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Ciclo vicioso: violência na infância pode gerar adultos agressivos

300 milhões de crianças são violentadas física e psicologicamente, diz Unicef

Internacional|Ana Luísa Vieira, do R7

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Especialista diz que violência sofrida durante a infância causa danos de longo prazo à saúde mental
Especialista diz que violência sofrida durante a infância causa danos de longo prazo à saúde mental

O grande problema da violência na infância é que as crianças podem reproduzir agressões ao longo da própria vida. É o que diz Marina Vasconcellos, psicóloga e terapeuta familiar e de casal pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Para a especialista, qualquer violência — física ou psicológica — sofrida durante a infância causa danos de longo prazo à saúde mental das vítimas. Segundo relatório divulgado pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) nesta quarta-feira (1), cerca de 300 milhões de meninos e meninas no mundo sofrem agressão psicológica e punição física de seus próprios cuidadores.

— A questão é que o cérebro humano só termina de se desenvolver aos 22 anos de idade. Na primeira infância, até os cinco anos, ele está em plena formação, e tudo fica gravado muito mais facilmente. Desta forma, crianças que sofrem punições físicas, por exemplo, são mais propensas a reproduzir esse tipo de agressão ao longo de sua vida, seja batendo nos filhos na vida adulta ou se tornando mais violentas em seu dia a dia.


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O relatório da Unicef cita o Brasil positivamente como um dos 59 países que têm uma legislação que proíbe o castigo físico: apenas 9% das crianças com menos de 5 anos em todo o mundo vivem nesses lugares, o que significa que 607 milhões não contam com uma proteção legal contra as agressões. Segundo Marina, é imprescindível que pais e cuidadores eduquem meninos e meninas com base no diálogo, até para que a autoestima dessas crianças seja preservada.

— Os primeiros adultos com quem uma criança convive vão se tornar modelos para ela. Ela quer ser reconhecida, amada e parecer com eles. Por isso, a humilhação, a agressão, o abuso e a violência cometida por essas pessoas mais velhas comprometem muito a autoestima e a imagem que a criança tem de si mesma. Para educar, a melhor coisa é conversar e mostrar, dar o exemplo daquilo que se deseja ensinar.


Busca por ajuda

A busca por ajuda psicológica, por outro lado, pode evitar qualquer ciclo violento. “O preconceito em relação a tratamentos psicológicos e psiquiátricos existe, mas é importante dizer que não é nenhuma vergonha procurar ajuda. A terapia é um ambiente seguro e sem julgamentos. O psicólogo não vai julgar o paciente”, pondera a terapeuta familiar.


De acordo com Marina, a procura por um profissional é especialmente importante para as crianças vítimas de violência sexual — conforme o relatório da Unicef, cerca de 15 milhões de adolescentes meninas, de 15 a 19 anos, foram vítimas de relações sexuais ou outros atos sexuais forçados até 2015, mas apenas 1% buscou ajuda psicológica.

— Na maior parte das vezes, as vítimas sentem culpa. Elas têm vergonha do que passaram e não querem contar a ninguém. Soma-se a isso o fato de que, muitas vezes, o abusador é alguém próximo da família ou mesmo parte dela, e frequente ameaça a criança ou adolescente para que ela não denuncie.

Sofrer em silêncio, entretanto, quase sempre transforma a vítima em um indivíduo temeroso e inseguro — muitas vezes acometido por enfermidades físicas. “Sem falar, a pessoa geralmente passa a sofrer com doenças psicossomáticas — causadas ou agravadas por emoções como medo, angústia e raiva. A terapia pode reverter essa situação porque, embora não faça esquecer do trauma, muda a forma como a pessoa o encara e lida com ele”, conclui a especialista.

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