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Batalha pela dívida no Congresso americano foi apenas um teatro

No próximo ano, democratas e republicanos se enfrentarão nas eleições parlamentares nacionais

Internacional|Fábio Cervone, colunista do R7

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O deputado republicano John Boehner, porta-voz da Câmara dos Representantes, travou uma batalha de gestos e discursos com o presidente democrata, Barack Obama, durante a crise no Congresso americano
O deputado republicano John Boehner, porta-voz da Câmara dos Representantes, travou uma batalha de gestos e discursos com o presidente democrata, Barack Obama, durante a crise no Congresso americano

O espetáculo de maior sucesso neste mês nos EUA não surgiu na Broadway nem em Hollywood. Desta vez, o palco das cenas que ganharam o mundo foi a capital do país: Washington D.C.. A paralisação do Congresso americano tomou tamanha proporção que fez a audiência explodir. Os políticos foram os protagonistas desse teatro, enquanto a mídia vendia bilhetes na entrada. Os mais catastróficos cenários foram pintados, mas, depois de todo o alvoroço, a temida crise não veio — e nunca iria chegar. Assim, no último ato, a tragédia da batalha orçamentária soou mais como uma farsa para inglês ver.

Os EUA já enfrentaram 18 paralisações orçamentárias desde 1974 — ano em que tal dispositivo parlamentar entrou em vigor —, mas nenhuma foi tão dramatizada quanto a deste ano.


O pequeno impacto causado pela crise no mercado financeiro — durante o período do impasse, no dia 8 o índice Dow Jones teve a sua pior queda de apenas 1%, ou seja, nada drástico — expõe que, pelo menos para os analistas econômicos, não havia nada de novo no script. Entretanto, diante do espetáculo de discursos, imagens e projeções catastróficas, tudo indica que em nenhuma das outras 17 paralisações os atores estiveram tão inspirados.

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Os republicanos, na figura do deputado John Boehner, porta-voz da Câmara dos Representantes, deram início à encenação. Desde 2011, quando eles conquistaram a maioria da casa parlamentar, os opositores de Barack Obama tentam criar obstáculos para o governo. Neste ano, os conservadores americanos entenderam que a paralisação seria o conflito dramático desejado por qualquer diretor.

Obama e seus colegas democratas rapidamente assumiram o papel de vítima, dando força para as especulações catastróficas. Era o enredo perfeito para conquistar o público. Não demorou muito para as pesquisas de opinião apontarem os republicanos como os vilões.


A mídia também abraçou seu papel com fidelidade. Diante da falta de pautas que pudessem ser consumidas em larga escala pela plateia, as manchetes rapidamente propagaram previsões caóticas sobre o desenrolar da crise.

Os meios de comunicação aproveitaram a deixa e, incessantemente, espalharam o temor para a plateia, que, sensibilizada, acompanhou o drama cena após cena.


Quando todos os envolvidos já pareciam crer num clímax sangrento, nada aconteceu.

A tempestade não chegou, nenhuma bomba explodiu, nenhum banco quebrou, nenhum calote anunciado e o mundo não parou.

Apesar de Obama ter dito recentemente que ninguém saiu ganhando com a crise, tal afirmação não é completamente verdade. De fato, o pequeno susto desacelerou a economia americana. Mas o temido “outubro negro” não aconteceu, e agosto continua sendo o período em que foram registrados os piores resultados no ano nas Bolsas de Wall Street — o Dow Jones fechou no mês com queda de 4,45%.

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Enquanto isso, em termos gerais o governo democrata conseguiu engrandecer os temores de uma catástrofe e conquistou o público geral do país. Por outro lado, os republicanos tiveram a imagem afetada pela crise, mas individualmente muitos de seus deputados saíram ganhando com cinco minutos de fama como guardiães contra os gastos “exacerbados” do Poder Executivo.

O republicano John Boehner, em especial, com sua encenação pode já ter garantido mais uma reeleição. O deputado representa o oitavo distrito de Ohio, que escolhe sequencialmente membros do partido conservador desde 1939. O porta-voz da Câmara dos Representantes atraiu os holofotes como o grande guerreiro dos cortes orçamentários, algo muito simpático aos cidadãos da região que o elege desde 1991.

Os meios de comunicação por sua vez garantiram pauta e audiência com o drama.

Mas no fundo, tudo não passou mesmo de um grande teatro, de olho no grande espetáculo no ano que vem: as eleições parlamentares americanas.

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