Prigozhin comprou dois satélites da China para espionar Rússia antes de morrer em acidente de avião
Imagens dos satélites ajudaram o grupo Wagner a preparar o motim, em junho, contra o presidente russo, Vladimir Putin
Internacional|Do R7
O grupo paramilitar russo Wagner, chefiado até agosto por Yevgeny Prigozhin, que morreu em um acidente de avião, assinou no fim de 2022 um contrato com uma empresa chinesa para adquirir dois satélites de observação e imagem, o que lhe confere um poder de inteligência sem precedentes, segundo um documento consultado pela AFP.
"Diga-me quem tem satélites de reconhecimento neste país além da EPSD [Empresa Provedora de Serviços de Defesa] Wagner", disse ironicamente Prigozhin, em abril, no Telegram, referindo-se às capacidades espaciais limitadas do Exército regular russo. Os mercenários do grupo Wagner estavam presentes na Ucrânia, à época, e hoje estão ativos na África.
Após um longo trabalho investigativo, a AFP conseguiu esclarecer os vínculos entre o grupo Wagner e empresas chinesas que forneceram informações obtidas por satélite aos mercenários russos.
Segundo uma fonte de segurança europeia, algumas dessas imagens ajudaram o Wagner, inclusive, a se preparar para seu motim em junho — a maior ameaça que o presidente russo, Vladimir Putin, enfrentou em duas décadas no poder.
O caso levanta uma dúvida: o que a China sabia sobre os projetos do grupo Wagner contra seu aliado russo?
Contrato
De acordo com um contrato comercial redigido em inglês e russo e assinado em 15 de novembro de 2022, a empresa Beijing Yunze Technology Co. Ltd vendeu, por 235 milhões de iuanes (em torno de US$ 31 milhões, ou R$ 164 milhões de reais, na cotação da época), para a Nika-Frut, uma empresa de Prigozhin, dois satélites de observação de altíssima resolução pertencentes ao gigante chinês do setor espacial Chang Guang Satellite Technology (CGST).
O acordo também prevê o fornecimento de imagens da CGST, mediante solicitação. Segundo a fonte de segurança europeia, isso permitiu ao Wagner obter imagens da Ucrânia e da África (Líbia, Sudão, República Centro-Africana e Mali, por exemplo), onde operam seus mercenários.
A empresa russa chegou a encomendar cerca de 80 imagens do território russo no fim de maio de 2023, especificamente do trajeto entre a fronteira ucraniana e Moscou, que os mercenários percorreram no mês seguinte durante seu breve motim, segundo essa fonte.
O motim, frustrado em 24 horas, consumou a ruptura definitiva entre Putin e Prigozhin, semanas antes de sua morte. A AFP não pôde verificar de forma independente essa informação, que não aparece no contrato citado.
Vazamento
Esse vazamento de informação poderia explicar por que os serviços de inteligência dos Estados Unidos sabiam que o chefe de Wagner preparava um motim, conforme revelou a CNN no fim de junho. Seus homólogos franceses também estavam cientes, segundo o jornal L'Opinion.
No momento, o grupo Wagner se encontra em fase de reorganização, mas boa parte das suas lucrativas atividades no exterior poderiam permanecer sob a égide de outros grupos paramilitares ou de uma nova liderança controlada por Moscou.
Segundo as informações coletadas pela AFP, o contrato espacial continua vigente e prevê a aquisição de dois satélites chineses, JL-1 GF03D 12 e JL-1 GF03D 13, em órbita a 535 quilômetros de altitude.
Por meio desse contrato, o cliente também adquiriu direitos sobre os satélites restantes da constelação operada pela chinesa CGST, que conta, hoje, com cerca de cem unidades e espera atingir 300 até 2025.
O acordo estabelece que, após receber cada encomenda de seu cliente, "o fornecedor orientará os satélites" com base nas imagens solicitadas, antes que estas sejam enviadas a uma estação terrestre para processamento e fornecimento.
"O cliente baixará os dados da imagem da nuvem" e poderá retê-los por sete dias. Até o momento, os grupos Nika-Frut e Beijing Yunze não responderam às perguntas da AFP.
Rússia debilitada
Por que o Exército russo não podia fornecer diretamente essas imagens ao grupo Wagner?
"A Rússia não tem esse tipo de capacidade. Seu programa de satélites não tem funcionado bem recentemente", explica à AFP Gregory Falco, pesquisador da Universidade Cornell, em Nova York.
O grupo de mercenários Wagner demonstrou várias vezes, no entanto, ter uma capacidade de inteligência superior à das Forças Armadas russas, acrescenta o especialista.
O fornecimento de imagens de satélite ao grupo Wagner pela China não surpreende os Estados Unidos. O Departamento do Comércio americano decidiu, em 24 de fevereiro de 2023, incluir a Beijing Yunze Technology Co. Ltd e a corretora de imagens de satélite Head Aerospace Technology em sua lista de sanções.
"Essas empresas contribuíram significativamente" para ajudar o Exército russo na Ucrânia e "estão envolvidas em atividades contrárias à segurança nacional dos Estados Unidos e aos [seus] interesses", segundo um documento oficial online.
Em 12 de abril de 2023, Washington também sancionou "80 entidades e indivíduos que continuam permitindo e facilitando a agressão russa". Entre os primeiros está a Head Aerospace Technology, por distribuir "imagens de satélite de locais na Ucrânia para empresas afiliadas à EPSD Wagner e a Yevgeniy Prigozhin".
Segredo
A CGST "é o monstro das operações espaciais chinesas. Fez muita espionagem industrial", comenta Gregory Falco, que evoca as capacidades de resolução "espetaculares" dos seus satélites.
Sua centena de satélites também permite a eles que passem várias vezes ao dia pelo mesmo ponto, o que oferece um nível de informação muito atualizado.
Uma das principais dúvidas é se as autoridades de Pequim sabiam que o Wagner encomendou as imagens de satélite do território russo desde o fim de maio, semanas antes de seu motim contra Putin.
Segundo a fonte de segurança europeia, essas imagens interessavam ao quartel-general das operações russas na Ucrânia, em Rostov-on-Don, que o Wagner assumiu sem combates. Eram visadas também por outras cidades a caminho de Moscou e outros locais de interesse militar, como Grozny, o reduto do líder checheno pró-Putin, Ramzan Kadyrov.
A dúvida que fica é: os altos escalões do poder chinês sabiam que o Wagner solicitava essas informações sensíveis, quando se sabia que Prigozhin mantinha más relações com o chefe do Estado-Maior Russo, Valery Gerasimov, e com o ministro da Defesa, Sergei Shoigu?
O Ministério das Relações Exteriores da China disse à AFP que "não tinha conhecimento". "A China sempre se mostrou responsável com suas exportações e tomou medidas prudentes, aplica rigorosamente leis e regulamentos nacionais e respeita suas obrigações internacionais", acrescentou.
Para um especialista europeu do setor espacial, que pediu anonimato devido à sensibilidade do assunto, é "evidente" que as mais altas autoridades chinesas são informadas sobre as encomendas sensíveis feitas à CGST. "Não há dúvida de que isso chega diretamente" ao poder central chinês, estima.
Em tese, a lei chinesa confirma que um contrato como esse não pode ser cumprido em segredo. De acordo com o artigo 7 da lei sobre inteligência nacional, promulgada em 2017, "todas as organizações e cidadãos devem apoiar, ajudar e cooperar com os esforços dos serviços nacionais de Inteligência".
Mas outros especialistas são mais cautelosos. "O nível de centralização da China é superestimado. Qualquer operação pode ser alvo de competição entre líderes, administrações, unidades da mesma administração. Isso causa opacidade, retenção e até sabotagem", disse Paul Charon, especialista sobre China do Instituto de Pesquisa Estratégica da Escola Militar (IRSEM), em Paris.
Outra hipótese seria que os chineses, como muitos outros, "não entenderam o que estava acontecendo nas semanas anteriores ao motim".
"As imagens solicitadas da Rússia também poderiam estar relacionadas com a Ucrânia, com a identificação de falhas no dispositivo russo. É possível que os objetivos por trás do pedido não tenham sido questionados", acrescentou.
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