham para melhorar sua imagem pública, mas esse é apenas um elemento da militarização. A maior parte do discurso político sobre temáticas militares advém dos civis, que se expressam mais sobre o "apoie nossas tropas" do que os próprios solados.

Pouco ajuda o fato de existirem menos veteranos no Congresso agora do que em qualquer período anterior desde a II Guerra Mundial. Quem serviu apresenta uma probabilidade menor de produzir um elogio sem retoques aos militares, pois estes, como todas as instituições, têm suas próprias frustrações e fracassos. No entanto, para os não veteranos — incluindo quase quatro quintos de todos os congressistas — existe apenas adulação inequívoca e sem hesitação. Os custos políticos de qualquer outra coisa são simplesmente altos demais.

Para comprovar esse fenômeno, não é necessário procurar além do furor contínuo em relação ao embargo — os cortes automáticos, divididos igualmente entre o Pentágono e gastos não ligados à segurança que entrarão em vigor em janeiro se não for fechado um acordo entre dívida e déficits. Como o último livro de Bob Woodward revela, o governo Obama criou a medida no ano passado para incluir cortes na defesa de cabo a rabo, pois se acredita que reduzir a defesa seria tão impensável a ponto de tornar inevitável um meio-termo.

Contudo, depois que um grande acordo orçamentário fracassou, em grande medida por causa da resistência dos republicanos da Câmara dos Deputados, os dois partidos redefiniram o embargo como um ataque às tropas (embora conte com provisões para proteger o pagamento dos militares). O fato de que o embargo também devastaria a educação, saúde e programas para crianças não causou o mesmo impacto.

Eisenhower compreendia as trocas entre armas e alimentos. "Toda arma que é feita, toda belonave lançada, todo foguete disparado, significa, no fim das contas, um roubo de quem tem fome e não é alimentado, de quem sente frio e não é agasalhado", ele advertiu em 1953, no começo de sua presidência.

"O custo de um bombardeiro pesado moderno é este: uma escola moderna de tijolos em mais de 30 cidades. São duas usinas elétricas, cada qual atendendo uma cidade com 60 mil habitantes. São dois belos hospitais, completamente equipados. São cerca de 80 quilômetros de rodovias pavimentadas. Pagamos por um caça aéreo com quase 12 mil toneladas de trigo. Por um único destroier, pagamos com casas novas que poderiam abrigar mais de oito mil pessoas."

Ele também sabia que o Congresso respondia por uma bela parte do problema. (Nos primeiros esboços, Eisenhower se referia ao complexo "militar industrial congressional", mas preferiu não se indispor com a legislatura nos últimos dias no cargo.) Hoje em dia, um pequeno grupo seleto da vida pública está disposto a questionar os militares ou seus gastos, e quem age dessa maneira – do libertário Ron Paul ao esquerdista Dennis J. Kucinich – é desprezado e visto como irrealista.

O fato de tanto o presidente Barack Obama quanto Mitt Romney defenderem aumentos no orçamento da defesa (o segundo sugeriu um valor acima do pedido pelos militares) é uma prova adicional de que os militares são o verdadeiro "trilho condutor" dos políticos norte-americanos. Neste estranho universo no qual quem não tem credenciais militares não pode endossar cortes nos gastos da defesa, coube a um ex-presidente do Estado-Maior conjunto, o almirante Mike Mullen, apresentar o argumento óbvio de que a dívida crescente da nação representava a maior ameaça à segurança nacional.

O apoio acrítico a todas as coisas marciais está se transformando rapidamente no novo normal de nossa juventude. Dificilmente algum dos meus alunos na Academia Naval se lembrará de uma época na qual sua nação não estivesse em guerra. Quase todos eles consideram ser trivial ouvir falar em ataques teleguiados no Iêmen ou ofensivas do Talibã no Afeganistão. O anúncio recente de bases contraterrorismo na África não lhes provocou surpresa, nem as cerimônias militares que agora são atrações regulares nos eventos esportivos. O que não é examinado acaba por se tornar invisível e, em resultado, poucos são os norte-americanos hoje em dia a dedicar consideração suficiente à amplitude completa das atividades violentas levadas a cabo pelo governo em seus nomes.

Caso Eisenhower estivesse vivo, ele ficaria horrorizado com nossa dívida, déficits e o complexo militar industrial ainda em expansão. E, certamente, criticaria a "penetração insidiosa de nossas mentes" por empresas de videogame e redes de televisão, dos noticiários e especialistas partidários. Com tão pouco conhecimento do que Eisenhower chamava de "persistente tristeza da Guerra" e de "agonia certa do campo de batalha", fizeram o mesmo que todos para transformar o trabalho duro da segurança nacional no negócio grosseiro dos políticos e do entretenimento.

(Aaron B. O'Connell, professor assistente de história da Academia Naval dos EUA e oficial da reserva da marinha, é o autor de "Underdogs: The Making of the Modern Marine Corps".)

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