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Aprender a olhar para o chão, a regra para viver em povos minados da Colômbia

Internacional|Do R7

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Cynthia de Benito. San Andrés de Pisimbalá (Colômbia), 25 mar (EFE).- Para poder viver em algum dos 688 municípios da Colômbia assolados pelas minas antipessoais e outros explosivos é fundamental aprender a olhar para o chão, uma norma que centenas de camponeses assimilaram em seu dia-a-dia. "As minas mudaram profundamente a vida da comunidade. Nós antes podíamos caminhar de noite, hoje não mais. Já não fazemos festas por medo. Há um temor generalizado de que a qualquer momento aconteça algo e as pessoas já não têm tranquilidade", disse à agência Efe "Javier", morador de San Andrés de Pisimbalá, no departamento do Cauca. "Javier" não quis dar seu nome verdadeiro porque em sua cidade há certa resistência a admitir que em outubro e novembro foram encontrados artefatos explosivos a poucos metros de um parque infantil. "Algumas pessoas nos disseram que aqui reina o silêncio, que eles (grupos armados) alertaram para a situação (das minas), mas ninguém prestou atenção, ninguém quer assumir a responsabilidade", explicou Luis Enrique Fajardo, voluntário da Cruz Vermelha colombiana. A área povoada de San Andrés está em uma área montanhosa. Com poucas ruas de terra, com casas baixas e muitos caminhos secundários que os moradores já não percorrem, em parte porque sabem que são perigosos, o que eles aprenderam em oficinas de capacitação dadas pela Cruz Vermelha Colombiana. Este projeto, que começou em 2011 para reduzir o impacto da contaminação por armas (APC) e que termina este ano, foi realizado em seis departamentos colombianos com dois focos de atuação: a capacitação de civis para evitar riscos e conhecer seus direitos, e o acompanhamento das vítimas tanto no plano físico como no psicológico. A situação da Colômbia justificava a missão; o país foi em 2013 o segundo do mundo com mais vítimas por minas antipessoais, 368, e, segundo dados da Cruz Vermelha Colombiana, em 45% de seu território houve acidentes por APC, 98% deles em áreas rurais. San Andrés de Pisimbalá cumpre todos os requisitos do perigo. "Nos capacitaram especialmente na contaminação por armas que sofremos neste momento, sobre como se diferencia um objeto comum de uma mina que é semeada a qualquer momento, com o lema de 'não colha o que não plantou'", explicou à Efe Luz Marina Pencue, professora do colégio da cidade. Em seu caso, além de aprender, ensinam as crianças a contornarem o perigo inclusive com exemplos básicos de brinquedos: se veem um avião em uma árvore, antes de se aproximarem devem pensar que uma situação assim não é muito comum. As crianças se transformaram nas principais destinatárias desta capacitação desde que as quatro minas descobertas em outubro estavam na parte traseira do colégio. "Era domingo de manhã, íamos fazer um almoço coletivo. Um professor foi preparar o lugar para pôr a panela e então encontrou o terreno escarvado", lembrou "Javier". Esse é o primeiro sinal. Perceber que o solo mudou e estudar os arredores da zona. "Felizmente tinha recebido capacitação da Cruz Vermelha e algo se acendeu em mim como uma lâmpada. Ao olhar com cuidado encontrei cabos e comuniquei imediatamente às autoridades", detalhou. Quando ocorre uma explosão, a capacitação se transforma em acompanhamento de vítimas, como o que recebeu Liliana Cerón, que conserva em uma de suas pernas as lascas de uma bomba que explodiu em dezembro em Inzá, perto de San Andrés. "Sempre que minha perna dói me lembro desse momento. É muito duro, muda sua vida. Você sempre acha que nunca vai acontecer contigo, mas ninguém está livre de nada", comentou. Não se sabe quantas minas antipessoais há na Colômbia. Há duas semanas, o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que negociam a paz desde novembro de 2012 em Cuba, decidiram erradicar estes artefatos somando as forças do Estado e a informação da guerrilha, mas Cerón é cautelosa sobre o resultado final. "O que fazem em Havana me parece algo que não tem nem pé nem cabeça, porque vão ficar mais grupos armados e isso de paz é para encher a cabeça das pessoas. É impossível, porque além das Farc há mais grupos armados e, se um acabar, outro vai se armar e assim sucessivamente", concluiu. EFE cdb/cd/rsd (foto)(vídeo)

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