Logo R7.com
RecordPlus

Após 2 mortes, China debate segurança de suas duras tradições pós-parto

Internacional|Do R7

  • Google News

Antonio Broto. Pequim, 9 ago (EFE).- A recente morte de duas mulheres que haviam acabado de dar à luz gerou na China um debate sobre a conveniência ou não de manter a tradição do "zuoyuezi", segundo a qual uma mulher que acaba de ter um bebê não pode sair de casa durante um mês e deve seguir outras normas espartanas. Uma destas mães faleceu na última semana de um ataque cardíaco em Xangai após passar vários dias envolvida em uma grossa manta, suportando altas temperaturas e forte umidade, e a outra morreu há poucos meses de trombose pulmonar depois de ficar várias semanas deitada. Estes casos, que alguns consideram não isolados, motivaram alguns médicos a alertar contra as práticas tradicionais chinesas pós-parto, ou "zuoyuezi", termo que significa algo como "fazer o mês". A mais difundida destas práticas, seguidas há séculos e que muitas mulheres chinesas ainda cumprem, inclusive em áreas urbanas, estipula que a nova mãe não pode sair de casa durante os 30 dias posteriores a dar à luz. Durante esse mês, a mulher deve passar o maior tempo possível deitada na cama e longe das janelas, receber poucas visitas e se manter aquecida com auxílio de cobertores, bebendo água quente e submetida a outros costumes considerados como métodos naturais. Há várias proibições durante o "zuoyuezi, incluindo a de ficar em ambientes com ar condicionado ligado, inclusive no quente e úmido verão chinês - e a de ter longas conversas por telefone. As seguidoras mais fiéis a esse período não leem livros nem assistem a televisão ou usam smartphones, pois os olhos têm que descansar, mas podem escutar músicas. O "zuoyuezi" inclui uma complexa lista de alimentos que devem ser ingeridos nesse período (entre eles carne, alho, frutas secas, abóbora) e outros que não (frutas, verduras, cereais, comida picante ou excessivamente salgada). Também são desaconselhadas grandes expressões de sentimentos, como chorar ou rir a gargalhadas, e, a respeito do bebê, não deve tê-lo nos braços excessivamente, já que a milenar tradição considera que o recém-nascido pode se tornar excessivamente dependente, ou inclusive ter um mau desenvolvimento dos ossos. Na hora de dar de mamar - prática que muitas mães tentam abandonar o mais rápido possível -, é preciso fazê-lo deitada na cama e com o bebê ao lado. Estas práticas têm origem em crenças relacionadas com os princípios do taoísmo segundo as quais a mãe, após o parto, tem um excesso de "frio" ou "yin", que deve ser combater atraindo elementos "quentes", ou "yang". "Considera-se que uma mãe que acaba de ter um bebê precisa ter em seu corpo uma grande quantidade de sangue, um elemento considerado 'quente', e se crê que deve se nutrir com alimentos e bebidas igualmente quentes ou usar mais roupas do que o normal", explicou o professor Wang Xiaoli, especialista em saúde pública da Universidade de Pequim, citado pela agência estatal de notícias "Xinhua". Mas, para alguns, especialmente no setor médico, estas práticas são uma tradição sem fundamento científico. Zhang Yun, enfermeira do departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade de Fudan, lembrou que o confinamento em casa nessas condições após o parto durante um excessivo número de dias pode causar graves danos circulatórios ou ao sistema nervoso. Apesar desses debates, o costume de "fazer o mês" continua sendo uma das tradições mais populares inclusive na China mais moderna e urbana: recentes pesquisas apontaram que 71,9% das mulheres não lavam o cabelo no primeiro mês de maternidade. Assim como no Ocidente, existe a superstição de que os "desejos" das grávidas podem ter consequências físicas nos bebês. Muitas idosas chinesas acreditam que os problemas da velhice, como dores de cabeça, nas costas ou artrites, têm sua origem em não terem seguido um estrito "zuouyuezi" quando se tornaram mães. EFE abc/id

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.