Logo R7.com
RecordPlus

Guerra no Irã causou crise global de fertilizantes; saiba como isso nos afeta

Conflito no Oriente Médio pressiona insumos agrícolas, encarece alimentos e ameaça o agronegócio brasileiro

Internacional|Do R7

  • Google News

LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A guerra no Irã gerou uma crise global de fertilizantes, afetando o comércio de ureia, amônia, enxofre e gás natural liquefeito, essenciais para a agricultura.
  • O conflito impacta fortemente o Brasil, que importa mais de 90% dos fertilizantes que consome, principalmente da região afetada pelo conflito.
  • Os custos elevados dos fertilizantes estão levando produtores brasileiros a reduzir investimentos, afetando a produção de soja, milho e outras culturas.
  • O governo brasileiro busca alternativas para reduzir a dependência externa, mas a crise evidencia a vulnerabilidade do sistema global de fertilizantes a choques geopolíticos.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Brasil precisa importar mais de 90% do fertilizante consumido no país Wenderson Araujo/CNA - Arquivo

A guerra no Irã desencadeou uma nova crise global no mercado de fertilizantes e colocou em alerta produtores rurais, governos e empresas do agronegócio em diferentes partes do mundo. O principal foco de preocupação está no estreito de Ormuz, rota marítima estratégica por onde passa uma parcela significativa do comércio global de ureia, amônia, enxofre e gás natural liquefeito, que são matérias-primas fundamentais para a produção de fertilizantes utilizados na agricultura.

Segundo análises do International Food Policy Research Institute (IFPRI), cerca de 30% do comércio global de fertilizantes passou pelo estreito de Ormuz em 2024. Além disso, aproximadamente 20% do gás natural liquefeito negociado no mundo também depende da região. Com os ataques militares envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos, além das restrições à navegação no Golfo Pérsico, os preços de energia e fertilizantes dispararam rapidamente.


Leia Mais

A crise afeta especialmente os fertilizantes nitrogenados, produzidos a partir do gás natural. A ureia, um dos produtos mais usados no agronegócio mundial, está no centro das preocupações. Países do Golfo, como Irã, Catar e Arábia Saudita, concentram parcela importante da produção e exportação global desse insumo.

O impacto já começou a atingir a cadeia mundial de produção agrícola. Empresas de fertilizantes reduziram operações em diferentes países após a explosão dos custos do enxofre, utilizado na fabricação de fertilizantes fosfatados. A consultoria CRU classificou a situação do mercado de fosfato como “sombria”, enquanto produtores alertam para riscos de queda na produtividade agrícola e possíveis problemas de abastecimento alimentar em regiões mais pobres.


O jornal Financial Times informou que o preço do enxofre saltou de cerca de US$ 150 para até US$ 900 por tonelada em um ano. Grandes grupos, como Mosaic e OCP, reduziram a produção diante da dificuldade de obter matéria-prima e manter rentabilidade. Ao mesmo tempo, importadores passaram a disputar cargas no mercado internacional antes que a situação se agrave ainda mais.

O temor global é que o conflito provoque um efeito semelhante ou mais prolongado ao choque registrado após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia em 2022. Na época, o encarecimento dos fertilizantes pressionou custos agrícolas em todo o planeta. Agora, o cenário preocupa novamente porque os mercados seguem vulneráveis a interrupções geopolíticas.


Como a crise afeta o Brasil

No Brasil, os efeitos da crise são considerados especialmente graves por causa da forte dependência externa do país. Apesar de ser uma potência agrícola e um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, o Brasil importa mais de 90% dos fertilizantes que consome.

A situação é ainda mais delicada no caso da ureia. O Irã é um fornecedor estratégico para o mercado brasileiro, e o Catar também utiliza o estreito de Ormuz para escoar fertilizantes ao Brasil. Em 2025, cerca de 80% das importações brasileiras vindas do Irã estavam ligadas ao setor de fertilizantes.


O sistema logístico entre os dois países também ampliou essa relação nos últimos anos. Navios brasileiros exportam milho e soja ao mercado iraniano e retornam carregados com fertilizantes, em um modelo conhecido como barter, no qual produtores pagam pelos insumos com parte da safra futura. Com a guerra, essa engrenagem passou a enfrentar ameaças tanto comerciais quanto físicas, devido aos riscos no transporte marítimo e aos ataques sobre instalações petroquímicas iranianas.

Especialistas afirmam que os produtores rurais brasileiros já sentem os impactos do aumento dos custos. A ureia, que antes dos ataques estava em torno de US$ 350 por tonelada, passou para aproximadamente US$ 550. Ao mesmo tempo, soja e milho operam com preços bem mais baixos do que em 2022, reduzindo a margem de lucro do agronegócio.

O IFPRI destaca que Brasil e Argentina estão entre os países mais vulneráveis às interrupções no mercado global de fertilizantes, justamente por dependerem fortemente das importações.

Com custos mais altos, muitos produtores passaram a revisar investimentos e reduzir gastos com fertilizantes, sementes, máquinas e expansão de áreas agrícolas. Consultorias do setor já projetam desaceleração no crescimento da área plantada de soja no Brasil, além de possível retração em culturas como milho, arroz e algodão.

Veja Também

Impacto na carne, ovos e derivados

O impacto não fica restrito ao campo. Como soja e milho são bases importantes para a produção de ração animal, a alta dos fertilizantes pode provocar um efeito cascata sobre carnes, ovos e derivados. Economistas e entidades do agronegócio alertam que a inflação de alimentos pode ganhar força nos próximos meses caso o conflito persista.

Além da pressão sobre os alimentos, a crise também ameaça setores ligados à cadeia agrícola. Fabricantes de máquinas e equipamentos rurais projetam queda nas vendas diante da redução dos investimentos no campo. Produtores relatam adiamento de compras, suspensão de abertura de novas áreas e revisão de planos de expansão.

O cenário ocorre em um momento já delicado para parte do agronegócio brasileiro, que enfrenta juros elevados, crédito restrito, custos logísticos altos e margens mais apertadas. O setor representa cerca de um quarto do Produto Interno Bruto brasileiro, o que amplia o potencial impacto econômico da crise.

Analistas avaliam que os efeitos sobre a produção agrícola dependerão da duração da guerra e do bloqueio no estreito de Ormuz. Estudos citados pelo IFPRI indicam que, caso as restrições comerciais se prolonguem até o fim de 2026, as importações brasileiras de ureia podem cair mais de 27%.

Alternativas diante da crise

Diante do risco, o governo brasileiro e empresas do setor buscam alternativas para reduzir a dependência externa. A Petrobras retomou operações em fábricas de fertilizantes em Sergipe, Bahia e Paraná. O Ministério da Agricultura também negociou rotas alternativas de trânsito via Turquia para amenizar os gargalos logísticos no Golfo Pérsico.

Mesmo assim, representantes da indústria afirmam que o problema é estrutural. O Plano Nacional de Fertilizantes, criado em 2023, prevê reduzir a dependência externa do Brasil para 50% até 2050, mas o setor cobra medidas mais rápidas para ampliar a produção doméstica.

Enquanto isso, o mercado global segue pressionado. Empresas e governos tentam reorganizar rotas comerciais, ampliar estoques e buscar novos fornecedores. Porém, especialistas alertam que a concentração da produção mundial em poucos países mantém o sistema vulnerável a novos choques geopolíticos.

Para o IFPRI, a guerra no Irã representa o terceiro grande abalo no mercado global de fertilizantes em apenas seis anos, após a pandemia de Covid-19 e a guerra entre Rússia e Ucrânia. A crise provocada pelo conflito no Irã reforça como guerras podem rapidamente atingir a produção de alimentos, a inflação e a segurança alimentar em diferentes partes do mundo.

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.