Em livro, ex-guarda-costas traça perfil de Fidel "manipulador e egocêntrico"
Internacional|Do R7
Marta Garde. Paris, 4 jun (EFE).- "Os Castro não vão sair do poder, a menos que morram", diz sem titubear o homem que foi guarda-costas de Fidel por 17 anos, Juan Reinaldo Sánchez, que acaba de denunciar em um livro as contradições do antigo governante e o retrato do líder "que realmente vive em Cuba, não o que está vendendo a revolução". Em um hotel de Paris, onde passará uma semana em intensa divulgação da obra "La vida oculta de Fidel Castro", Sánchez afirmou em entrevista à Agência Efe que Fidel, definido como "extremo manipulador" e "egocêntrico", critica o sistema capitalista "mas vive como um monarca". Iates de luxo, 20 residências, uma ilha particular - Cayo Piedra, considerada um dos maiores segredos do regime - um dublê que o substituiu em períodos de doença, vínculos com o tráfico de armas e de drogas e com "organizações terroristas" latino-americanas e espanholas, como a ETA, fariam parte da história de Fidel. "Escreveu-se muito sobre sua vida pública. É a que se conhece e a que o governo cubano divulgou internacionalmente, mas ninguém havia feito isso sobre a vida privada", conta à Efe o ex-tenente coronel formado em direito, que se uniu a Castro em 1977. A obra, publicada em francês pela editora Michel Lafon e escrito junto ao jornalista Axel Gyldén, chegou às livrarias da França no final de maio, e reúne fotografias que refletem os excessos e a presença constante de Sánchez ao lado do líder cubano. O testemunho diz que pelo acampamento militar Punto Cero de Guanabo, a 25 quilômetros a leste de Havana, passaram membros de guerrilhas de todo o mundo, que recebiam formação e contribuíam para expandir para outros países a revolução de esquerda. Uma conversa que o autor teria escutado em 1988 entre Castro e seu ministro do Interior, José Abrantes, que deixou Sánchez a par da suposta relação de Fidel com o tráfico de drogas colombiano, e a posterior condenação à morte do general Arnaldo Ochoa para "limpar sua imagem e a de Raúl", foi o estopim que gerou dúvidas sobre o personagem, a quem até então via como um ídolo. "Passei mais tempo com Fidel do que com minha família. E se minha dedicação foi total, quando escutei essa conversa minha decepção também foi total", ponderou Sánchez, que diz que seu calvário começou em 1994, quando pediu para se aposentar. Na época, a filha de Sánchez, Aliette, vivia na Venezuela, e seu irmão pequeno estava na Flórida. Suspeito, segundo conta, de traição à pátria, o ex-funcionário passou dois anos preso, e nos anos que se passaram até sua fuga do país, em 2008, foi fortemente vigiado. "Reprovo que (Fidel) no momento não tenha sido capaz de falar comigo quando ainda não estava preso, em sinal de gratidão por todos os anos que passei protegendo sua vida, e me perguntar: 'Sánchez, o quê há de certo nisso?'", acrescentou o ex-segurança, que teve na prisão a ideia de escrever o livro. Em Miami, para onde conseguiu levar o resto de sua família e se move protegido sempre "por uma ou duas pessoas", ele trabalha atualmente como especialista em assuntos cubanos e como assessor em questões de segurança. Com a distância, afirma que "Cuba necessita o que Fidel prometeu em 1º de janeiro de 1959: Que ia haver um governo democrático, um governo popular, liberdade de expressão, de reunião, de imprensa". E esse regime aberto, na sua opinião, não pode se conseguir se Raúl Castro, que ontem completou 83 anos, se mantiver no poder. "Raúl é incapaz de dirigir não Cuba, mas o país mais infeliz do mundo. Fidel é carismático, uma pessoa extremamente inteligente. Raúl não tem isso", aponta Sánchez, que apesar de tudo não vê alternativa para os Castro. Para o ex-guarda-costas, mesmo que Raúl se aposente, "continuaria dirigindo o governo, dos bastidores, por trás da figura escolhida para governar". No livro, o antigo segurança revela também como, em sua "obsessão extrema" por controle, Fidel gravava todas as suas conversas com outros líderes e vigiava empresários e turistas que iam ao país. Mesmo com sua experiência, o autor diz que sua esperança são os dissidentes que não deixaram Cuba: "Têm o peso da repressão e as carências sobre eles. Esses são os verdadeiros heróis das mudanças", conclui Sánchez, que reivindica para esse grupo ajuda econômica, "para que possam viver e seguir lutando". EFE mgr/tr-dk












