Compartilhar foto de menino refugiado morto ajuda a prolongar a guerra, diz especialista
Veicular a imagem é importante pelo debate, mas pode influenciar negativamente o conflito
Internacional|Marcella Franco, do R7

Não foi uma escolha fácil para nenhum portal, jornal ou programa de TV decidir, nesta quarta-feira (2), se divulgariam ou não a imagem do menino refugiado morto na praia, com o rosto afundado na areia, inerte e ainda banhado pelo mar. No geral, a mídia tem uma dose de pudor que regula publicações com conteúdos explícitos, especialmente se eles envolvem crianças, e, por isso, a dúvida paralisou redações do mundo todo por alguns minutos.
Foram poucos os que preferiram não soltar a fotografia da agência de notícias Reuters. Impulsionada pelos que foram adiante na publicação, a imagem ganhou as redes sociais e tornou famoso Aylan Kurdi, de três anos, que morreu afogado junto com o irmão Galip, de cinco anos, e a mãe — o pai da família sobreviveu ao naufrágio.
Optar por compartilhar algo tão dramático tem, na opinião do cientista político e mestre em resolução de conflitos internacionais Heni Ozi Cukier, desdobramentos positivos e negativos.
Por chamar atenção para o grave problema dos refugiados, e trazer quem antes estava alheio à questão para dentro do debate, a publicação da foto de Aylan afogado é justificada, pelo fato de que expõe a realidade e tira as pessoas do “mundo da fantasia” onde colapsos humanitários não existem, segundo Cukier.
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No entanto, mesmo uma mobilização gigantesca, com compartilhamentos aos milhões em todo o planeta, não evolui muito além do discurso, e segue incapaz de gerar ajuda concreta a curto prazo.
— Estamos trazendo leigos para dentro de uma discussão, que vão ficar fazendo mais barulho e simplificar o debate. A imagem só consegue passar um aspecto emotivo do que está acontecendo, mas não explica o contexto, não dá substância para fazer com que se forme uma opinião coerente a respeito dos dilemas envolvidos em uma situação como esta.
Para o cientista, ações como discutir, falar e julgar uma guerra não chegam nem perto de, de fato, se experimentar um conflito destas proporções. Diferentemente de debater a respeito de emoções humanas comuns a habitantes de qualquer parte do mundo, tentar sentir a guerra não equivale a vivenciá-la.
Por isso, Cukier define a guerra como “a última instância de realismo”.
E, justamente porque a morte retratada cruamente choca, estampar primeiras páginas com o cadáver de um garotinho também tem um preço — não para a mídia que o veicula, mas, sim, para o assunto em si.
— As pessoas têm uma resposta emotiva quando se deparam com algo que as toca, mas que não é necessariamente boa. Elas vão demandar uma solução de maneira apaixonada para um problema que, por estar aí por razões complexas e de longa data, precisa de muito entendimento e racionalismo até que seja solucionado. Não é uma simples paixão pela questão dos refugiados que vai resolver tudo.
Ao exigir que governos e afins tomem uma rápida providência, seja em posts nas redes sociais, seja em esferas mais amplas, as pessoas acabam interferindo negativamente em um processo que, de acordo com Cukier, tem que seguir seu ciclo natural.
A guerra só acaba, na opinião dele, quando um dos lados vence, ou quando se chega a um ponto de exaustão que faz com que ambos acabem sucumbindo.
— Se você permitir que a guerra siga seu ciclo natural, ela invariavelmente chegará à paz, seja por saturação, derrota ou conquista. É um ciclo perverso, terrível, mas infelizmente a humanidade é assim. Quaisquer outras tentativas de interromper o ciclo acabam estendendo-o ainda mais.
Na visão do cientista político, ações como a imposição de cessar fogo e intervenções militares nunca geram transformação de conflitos. Pelo contrário, elas acabam gerando um fôlego maior que o alimenta.
Por isso, Cukier avalia que o ideal é que a imprensa mostre a realidade, mas de forma contextualizada, para prevenir que a opinião leiga enxergue os eventos com emoção, solicitando, com isso, resoluções a curto prazo que só podem agravar ainda mais o problema.
— O problema dos refugiados é causado por conflitos no Oriente Médio e no norte da África. Não o vejo acabando a curto prazo, apenas através de uma solução perversa. Já que ninguém tem capacidade de ir lá e fazer com que as partes desse conflito encerrem suas atividades, o único jeito de fazer isso acontecer é um dos lados vencer. A recomendação principal é a de qualquer briga: não metam a colher. Eles precisam chegar a um momento de exaustão. Uma hora eles vão parar.
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