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A prova do lápis, os "brancos de honra" e outros absurdos do "apartheid"

Internacional|Do R7

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Marcel Gascón. Johanesburgo, 12 out (EFE).- Fundado sobre os alicerces de um delirante racismo, o regime segregacionista do "apartheid" trouxe consigo vários conceitos e situações absurdas, como a "prova do lápis" para determinar a raça dos cidadãos ou a condição de "brancos de honra", gozada pelos japoneses. A implantação do regime em 1948 tipificou e recrudesceu a discriminação dos não brancos que já existia na África do Sul desde a chegada dos colonos europeus no século XVI, e deu lugar à infinidade de disposições baseadas na raça das pessoas com o objetivo de basear o ideal puritano dos arquitetos do sistema. O primeiro problema na aplicação da separação racial, proposta pelo projeto dos nacionalistas africâneres - descendentes dos colonos holandeses - era a classificação racial da população. "O governo criou quatro categorias: branco, africano, indiano e 'coloured' (mestiço)", explicou Noor Nieftagodien, professor de história da Universidade Witwatersrand de Johanesburgo, à Agência EFE. "Distinguir entre brancos, africanos e índios era relativamente fácil; o problema era com os 'coloureds'", afirmou Nieftagodien, ao contar sobre a diversidade dos mestiços, gente de raça mista que podia até ter a pele mais clara que muitos brancos. A palidez da pele era uma grande vantagem naquela África do Sul - onde era melhor ser branco que indiano ou mulato, e indiano ou mulato, melhor que negro -, e muitos aspirantes a uma vida melhor aproveitavam a indefinição da categoria "mestiço" para buscar uma "ascensão" em sua condição racial. Uma das tarefas do Escritório de Classificação Racial era resolver as solicitações de mudanças de raça, de mulatos que diziam ser brancos ou de negros que diziam ser mulatos. "A pele clara, o nariz pontiagudo e, sobretudo, o cabelo liso eram requisitos para poder ser considerado branco", contou o professor, relembrando que os funcionários do escritório se dedicavam a medir os narizes dos solicitantes. "Mas o mais importante era a 'prova do lápis', que consistia em colocar uma lapiseira entre os cabelos. Se caísse, a pessoa podia ser considerada branca ou mestiça, mas se permanecesse, só podia ser mestiça ou negra", explicou Nieftagodien. Para tomar a decisão, as autoridades sul-africanas podiam recorrer a uma pergunta aparentemente inocente: "Quanto medem seus filhos?" Os negros costumam indicar a altura das pessoas com os dedos juntos e a palma das mãos viradas para cima, enquanto os brancos o fazem com os dedos estendidos e a palma das mãos para baixo. Um grupo especialmente conflituoso para o "apartheid" foram as comunidades de origem asiática: as minorias chinesas foram atribuídas ao grupo mestiço, ao qual pertencia a historiadora sul-africana de origem chinesa Melanie Yap. Devido às privilegiadas relações econômicas que o regime de Pretória mantinha com o Japão, os japoneses obtiveram a duvidosa consideração de "brancos de honra", que lhes permitia viver e abrir negócios em áreas de brancos, embora não tivessem os mesmos direitos políticos. "Aproveitando suas similitudes físicas, alguns chineses conseguiram este status para desfrutar de seus benefícios", relatou Yap à Efe. Muita dor de cabeça trouxe também o técnico peruano negro Augusto Palacios, que em 1985 comandou o Witbank Aces no Campeonato Sul-Africano de futebol, um esporte praticado e seguido sobretudo por negros. O clube ofereceu a Palacios a casa no centro de Witbank - nordeste do país - que ocupava antes seu antecessor no clube, o argentino branco Óscar Casares. Apesar de ter casa em Witbank, Palacios foi hospedado em um hotel de Hillbrow, um dos poucos bairros mistos de Johanesburgo e uma das regiões mais liberais do país naquela época. "Todos os dias me levavam para treinar em Witbank, a 142 quilômetros", lembra se divertindo Palacios. "Passou um mês, um mês e meio, e me diziam que estavam regularizando a casa, mas tinham medo de me levar porque sabiam que eu não poderia morar lá", conta o treinador, em referência à então área para brancos da conservadora cidade de Witbank. Cansado de esperar, Palacios pegou o carro e se instalou com sua família em sua casa de Witbank, da qual já tinha a chave. Pouco tempo depois da mudança, a polícia tocou a campainha da casa para lhe informar que um negro não poderia viver naquele lugar. Palacios mostrou seu contrato e ficou no imóvel, apesar da pressão de alguns vizinhos. O técnico peruano acabou se mudando, assustado pelo racismo imperante na África do Sul, mas em 1989 voltou para ficar. EFE mg/jt/ma (foto)

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