Estudo aponta ligação genética entre TOC, síndrome de Tourette e autismo
Trabalho reuniu informações de quase 4.000 pessoas com as condições
Internacional|Do R7
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Uma nova pesquisa encontrou evidências de que o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e os transtornos de tiques, incluindo a síndrome de Tourette, podem ter mais características genéticas e neurológicas em comum do que se imaginava. O estudo, publicado na revista Nature Neuroscience, identificou 36 genes relacionados ao risco dessas condições e apontou circuitos cerebrais que podem ajudar a explicar por que elas frequentemente aparecem juntas.
Estudos anteriores já haviam apontado essa relação. Aproximadamente metade das pessoas com transtornos de tiques apresenta sintomas obsessivo-compulsivos, enquanto até 30% dos pacientes diagnosticados com TOC têm histórico de tiques. Os estudos também mostram que alguns dos genes envolvidos podem estar relacionados a outros transtornos do neurodesenvolvimento, entre eles o autismo e a esquizofrenia.
Ao todo, o trabalho reuniu informações de quase 4.000 pessoas com TOC, transtornos de tiques ou as duas condições simultaneamente. A análise ampliou de forma significativa o conhecimento sobre os fatores genéticos associados aos transtornos: até então, apenas quatro genes tinham evidências consideradas mais consistentes.
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O que TOC e tiques têm em comum, segundo o estudo?
A sobreposição genética encontrada pelos pesquisadores ajuda a explicar a relação conhecida entre o TOC e os transtornos de tiques. Embora sejam condições diferentes — o TOC é marcado por pensamentos intrusivos e comportamentos repetitivos, enquanto os transtornos de tiques envolvem movimentos ou vocalizações involuntárias —, parte dos mecanismos biológicos envolvidos pode ser compartilhada.
Estudos genéticos anteriores já haviam apontado essa proximidade. Uma grande análise do genoma relacionada ao TOC havia encontrado 30 regiões com associação significativa ao transtorno, além de outras 31 identificadas em análises de grupos específicos.
O novo trabalho avançou sobre essas descobertas ao investigar não apenas quais genes estão envolvidos, mas também onde e em que momento eles funcionam no cérebro.
Os pesquisadores observaram que diferentes conjuntos de genes apresentam padrões distintos ao longo do desenvolvimento. Algumas alterações raras que comprometem o funcionamento de determinados genes aparecem com maior atividade ainda no período pré-natal.
Já os genes relacionados a variantes comuns e ao chamado risco poligênico — aquele distribuído por muitas alterações genéticas — apresentaram maior atividade após o nascimento, principalmente no estriado e no tálamo.
Essas regiões fazem parte de circuitos cerebrais envolvidos em funções como movimento, comportamento e processamento de informações. O padrão encontrado também é diferente daquele observado em estudos sobre o autismo, indicando que, apesar de existirem genes e mecanismos compartilhados entre diferentes condições, eles podem atuar de maneiras distintas.
Onde esses genes funcionam
Para descobrir quais áreas do cérebro estão mais envolvidas, os pesquisadores cruzaram os dados genéticos com informações sobre a atividade dos genes durante diferentes fases da vida. Foram utilizados bancos de dados de tecido cerebral humano, além de informações de primatas e análises de células individuais.
Os resultados apontaram principalmente para o neocórtex, estriado, tálamo e cerebelo. Em nível celular, houve maior concentração dos genes relacionados às condições em neurônios excitatórios do telencéfalo.
Entre as células identificadas estão os neurônios piramidais do córtex, além de neurônios de regiões como o hipocampo e a amígdala. Isso sugere que o risco genético pode afetar redes responsáveis por diferentes funções cerebrais, em vez de estar restrito a uma única área.
A análise também encontrou genes envolvidos em processos como sinalização celular, organização da estrutura das células, produção de DNA, funcionamento dos microtúbulos e dos cílios celulares.
Um exemplo é o CHD8, gene que já aparece em pesquisas relacionadas ao autismo e que também foi identificado entre os genes envolvidos no TOC e nos transtornos crônicos de tiques. A presença dele, porém, não significa que os três transtornos tenham a mesma origem genética.
Os pesquisadores destacam justamente essa complexidade. Os genes não funcionam de maneira isolada: eles participam de redes e processos celulares que podem influenciar o desenvolvimento e o funcionamento do cérebro.
A identificação dessas redes pode ajudar a compreender por que algumas pessoas apresentam mais de uma dessas condições e, no futuro, indicar novos caminhos para tratamentos que atuem sobre mecanismos biológicos compartilhados.
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