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Guerra e pobreza forçam famílias de Gaza a morar em cemitérios

Serpentes e cachorros que circulam à noite assustam os refugiados

Internacional|Do R7

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De acordo com especialistas, as taxas de pobreza e desemprego na empobrecida Gaza não param de crescer
De acordo com especialistas, as taxas de pobreza e desemprego na empobrecida Gaza não param de crescer

Khalil Keheel jamais imaginou que acabaria morando em um cemitério de Gaza, mas este palestino não viu outra saída para a terrível situação econômica que atravessa, resultado do último confronto bélico que sacudiu a faixa. Aos 27 anos, com esposa e três crianças, Keheel mora em uma barraca entre dois túmulos do principal cemitério da capital.

A instalação foi erguida com plásticos de nylon e teto de lâminas de metal. Ficou para trás a casa de dois quartos que há menos de seis meses era seu lar, uma das 18 mil residências de Gaza que ficaram inabitáveis devido ao ataque em grande escala feito por Israel.


Keheel não perdeu apenas a residência, mas todos os móveis e utensílios. Ele também não é o único que vive rodeado de túmulos em Gaza: outras 15 famílias são obrigadas a erguer construções rudimentares e passam por severas dificuldades.

A família de Keheel se alimenta graças a restos de comida deixados por moradores do bairro e às verduras e frutas jogadas pelos vendedores do mercado, que às vezes chegam podres. "Moro neste cemitério em uma situação muito difícil. Acho que ninguém no mundo suporta viver sob estas condições", lamenta Keheel, cujo rosto é coberto por uma grande barba e, como não pode comprar roupas, uma corda de plástico é usada para suspender as calças.


Segundo ele, o cemitério difere muito do clima de paz e de ordem comum nos similares de Estados Unidos e Europa. "Isso aqui não está limpo, está cheio de ratos, insetos, répteis e cachorros de rua, e esses animais são um perigo para meus filhos", afirmou.

Além de todos os problemas de sobrevivência, Keheel conta que os moradores do cemitério também têm diversas discussões com os parentes dos mortos que foram enterrados no local. "Eles chegam toda hora e me dizem que este não é um lugar para morar, e eu digo: 'me dê uma alternativa, onde deveria viver com minha mulher e meus filhos?'. Eles ficam calados e vão embora", relatou.


De acordo com especialistas, as taxas de pobreza e desemprego na empobrecida Gaza, submetida ao bloqueio de Israel e Egito durante mais de sete anos, não para de crescer. Israel efetuou em 8 de julho seu último ataque militar para destruir dezenas de túneis cavados por organizações armadas para atacar o território israelense.

A última guerra, que durou 50 dias, deixou uma devastadora destruição de casas e infraestrutura vital. Cerca de 108 mil pessoas ficaram sem lar, segundo a ONU. Em uma conferência realizada no Cairo no dia 12 de outubro, vários países doadores se comprometeram a destinar US$ 5,4 bilhões para reconstruir a faixa, mas as verbas não chegam e atrasam o início do processo.


"Peço seriamente ao governo de unidade palestino para não contar com o dinheiro dos doadores e deixar de esperar que cumpram o que foi prometido. Peço ao governo para que faça algo, mesmo que provisoriamente, para ajudar a minha família, aquelas que vivem em cemitérios e a milhares que perderam seus lares", pede Keheel, desconsolado.

Enquanto pendura em uma corda entre duas lápides a roupa lavada de seus filhos, a mulher de Kaheel conta que a vida no local "dá medo, não só por estar entre mortos, mas pelas serpentes e cachorros que circulam de noite". Conhecida como Om Omer e coberta com um véu negro, da mesma cor de seu longo vestido, essa mãe explica que o frio é a pior parte. "Este inverno está sendo especialmente difícil, minhas crianças adoecem o tempo todo. O que nos leva a viver assim é a difícil situação econômica. Quando minhas crianças brincam, saltam de um túmulo para o outro. Elas têm direito a ter uma vida digna como a de outras crianças", declarou.

Mohammed Salem, funcionário do Ministério de Propriedade Islâmica, disse que "apesar de o islã proíbir viver entre túmulos, o Ministério começou a ser condescendente com as famílias que perderam seus lares durante a guerra de Israel em Gaza". Segundo ele, "a única solução é suspender o bloqueio, reabrir os cruzamentos e permitir a entrada de todo tipo de material de construção" para que os cemitérios sejam residência excluvisamente dos mortos.

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