"Com milhares de mortos, refugiados vivem uma roleta russa", diz especialista
Só na travessia em embarcações no Mediterrâneo, número de vítimas fatais já ultrapassa 5 mil
Internacional|Eugenio Goussinsky, do R7

Milhões de pessoas cruzando fronteiras, enfrentando o deserto, morrendo de frio, de fome ou naufragando no mar em embarcações precárias. A crise de refugiados chegou a patamares jamais vistos no mundo desde a Segunda Guerra Mundial, segundo relatório da Anistia Internacional divulgado nesta semana, em razão do Dia Mundial do Refugiado, celebrado neste dia 20.
Por todas a regiões do planeta é um enorme risco deixar tudo para trás e se aventurar em uma viagem que na maioria das vezes é sem volta. E que causa muitas mortes. Só na travessia do Mediterrâneo, em 2015, o número de vítimas fatais mais do que quadruplicou, passando de 425 a 1.865 entre janeiro e maio, no mesmo período em relação a 2014, segundo a Organização Internacional para as Migrações.
Os números são mesmo alarmantes. Em 2014, nesta mesma travessia do Mediterrâneo, em direção à Itália, 3.500 pessoas morreram em naufrágios, entre 219.000 que se deslocaram.
A grande maioria dos que passam por essas rotas estão fugindo de conflitos na Líbia e na Somália, países praticamente sem governo, à mercê de uma guerra civil entre tribos e grupos locais, de acordo com o Acnur (Alto Comissariado da ONU para Refugiados). Segundo Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Diretos Humanos (MJDH), em Porto Alegre, estas pessoas estão movidas por um desespero tão grande que já não têm mais perspectiva de vida em seus países. Por isso, muitas delas se submetem a viagens de extremo perigo.
— Para eles é como uma roleta russa. Eles sabem que vão morrer em suas terras, ou de fome, ou por um balaço. E pensam: 'assim como está eu morro. Vou tentar entrar em uma embarcação, até mesmo furada, porque terei pelo menos 50% de chances de sobreviver.' O que está acontecendo é um verdadeiro morticínio.
Outros pontos passam por situação de gravidade similar. Entre os refugiados da Síria, que está sendo destruída por uma guerra civil desde 2011, há inúmeras mortes por causa do frio, em acampamentos precários no Líbano e na Jordânia.
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Segundo dados da Anistia Internacional, há 4 milhões de refugiados sírios correndo risco de vida em países como o Líbano, a Jordânia e a Turquia. A entidade considera que a comunidade internacional, formada também pelos países europeus, está fracassando nesta crise que "condena milhões a um sofrimento insuportável e milhares à morte".
Em maio, barcos de refugiados vindos de Mianmar também chegaram à Indonésia, Malásia e Tailândia, que recusaram a entrada deles. Nesta travessia, conforme informa o Acnur, cerca de 300 pessoas morreram durante a viagem, por causa de fome, desidratação e abusos das tripulações.
Necessidade de investimentos
A Anistia ressalta que os países que recebem refugiados precisam também de ajuda urgente de outras nações mais ricas, mesmo que essas não façam fronteira com eles. Trata-se de uma questão humanitária, de responsabilidade global, na avaliação da organização. Neste sentido, Krischke afirma que as nações desenvolvidas precisam assumir sua responsabilidade e investir pesadamente nos países de onde os refugiados saem, por uma questão de compensação.
— Os refugiados estão indo para países que um dia exploraram suas nações. Agora, estas nações têm de assumir a responsabilidade por terem abandonado estes países à própria sorte, depois que não precisaram mais deles. Um fato que os inibe é a corrupção. Todo dinheiro que entra praticamente some na mão de governos ditatoriais. É preciso saber investir de uma maneira eficaz, encontrando fórmulas para evitar a corrupção.
Dentro do continente africano as guerras se proliferam na maioria dos países. Vindos da República Centro-Africana, onde há um conflito entre rebeldes e governo desde 2004, 2.599 refugiados morreram entre novembro de 2013 e abril de 2014, no Chade, por causa de moléstias, como cólera, e fome.
A Anistia Internacional informa que, dos primeiros 10 países de origem de refugiados no mundo, cinco estão na África Subsaariana, região de países como Sudão e República Centro-Africana. Quatro dos 10 países que mais refugiados acolhem também estão nesta área. Krischke ressalta que é urgente a ação dos países desenvolvidos.
— Com um mínimo de investimento, a situação seria revertida até rapidamente. Os refugiados não querem sair. Tem toda a questão cultural deles. Além do mais, muitos são perseguidos nos países de destino. Mesmo na pobreza, mas podendo pelo menos ter três refeições por dia, um mínimo de tranquilidade e condições dignas, eles ficariam.












