Após desistência de Monti, Berlusconi pode ter retorno triunfal na política italiana
Primeiro-ministro perdeu apoio no Congresso e deverá convocar eleições gerais
Internacional|Fábio Cervone, colunista do R7

Em meio ao suspense causado pela persistente crise econômica na Europa, foi possível assistir no fim de semana passado a uma sintomática combinação de atos entre dois importantes personagens do palco político italiano. Em cena no último sábado (8), Silvio Berlusconi, ex-premiê do país, magnata e fundador do partido Povo da Liberdade (Il Popolo dalle Libertá, em italiano), e seu colega Mario Monti, um tecnocrata independente, que atualmente lidera o governo do país, pareciam ter ensaiado antecipadamente a tragédia que apresentaram ao mundo.
Quase que simultaneamente, ambos vieram a público para anunciar o futuro de suas respectivas carreiras políticas. Enquanto o figurão Berlusconi reconheceu sua intenção de concorrer em 2013 pela quinta vez ao cargo de primeiro-ministro, Monti deixou claro que abandonará em breve as responsabilidades desta cobiçada e traiçoeira liderança.
Imediatamente após a divulgação dos distintos posicionamentos dos líderes italianos, nas históricas cidades e paisagens da terra da pizza se espalhou um sentimento desconfortável sobre os próximos capítulos da vida pública em Roma. Tudo indica que a dramaturgia do embate pelo poder que rege os palácios da capital milenar continuará a atrapalhar as reivindicações por reformas do mercado e dos cidadãos.
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Mario Monti surgiu como o salvador do país no fim de 2011, quando o então premiê Berlusconi perdeu a maioria parlamentar, em meio às dificuldades de conduzir a economia nacional em crise. Apesar da enorme confiança que o mercado e as autoridades europeias depositaram em Monti, um experiente político que foi comissário da UE (União Europeia), no sábado, o anúncio de sua saída assustou e pode ser interpretado como um sinal do seu desgaste. Esta suposta fadiga do líder é resultado da difícil tarefa que lhe foi atribuída: a de ser o principal defensor e gestor das severas medidas de austeridade fiscal impostas pela UE, FMI (Fundo Monetário Internacional) e BCE (Banco Central Europeu).
Diante da circunstancial fraqueza de Monti, Berlusconi não perdeu tempo e agora quer disputar novamente o papel de protagonista no teatro político romano. Na verdade, o ex-premiê é indiretamente responsável pelo clima de tensão que dominou recentemente as negociações sobre os gastos e cortes públicos, travadas nos bastidores parlamentares, e que resultaram no término da maioria situacionista no Congresso.
Como ocorreu com seu rival em 2011, Monti está tendo dificuldades para aprovar a lei sobre o orçamento, que dá continuidade ao processo de incremento do controle sobre as contas públicas nacionais. Na ocasião anterior, Berlusconi sucumbiu à traição dos colegas de partido quando se viu incapaz de avançar na agenda legislativa.
Numa reprise do passado recente, membros do Povo da Liberdade (sob influência do seu fundador Berlusconi), que supostamente pertenciam à coalizão governista em vigor, se opuseram à proposta financeira do atual premiê, congelando com isso o cronograma da pauta legislativa, algo vital para a administração executiva da nação.
Seguindo a mesma postura de seu antecessor, Monti pediu um voto de confiança para promulgar a lei. Se os representantes das casas do Legislativo cooperarem, o premiê abrirá mão do cargo e convocará eleições.
O drama que persiste
Poucos meses antes da virada do ano, os parlamentares em Roma começaram esta semana com um perigoso impasse que poderá afetar seriamente o futuro do país e de toda UE. A falta de coesão para a construção de uma maioria no Congresso expõe dois recorrentes obstáculos para a gestão pública e para a democracia na Itália.
O primeiro está no cenário político italiano, que se apresenta pouco renovado, centralizado e muito restrito. A exemplo disto, mesmo sendo obrigado a abandonar o cargo de premiê em novembro de 2011, Berlusconi e seu partido, criado em 2009, mantêm até hoje a relevância nacional com o primeiro lugar entre as demais agremiações nos dois palcos de decisão legislativa. Na Câmara dos Deputados, o grupo do ex-premiê possui 206 representantes entre os 630 que formam a casa. Mas é no Senado que o Povo da Liberdade está em maior vantagem, contabilizando um total de 127 das 315 cadeiras existentes.
Este grupo político é resultado dos longos anos de domínio do magnata italiano. Desde 1994, Berlusconi assumiu o cargo mais importante do país por três vezes, somando um total superior a nove anos de poder não continuado. Nesse espaço de tempo, seus governos e posturas políticas se identificaram em princípio com a direita.
Entretanto, com um estilo populista e personalista, ele investiu particularmente em projetos que ajudassem seus investimentos privados, atacou a independência do Judiciário para evitar suas próprias condenações nos tribunais do país, reformou o sistema e perseguiu rivais para ampliar e centralizar seus poderes.
O segundo obstáculo que exige reflexão é a estrutura democrática da nação mediterrânea, que foi constituída pela lógica do parlamentarismo. Em função disso, o poder executivo italiano é formado a partir da configuração do legislativo eleito nas urnas.
Por isso, se os senadores e deputados não conseguirem estabelecer e manter durante a legislatura uma aliança majoritária estável, o primeiro-ministro e seu governo, sem base de apoio no Congresso, podem ser imediatamente substituídos.
Como ocorre atualmente na Itália, em tempos de crise, os temas públicos são mais polêmicos e exigem difíceis concessões ideológicas e financeiras dos atores, as negociações são sensíveis e as articulações para a governabilidade do Estado frágeis. Consequentemente, a continuidade de importantes projetos nacionais é constantemente ameaçada.
Com isso, Berlusconi e seus aliados ainda são a principal força de uma sistema extremamente volúvel em meio ao espetáculo trágico da crise no continente.
A vingança
O que instiga, nesse drama latino, é que o magnata político está aplicando em seu rival o mesmo golpe que lhe foi empregado quando contrariado deixou o cargo de primeiro-ministro em novembro de 2011. Na ocasião, alguns de seus partidários traíram sua liderança e deixaram a base da situação que permitiria o avanço das reformas fiscais exigidas pelo FMI, BCE e UE.
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Neste clima de incertezas, Berlusconi se viu enfraquecido e sem legitimidade. Por fim, ele aceitou a derrota e pediu um último voto de confiança ao Congresso. Em seguida, este gesto seria retribuído com sua renúncia. Dessa forma, o orçamento de 2012 foi aprovado e o político deixou o cargo de chefe de Governo, abrindo caminho para a escolha de Mario Monti como seu sucessor.
Porém, depois de um ano como coadjuvante, Berlusconi colocou recentemente as garras em ação: ele aproveitou a inadiável votação orçamentária em trâmite e voltou à cena mostrando todo seu poder.
Ao aplicar o mesmo veneno que o derrubou no passado, o magnata mostra duas faces de uma mesma moeda: ele aprendeu bem a lição do ano anterior; e o golpe que sofreu deixou cicatrizes. Portanto, o líder não só afiou seu conhecimento sobre o sistema, como quer vingança.
Vaias da plateia
As notícias do retorno aos palcos do ex-prêmie fanfarrão (Berlusconi) e da saída do austero e pragmático mandatário (Monti) da Itália, ressoaram pelo mundo e foram imediatamente respondidas pelo setor financeiro, por jornalistas e analistas políticos.
A quarta economia da Europa, nesta segunda-feira (10), acompanhou de perto a pressão gerada pelo pessimismo do mercado diante das novidades. Este movimento resultou no aumento do valor do risco-país, que superou os 350 pontos (o Brasil está em 154 pontos). A bolsa de Milão, centro financeiro da Itália, também não escapou do corre-corre especulativo e apresentou queda de 2,20% . Além disso, o euro reforçou a desconfiança internacional e se desvalorizou significativamente frente às demais moedas globais.
Nos meios de comunicação, jornalistas e especialistas alertaram para o clima de incerteza que se configurou com os acontecimentos políticos do país. Políticos italianos e internacionais também se juntaram ao coro contra as notícias que chegaram da Itália. Muitos defenderam Monti e pediram que ele continuasse o trabalho, outros simplesmente atacaram Berlusconi.
Mesmo sofrendo diferentes e constantes ataques, o ex-premiê consegue manter o poder combinando a sua riqueza pessoal estimada em R$ 14 bilhões (5,9 bilhões de dólares, segundo a revista Forbes), seu império das comunicações composto pelas principais emissoras de televisão, rádios e jornais do país, e uma influente rede de aliados em todos os âmbitos da sociedade italiana e, em muitos casos, no exterior.
Por isso, o possível vácuo de liderança na democracia local que se desenha deve favorecer o ex-premiê. Se os parlamentares concordarem com Monti e, assim, aprovarem a lei do orçamento ainda em 2012, provavelmente em fevereiro de 2013 ocorrerão eleições gerais no país.
Política dantesca
O espetáculo da política italiana em momentos como este, em que é preciso a aplicação de um projeto contínuo e consistente de reformas, está longe de ser eficiente. Cada vez mais, a letargia e egoísmo dos líderes nacionais se aproximam de situações epicamente descritas na famosa obra literária Divina Comédia, de Dante Alighieri (considerado um dos pais da língua italiana moderna).
Apesar do termo comédia no título, similar à Itália de hoje que transmite aos estrangeiros alegria e diversão mesmo em crise, o referido livro não tem nada de engraçado. Pelo contrário, trata-se de uma longa viagem pelo inferno e purgatório, como se sentem muitos italianos ao sofrerem com a queda generalizada do seu padrão de vida.
Como no texto de Dante, em que é feita uma jornada espiritual, a Itália deve enfrentar antigos fantasmas e reformular muitos conceitos ultrapassados e destrutivos cristalizados inconscientemente no senso comum da nação. Na Divina Comédia, o autor descreve as dores e aflições vividas pela alma ao superar o inferno, atravessar o purgatório e, enfim, chegar ao paraíso.
Não é possível saber exatamente se os italianos estão cruzando o purgatório ou se o que vivem é o suplício das tormentas infernais. Mas para conseguirem alcançar o éden econômico e social, que outrora despontava no horizonte, muita coisa precisa mudar.







