Estoque de mísseis Patriot dos EUA na Europa está em nível ‘crítico’ por guerra com Irã
Otan planeja inaugurar uma fábrica de mísseis Patriot na Alemanha, mas há desafios devido à falta de munição
Internacional|Do Estadão Conteúdo
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As Forças Armadas dos Estados Unidos enfrentam uma escassez “mais do que crítica” de interceptores de mísseis avançados na Europa, em grande parte provocada pela guerra do presidente Donald Trump contra o Irã, segundo um oficial de defesa americano na Europa e um oficial da Otan ouvidos pela AP.
A situação amplia as preocupações sobre a vulnerabilidade dos países da aliança a um eventual ataque russo.
A maior preocupação está nos interceptores Patriot, capazes de abater mísseis balísticos russos de alta velocidade, afirmou o oficial de defesa americano.
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O representante da Otan confirmou que os estoques de Patriots entre as forças dos Estados Unidos e da aliança na Europa estão baixos. Ambos falaram sob condição de anonimato para tratar de questões militares sensíveis.
Em caso de um ataque russo com mísseis balísticos contra, por exemplo, um quartel-general militar ou uma usina de energia, a Otan poderia enfrentar uma situação semelhante à da Ucrânia, que sofre com a falta de mísseis Patriot, e ser obrigada a “levar golpe após golpe”, disse o oficial de defesa americano.
Na Europa, as forças americanas “definitivamente” não dispõem de Patriots suficientes para impedir um eventual ataque prolongado com mísseis balísticos e teriam capacidade “muito limitada” para se defender de um único ataque desse tipo ou de um míssil russo que saísse de sua trajetória, acrescentou.
A situação ilustra os efeitos em cadeia da decisão de Trump de iniciar uma guerra contra o Irã, conflito que completa seis meses nesta sexta-feira (28).
Os estoques de mísseis americanos na Europa foram transferidos para o Oriente Médio, onde os Estados Unidos e seus aliados do golfo utilizaram um número significativo de interceptores, incluindo Patriots, para conter drones e mísseis iranianos. Alguns desses ataques mataram e feriram militares americanos.
Embora não haja expectativa de um ataque iminente de mísseis balísticos russos contra países da Otan, o diretor da CIA, John Ratcliffe, esteve em Moscou nesta semana para alertar a Rússia a não atacar, informou o The Wall Street Journal.
Questionado nesta quinta-feira (27), por jornalistas se Ratcliffe havia transmitido essa mensagem ao presidente russo, Vladimir Putin, Trump respondeu de forma evasiva. “Não quero comentar sobre isso, mas eles não vão atacar”, disse o presidente.
Autoridades europeias e da Otan afirmam que a Rússia poderá estar em condições de atacar países da aliança até 2030. A previsão é de que os estoques de mísseis Patriot se recuperem até lá.
Enquanto isso, a guerra da Rússia contra a Ucrânia pode limitar a capacidade de Moscou de lançar um ataque com mísseis contra a Europa, já que seria difícil para o país sustentar uma guerra aérea em duas frentes.
Guerra com o Irã não era esperada
O coronel do Exército americano Martin O’Donnell, porta-voz militar sênior da Otan, contestou a avaliação de que o número de mísseis Patriot na Europa esteja abaixo de um nível crítico.
Segundo ele, a Otan é capaz de “bloquear golpes” e dispõe de munição de defesa aérea suficiente para se proteger e também para fornecer armamentos à Ucrânia.
O principal porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, afirmou em comunicado nesta quinta-feira que as alegações de escassez de munição nos Estados Unidos “são falsas”.
“Temos tudo o que é necessário para atacar no momento e no local escolhidos pelo presidente”, disse Parnell.
Segundo ele, operações bem-sucedidas já foram realizadas em diferentes comandos militares, enquanto os EUA mantêm um arsenal amplo e pronto para defender sua população e seus interesses.
Ainda assim, autoridades ucranianas pressionam por mais mísseis Patriot para enfrentar os ataques russos.
Transferências anteriores feitas pelos Estados Unidos para a Ucrânia já haviam reduzido parte dos estoques americanos desses interceptores.
Kiev afirma que os Patriots, fabricados nos Estados Unidos, são os únicos sistemas capazes de deter os avançados mísseis balísticos russos, que vêm penetrando as defesas ucranianas com frequência cada vez maior.
Os Estados Unidos forneceram centenas de mísseis Patriot à Ucrânia ao longo dos quatro anos e meio de guerra.
Para Ed Arnold, pesquisador sênior do Royal United Services Institute, em Londres, porém, a guerra contra o Irã foi o ponto de inflexão para a redução dos estoques.
O fornecimento à Ucrânia foi planejado e dimensionado de forma razoável, afirmou Arnold. Já o consumo de interceptores no Oriente Médio ocorreu de forma inesperada e rápida, expondo limitações na cadeia de suprimentos.
As forças americanas na Europa também enfrentam uma escassez crítica de mísseis do ATACMS (Sistema de Mísseis Táticos do Exército), usados contra alvos atrás das linhas inimigas, segundo os dois oficiais.
O quadro geral de munições na Europa, porém, é menos grave do que no caso das defesas aéreas, já que algumas forças europeias possuem seus próprios mísseis de ataque, como o Taurus e o Storm Shadow, ambos mísseis de longo alcance lançados do ar e capazes de destruir bunkers.
Europa tem poucas alternativas
A escassez de interceptores Patriot na Europa deixaria poucas opções para enfrentar os mísseis balísticos russos mais avançados, que podem ser combinados com grandes enxames de drones baratos para sobrecarregar as defesas, segundo especialistas.
A Ucrânia e alguns aliados já utilizam sistemas capazes de destruir drones mais lentos sem recorrer a mísseis caros. Os mísseis balísticos, no entanto, representam um desafio maior: voam em alta velocidade e atingem alvos a mais de cinco vezes a velocidade do som, deixando pouco tempo para que sejam interceptados.
O sistema Patriot rastreia o míssil, calcula sua trajetória e lança o interceptor em questão de minutos. Cada bateria, porém, protege uma área limitada — como uma pequena base militar, por exemplo, e não uma cidade inteira.
Uma alternativa seria o sistema de defesa aérea SAMP/T NG, desenvolvido conjuntamente por França e Itália.
Paris prometeu acelerar a entrega da versão modernizada do sistema à Ucrânia, que, segundo o fabricante, tem maior capacidade de interceptar mísseis balísticos.
A nova versão, contudo, ainda não foi testada em combate, e o modelo atual do SAMP/T tem alcance inferior ao do Patriot.
Estados Unidos e países europeus também possuem navios de guerra que podem atuar como plataformas móveis de defesa aérea.
Esses navios, entretanto, podem estar longe demais de um alvo para protegê-lo e também estão sujeitos ao risco de serem afundados.
Guerra com o Irã consumiu grande parte dos Patriots
A Ucrânia passou a receber mísseis Patriot de arsenais americanos e europeus após a invasão russa de 2022.
Durante o governo Joe Biden, os Estados Unidos forneceram cerca de 600 interceptores, segundo Mark Cancian, coronel aposentado do Corpo de Fuzileiros Navais e consultor sênior do CSIS (Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais), em Washington.
O maior consumo, porém, ocorreu durante o conflito com o Irã. Segundo o CSIS, 65% dos mísseis Patriot americanos foram utilizados na guerra — aproximadamente 1.500 de um estoque de 2.330 interceptores.
Cerca de 600 mísseis, incluindo os destinados à Europa, devem ser produzidos neste ano. A meta é chegar a 2 mil Patriots fabricados por ano até 2030, segundo Cancian.
A Otan afirma que a primeira fábrica de produção de mísseis Patriot na Europa deverá ser inaugurada na Alemanha em setembro.
As primeiras entregas podem começar no início do próximo ano, com prioridade para países que já fizeram encomendas, entre eles Alemanha, Holanda, Romênia e Espanha, segundo o oficial de defesa americano.
Por enquanto, porém, isso significa que alguns países, como a Alemanha, compraram sistemas Patriot de alto custo, mas se encontram na situação “ridícula” de não ter munição suficiente para utilizá-los, afirmou Arnold.
O Ministério da Defesa da Alemanha informou que não comenta sobre estoques de armas.
Rússia também enfrenta limitações
Segundo Arnold, Moscou provavelmente não teria condições de conduzir um ataque aéreo prolongado contra um alvo da Otan enquanto mantém ataques quase diários contra a Ucrânia.
Os recentes ataques da Ucrânia contra a Rússia também expuseram fragilidades nas defesas aéreas russas, o que pode levar Putin a reconsiderar os riscos de provocar uma retaliação.
“A verdade incômoda é que talvez a melhor defesa aérea que temos sejam as próprias restrições impostas pela Rússia”, afirmou Arnold.
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