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Análise: mistura de despreparo e estupidez abateu avião lotado no Irã

Mísseis persas alcançam até 2.900 km/h, mais que o dobro da velocidade do som. Como nações em conflito podem garantir a segurança dos inocentes?

Internacional|Luiz Fara Monteiro, da Record TV

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Phantom F-4 iraniano, semelhante ao da foto, foi abatido por fogo amigo em 2010
Phantom F-4 iraniano, semelhante ao da foto, foi abatido por fogo amigo em 2010

Agosto de 2010

Um caça iraniano Phantom F-4 sobrevoou por engano uma zona proibida de seu próprio país sobre as instalações nucleares de Bushehr, na costa do Golfo Pérsico.


A aproximação do caça soou um alarme na central de operações da Guarda Revolucionária do país, que interpretou a presença como inimiga.

A bateria antiaérea disparou fogo amigo e abateu o caça conterrâneo.


Antes do impacto, os pilotos iranianos ejetaram e saíram vivos do incidente.

Mesma sorte não tiveram as 176 pessoas a bordo do Boeing 737-800 da ucraniana UIA, igualmente derrubado por engano por militares iranianos nesta semana.


Ucranianos prestam homenagem às vítimas da tragédia
Ucranianos prestam homenagem às vítimas da tragédia

Responsabilidade e precaução, muitas vezes, nos impedem de afirmar o óbvio. Sobretudo quando se trata de um acidente aeronáutico que faz vítimas inocentes.

Pelas circunstâncias técnicas analisadas, ainda nas primeiras horas depois da queda, ficou clara a alta probabilidade de a tragédia ter sido causada por fatores externos, e não por falhas técnica ou humana a bordo do Boeing 737-800.


“Um erro imperdoável”, classificou o presidente iraniano Hassan Rouhani, no tuíte abaixo, ao se desculpar publicamente pelas mortes.

A declaração dá fim a pouca desconfiança de parentes dos mortos, em busca de respostas para a tragédia. Mas a dor está longe de ser amenizada.

O Irã alegou que, diante de pouco tempo para tomar decisão, o operador do armamento optou pelo disparo.

“Eu gostaria de ter morrido antes de testemunhar um acidente como este”, disse o comandante das Forças Aeroespaciais iranianas, Amir Hazijadeh.

Em vez da morte, era preferível que Hazijadeh tivesse tirado lições do incidente com o caça de seu país, em 2010.

Restos da aeronave ficaram espalhadas pelo solo iraniano
Restos da aeronave ficaram espalhadas pelo solo iraniano

Despreparo é a única explicação para quem dispara um míssil contra um jato que voava a baixas velocidade e altitude em uma rota de decolagem de um aeroporto internacional. Mesmo um néscio saberia que a possibilidade de se tratar de um alvo civil era enorme. Teria que ser mais obtuso ainda para imaginar que um avião inimigo voaria naquelas circunstâncias. Imagine o Brasil em momento de tensão militar disparando mísseis a esmo em direção a saída da pista do terminal de Guarulhos.

A perplexidade aumenta se lembrarmos que o Irã opera o sistema de mísseis 9M331 de curto e médio alcances terra-ar SA-15, também conhecido como Tor-M1, criado pelos russos na década de 80 e modernizado em 1991. Alcançam uma velocidade de até 2.900 km/h, mais que o dobro da velocidade do som. O dispositivo é detonado pouco antes de atingir o alvo com estilhaços, o que explica fragmentos encontrados na fuselagem do 737.

O equipamento caríssimo e altamente conceituado (inclusive pela OTAN) possui um localizador de alvos, uma estação de controle, computador central e um lançador. E o mais importante: vem equipado com a função 'Friend or Foe' (aliado ou adversário), que deixa claro ao seu operador se o alvo é aliado, inimigo ou não identificado. São necessários 3 homens para operar um Tor-M1, utilizado também por países como China, Venezuela, Azerbaijão e – ironia do destino - Ucrânia.

Proclamar falha nos motores – como fizeram as autoridades iranianas – logo após a queda do avião da Ukranian International foi menosprezar o conhecimento básico de aviação.

Investigações aeronáuticas não se concluem da noite para o dia. São fundamentadas em análise de dados técnicos, meteorológicos, médicos e, é claro, no conteúdo da caixa-preta, que sequer havia sido localizada quando o governo persa tentava vender ao mundo uma versão descarada e simplista.

Até porque falha em motor não faz avião se incendiar e se desintegrar no ar. Falha em motor sequer derruba avião em determinadas cirscunstâncias. E não tirariam do ar as informações de voo transmitidas pelo ADS-B (Automatic Dependent Surveillance-Broadcast) do Boeing, que emitem sinais via satelite de sua localização.

A não ser que os pilotos desligassem o transponder, algo impensado em um jato de aviação comercial.

Aviões, incluindo helicópteros, são projetados para voar algum tempo mesmo em caso de paralisação de seus motores. Em altitude de cruzeiro, jatos comuns são certificados para permanecer no ar por até 3 horas. Os mais modernos, como o Boeing 787 e o A350XWB, ultrapassam 5 horas de planeio com os motores desligados. É isso que dá segurança durante as travessias oceânicas, além da manutenção diferenciada e do número de dispositivos anti-incêndios nos porões dessas aeronaves.

Quem assistiu ao filme “Sully” lembra do comandante realizar um pouso forçado no rio Hudson, em Nova Iorque, depois que os 2 motores de seu A320 se apagaram ao colidir com pássaros em altitude semelhante ao do jato ucraniano. O problema hoje está na irresponsabilidade e falta de preparo de forças militares que atuam em zona civil.

Infelizmente o abate de aeronaves comerciais em períodos de confrontos não é exclusivo do país persa.

O próprio Irã provou esse gosto amargo em 1988, quando o porta-aviões USS Vincennes derrubou um A300 que fazia o voo 655 entre Teerã e Dubai, matando as 290 pessoas a bordo sobre as águas do golfo pérsico.

O sistema BUK, russo, também foi responsável por derrubar o Boeing 777 da Malaysian, que em julho de 2014 cumpria o voo MH17 entre Amsterdan e Kuala Lumpur, vitimando 298 almas.

A pergunta que se faz é: como nações sob tensão militar podem conciliar a administração de conflitos com a segurança de inocentes? E mais ainda: quando líderes mundiais priorizarão o diálogo em detrimento da guerra?

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