Enterro de opositor tunisiano se transforma em protesto contra governo
Internacional|Do R7
Miguel Albarracín. Túnis, 8 fev (EFE).- O grandioso enterro do político opositor tunisiano Chukri Bel Aid, assassinado na quarta-feira, tornou-se na capital Túnis e em várias cidades do país uma manifestação popular contra a violência política e o governo de transição. Milhares de pessoas acompanharam o cortejo fúnebre, que saiu durante a manhã do bairro de Jebel Yulud e foi até o cemitério de El Yelez, onde Bel Aid foi enterrado à tarde. Apesar da chuva e do gás lacrimogêneo lançados pelas forças de segurança na entrada do cemitério contra grupos de jovens que queimaram vários veículos, a multidão permaneceu acompanhando Chukri Bel Aid, enquanto entoavam o hino nacional da Tunísia e pediam a queda do Executivo. "O povo quer a queda do regime", "queremos pão, queremos água, não queremos Ganuchi" (Ganuchi Rachid, líder do partido governamental, o islamita Al-Nahda) e "Ganuchi assassino" foram alguns dos gritos repetidos durante o funeral. O porta-voz do Ministério do Interior, Khaled Trush, disse à televisão estatal que a polícia foi obrigada a atuar contra um "grupo violento que tentou atacar vários veículos e estabelecimentos". O principal sindicato do país, a União Geral de Trabalhadores Tunisianos (UGTT), e os partidos da oposição convocaram para hoje uma jornada de greve geral coincidindo com o enterro de Bel Aid. A oposição responsabiliza o Executivo e o Al-Nahda pela violência política, cuja última vítima foi Bel Aid, líder do Partido dos Patriotas Democratas Unificado e coordenador da plataforma de esquerda Frente Popular. Várias fontes locais e meios de comunicação tunisianos informaram também sobre a ocorrência em diversas cidades do país de manifestações em homenagem ao ativista assassinado. Hoje foi declarado dia de luto nacional e todos os jornais prestaram algum tipo de homenagem ao líder opositor, que iniciou sua carreira política quando estava na faculdade de direito. Bancos, lojas, supermercados, bares e restaurantes fecharam suas portas em resposta à convocação de greve geral. Apesar disso, o governo manteve silêncio ao longo do dia e as autoridades não fizeram declarações públicas nem estiveram presentes no funeral. Diante da onda de indignação que explodiu no país após o assassinato de Bel Aid, o primeiro-ministro tunisiano, Hamadi Jabali (na época membro do Al-Nahda), prometeu nesta semana a criação de um governo tecnocrata para sair da crise e a realização de eleições o mais rápido possível. No entanto, os dirigentes do Al-Nahda não atenderam ao pedido e acusaram o primeiro-ministro de não ter consultado o partido nem os membros do governo antes de anunciar sua proposta. Por isso, até o momento, não se sabe o que irá ocorrer com o Executivo. Alguns simpatizantes e eleitores do Al-Nahda que participaram do funeral mostraram sua indignação com o partido por seu desempenho nos últimos meses e durante a crise. "Este assassinato não tinha que ter ocorrido, é o auge de uma onda de violência", disse à agência Efe Abderrahim Sherif, para quem "o partido não permitiu a Jabali solucionar a crise e deixou o país na incerteza". No centro da cidade, a presença das forças de segurança se multiplicou por temor de manifestações violentas, e os acessos do Parlamento, do Ministério do Interior, de algumas embaixadas e da Assembleia Nacional Constituinte foram fechados ou reforçados. Missões diplomáticas pediram aos cidadãos de seus países que evitem as zonas do centro, onde costumam ocorrer enfrentamentos. Em vários pontos de Túnis, a polícia lançou gás lacrimogêneo para impedir que manifestantes se reunissem após o funeral de Bel Aid. Apesar disso, cerca de duzentas pessoas estão nas proximidades do Ministério do Interior, na Avenida Habib Burguiba. Desde quarta-feira, milhares de manifestantes se concentraram nesta via para protestar contra o assassinato do ativista. Enquanto isso, no muro branco do Centro Cultural de Jebel Yulud, de onde partiu o funeral, uma grafite negro de um bigode e uma lua lembrava Bel Aid, caracterizado pela imprensa como um homem de diálogo que acreditava em um Tunísia pluralista. EFE ma-jfu/dk (foto)











