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"Breaking the Silence", consciência do exército israelense, completa 10 anos

Internacional|Do R7

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Javier Martín. Tel Aviv, 16 jun (EFE).- Em junho de 2004, com a segunda intifada em ebulição, um grupo de soldados e ex-combatentes sacudiu a sociedade israelense, surpreendida e indignada com suas ferozes críticas à ação de um exército que lutava contra a revolta palestina. Transformados na "consciência" das Forças Armadas, até então alheias à censura, foram tratados primeiro como mais um dos movimentos pacifistas extravagantes que as nações geram, e depois, à medida que o medo como pano de fundo caía, como um bando de traidores, covardes e insolentes. Dez anos depois, "Breaking the Silence" (Rompendo o Silêncio) é uma das organizações israelenses mais prestigiadas e uma das poucas bandeiras que restam de pé na luta contra a ocupação da Palestina. "Nós não somos pacifistas por definição, embora alguns de nossos membros tenham optado por isso. Também não estamos contra o exército ou o Estado de Israel", explicou à Agência Efe Yehuda Shaul, um dos motores da organização. "Estamos contra a missão política que foi encomendada ao exército. Estamos contra a ocupação, fomos treinados para a guerra, não para preservar uma injustiça", justificou. Shaul foi um dos primeiros oficiais que há dez anos se colocaram diante de seus compatriotas para dizer que o exército que defendiam não tinha "as armas tão puras" como afirmavam os historiadores sionistas. Alocado em uma unidade de elite na cidade palestina de Hebron, parcialmente ocupada pelo exército - que protege cerca de 800 colonos estabelecidos ilegalmente, denunciou abusos a menores, maus-tratos nas prisões, detenções indiscriminadas e o pânico de homens, mulheres e crianças durante os ataques noturnos. Seu testemunho foi uma libertação, mas também o início de um calvário: às acusações de traidor se uniram o desprezo e a hostilidade de parentes e amigos, e a animosidade do próprio exército. "Primeiro nos criticavam, mas quando o número de soldados que davam testemunho começou a aumentar, optaram por dizer que eram casos isolados", explicou. "O fato de hoje termos dez horas seguidas de testemunhos nesta praça, no centro de Tel Aviv, não simboliza só os dez anos de existência. Queremos dizer: 'aqui estão dez horas de casos isolados'", afirmou Shaul antes de lembrar que durante esta década mais de 950 soldados "quebraram o silêncio". Nadaf, 28 anos, de Tel Aviv, é um deles. Ele serviu entre 2005 e 2008 como franco-atirador na Cisjordânia, em Gaza e na fronteira do Líbano, dentro de uma das unidades de elite da brigada conhecida como An Nahal. Quando terminou seu tempo de serviço, escutou uma palestra de um membro de "Breaking the Silence" na universidade, viu sua história retratada e decidiu falar apesar da indignação de seus pais e da raiva de alguns amigos. "Em Israel, se unir a uma organização de direitos humanos já é considerado um traição. Em princípio te chamam de traidor porque não conhecem Breaking the Silence, mas assim que explicamos o que fazemos, eles entendem", contou à Agência Efe. "Meus pais se indignaram, e agora estão aqui. Leva tempo, mas temos que explicar à sociedade" se quisermos a paz, acrescentou Nadaf, para quem as políticas que o governo promove atualmente, os movimentos ultranacionalistas que pedem a anexação da Cisjordânia em particular, são um erro. "Nós estamos contra a política do governo de prolongar a ocupação. O exército faz o que o governo pede, portanto se conseguirmos mudar o que o governo faz, mudaremos tudo", ressaltou. Hanna viveu experiência semelhante. A jovem judia argentina que migrou para Israel com 15 anos e se uniu ao exército contra a vontade de alguns de seus irmãos, servindo como administrativa na Cisjordânia ocupada. "Dentro dos testemunhos são ditas coisas que a maior parte do povo israelense não escuta porque não são contadas nos meios de comunicação, nem nas escolas e universidades", explicou, entre insultos de alguns transeuntes. "A ideia é como conseguir dissolver esse tapa-olhos, essa ideia de não querer escutar, não saber o que acontece. O que acontece lá fica lá, e o que acontece aqui é a vida comum. Não nos damos conta de que a 20 minutos daqui estão acontecendo atrocidades por nossa culpa", alertou. Professora de arte, Hanna rompeu o silêncio há quatro anos porque, embora não tenha combatido, confessou ter "visto coisas horríveis", e que precisava de uma certa "saúde mental". "Quando nossos pais nos mandam para o exército são responsáveis por coisas horríveis que um soldado pode fazer ali como destruir famílias e perseguir meninos", concluiu Hanna, que como seus colegas, só quer "o fim da ocupação". EFE jm-mss/ff-cd (foto) (vídeo)

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