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Epidemia de heroína abala o Afeganistão

Internacional|Do R7

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Fawad Waziri. Cabul, 5 mai (EFE).- O jovem Raz Mohamed foi alistado no exército do Afganistão e se envolveu com uma menina, mas agora cata latas vazias para conseguir pagar sua dose diária de heroína, uma droga que está devastando o país, que já tem mais de um milhão de dependentes. Considerado o maior produtor mundial de ópio - as vendas equivalem a 15% de seu PIB -, o Afeganistão produziu 75% da heroína traficada em nível mundial em 2012, sendo que uma parte ficou no território para satisfazer o elevado consumo interno. "Era feliz, me alistei no exército afegão na província de Badakhashan quando tinha 18 anos", explicou Mohammed à Agência Efe, sentado ao lado de uma lixeira no bairro de Shar-e-Naw, no centro de Cabul. Viciado há dez anos e com as aspirações frustradas, o jovem agora luta diariamente para poder comprar uma dose que acalme sua dependência. "Além de catar latas vazias, me esforço para fazer outros tipos de trabalho. Inclusive mendigo nas ruas desde manhã até à noite para conseguir algum dinheiro e satisfazer a minha necessidade", disse. Mohammed experimentou heroína pela primeira vez quando estava com um grupo de amigos em um posto de controle a poucos meses de se alistar nas Forças Armadas, mas não sabia que essa "calamidade" iria o acompanhar "até a morte". "Me viciei neste veneno mortal porque muitos dos meus colegas usavam, essa foi a única razão pela qual comecei a consumir esta horrível droga", relatou Mohammed. A princípio, sua família não soube que ele consumia heroína, sobretudo devido ao tempo que passava no quartel, mas com o tempo começaram a suspeitar e a tratá-lo de uma maneira diferente, e por isso Mohammed decidiu fugir para Cabul. "Meu pai morreu durante a guerra civil (na década de 90), e eu vivia com minha mãe e meu irmão em Badakhashan, mas há dez anos que não os vejo. Só sei que minha mãe está viva", afirmou. "A toxicodependência é o pior vicío que existe, é uma armadilha, e não há como sair dele. Me tinham prometido a mão de uma das minhas primas, mas a família rompeu o noivado quando descobriu meu vício", contou. Segundo um recente relatório do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC), o cultivo de ópio continua crescendo pelo terceiro ano consecutivo no Afeganistão, depois de um período de diminuição da superfície dedicada ao cultivo da planta. O ópio afegão é tradicionalmente destinado à exportação, mas parte da produção fica também nas ruas do país. As dependentes estão presentes em todo o Afeganistão, sobretudo em Cabul, onde por causa das poucas oportunidades de emprego e da escassez de centros de tratamento contra a toxicodependência é fácil ver jovens viciados nas ruas e em parques da cidade. Segundo o Departamento de Narcóticos do Ministério da Saúde Pública do Afganistão, cerca de mil viciados vivem nas ruas da capital. Aproximadamente 1,3 milhão dos 35 milhões de habitantes do Afeganistão são dependentes da droga, segundo a mesma fonte. "O número de pessoas viciadas aumenta a cada dia", admitiu à Efe o diretor do Departamento de Narcóticos, Fawad Usmani. Segundo um comerciante de Shar-e-Naw que pediu para manter anonimato, os traficantes distribuem sua mercadoria abertamente e sem medo nas ruas de Cabul porque contam com a conivência da polícia. Além disso, muitos afegãos que fugiram do país durante as mais de três décadas de guerra e se refugiaram no Paquistão e no Irã retornaram com problemas de dependência das drogas. Este é o caso de Kamal Omid, de 36 anos, que voltou ao Afeganistão depois de dez anos vivendo no Irã. "Não sabia que este pó branco me afundaria e abriria terríveis caminhos em minha vida", explicou Omid, que perdeu seu pai e sua mãe durante a guerra civil. "Quando retornei ao Afeganistão, pensei que seria difícil encontrar heroína e que assim poderia deixá-la, mas infelizmente ela está em todas partes em Cabul. É muito fácil comprar", disse. Um irmão mais velho de Omid também é viciado em heroína, mas segue um programa de reabilitação em um hospital de Cabul. "Minha irmã se casou, portanto estou sozinho, passando os dias nas ruas mendigando", lamentou. EFE fpw-mt-jlr/jt/id (foto)

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