Como para Jango, descansar em paz é difícil para muitos latino-americanos
Internacional|Do R7
Ana Mengotti. Bogotá, 13 nov (EFE).- O ex-presidente brasileiro João Goulart se uniu nesta quarta-feira a uma lista de latino-americanos que tiveram os restos exumados, junto de pais da pátria, líderes, prêmios Nobel, traficantes, artistas e também milhares de vítimas da violência e da repressão política. Pablo Neruda, María Félix, Salvador Allende, Pablo Escobar, Eva Perón e Eduardo Frei Montalva têm em comum não terem podido descansar em paz nem depois de mortos. A exumação de Jango, presidente de 1961 até ser derrubado pelo golpe militar em 1964, busca determinar se sua morte, ocorrida no exílio na Argentina há 37 anos, se deveu a um ataque cardíaco ou se foi um envenenamento. A família Goulart, que esteve hoje no cemitério de São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, para acompanhar a exumação, suspeita que Jango tenha sido assassinado a mando dos militares que o tiraram do poder em 1964. Por razões parecidas foi exumado em abril deste ano o corpo do poeta chileno Pablo Neruda, Nobel de Literatura em 1971. Neste caso não puderam ser confirmar as suspeitas de envenenamento, levantadas pelo Partido Comunista do Chile, em que Neruda militou, e que morreu internado em uma clínica de Santiago dias depois do golpe de Estado de 1973. Há um mês os especialistas chilenos e estrangeiros que analisaram os restos mortais de Neruda descartaram que o poeta tenha morrido envenenado e confirmaram o diagnóstico dado há 40 anos como causa de sua morte: o câncer avançado. Os restos de dois presidentes chilenos, Salvador Allende e Eduardo Frei Montalva, passaram pelo mesmo. No caso do democrata-cristão Frei (1964-1970), opositor de Augusto Pinochet, a justiça estabeleceu em 2009 que houve interferência para causar a infecção bacteriana que o matou em 1982 após uma cirurgia. Por isso é considerado o primeiro assassinato de uma figura ilustre da história do Chile. No caso de Allende (1970-1973) a exumação de seus restos em 2011 serviu para determinar que ele realmente se suicidou durante o bombardeio do Palácio de la Moneda pelas forças golpistas. O descanso eterno do libertador Simón Bolívar, da mesma forma que de duas de suas irmãs, também foi perturbado. Em 2010, no meio de uma grande polêmica, sua ossada foi retirada do Panteão Nacional em Caracas por decisão do governo de Hugo Chávez para verificar se efetivamente eram seus e estabelecer com precisão a causa de sua morte. Três anos antes Chávez tinha anunciado a criação de uma comissão especial para investigar se Bolívar morreu envenenado e não de tuberculose como dizem os livros de história. A Academia Nacional de História da Venezuela considerou "absolutamente desnecessário e injustificado" e "o desrespeito mais grave que já se fez" ao ato de exumação de Bolívar. O cadáver de Eva Perón não conheceu o descanso até muitos anos depois de sua morte, ocorrida em 1952 em Buenos Aires. O cadáver, que foi embalsamado, ficou cinco anos sem receber uma sepultura, depois permaneceu oculto por 14 anos, enterrado com outro nome em um túmulo em Milão, até ser exumado e entregue ao general Juan Domingo Perón em 1971 em Madri. Em 1974, com Perón também morto, foi levado à Argentina, onde finalmente recebeu uma sepultura no cemitério da Recoleta. "La Dona", como era conhecida a bela atriz mexicana María Félix, foi desenterrada em 2002 depois de um de seus irmãos denunciar na justiça que pudesse ter sido envenenada. Os estudos das amostras de diversos órgãos tomados na exumação determinaram que a atriz morreu de morte natural aos 88 anos, em 2002. Pablo Escobar, o sanguinário capo do cartel de Medellín, que morreu em 1993 em um confronto com a polícia, também não pode descansar em paz. Em 2006, a pedido de sua família, seus restos foram exumados com um duplo propósito: saber se eram realmente seus e obter provas para responder a uma reivindicação de paternidade. No entanto, as exumações mais frequentes na América Latina não são de pessoas que foram famosas em vida. Décadas depois das ditaduras do Cone Sul, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile seguem buscando túmulos clandestinos e desenterrando restos mortais para acabar com a tragédia de milhares de famílias que não sabem qual foi o destino de seus familiares. Guatemala, Peru, Colômbia e outros países costumam ser exumadas vítimas dos conflitos internos e no México vítimas do crime organizado e imigrantes ilegais que morrerram na tentativa de chegar aos Estados Unidos. EFE ar/cd











