Língua francesa se tornou um ponto de discórdia na disputa comercial entre Canadá-EUA; entenda
Premiê canadense rejeitou um acordo que ameaçava o francês, destacando a importância cultural e nacional do idioma
Internacional|Lex Harvey, da CNN Internacional
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À medida que uma guerra comercial entre os Estados Unidos e o Canadá se aproxima após o colapso das negociações na semana passada, surgiu uma questão fundamental que inflamou ainda mais as tensões entre os aliados de longa data: as leis da língua francesa.
O Canadá é um país bilíngue e possui leis que protegem ambas as suas línguas oficiais: o inglês e o francês, a primeira língua falada por cerca de um quinto da população, incluindo quase 85% da província do Quebec, que é predominantemente francófona.
Entre as leis, os rótulos dos produtos devem ser exibidos tanto em inglês quanto em francês, e as plataformas de streaming dos EUA devem apoiar e promover o conteúdo canadense (incluindo conteúdo indígena e franco-canadense) para o público ao norte da fronteira.
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As exigências linguísticas do Canadá há muito tempo são vistas pelos EUA como uma barreira comercial, mas geralmente são um limite inegociável para Ottawa — que o primeiro-ministro Mark Carney reforçou ao abandonar um acordo que, segundo ele, incluía “ameaças à língua e à cultura francesas”.
Na segunda-feira (24), Carney disse que o Canadá “não poderia aceitar” o acordo proposto, que teria enfraquecido as proteções à língua francesa, dizendo aos repórteres que seu governo “não dará (aos EUA) o que eles pediram”.
Muitos no Canadá apoiaram a decisão de Carney — e, em particular, seus comentários sobre a proteção da cultura francesa, uma parte central da identidade nacional do Canadá.
Depois que o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, chamou as preocupações de Ottawa sobre o francês de uma “história falsa e engraçada” na segunda-feira, o líder canadense negou que a questão fosse motivo de piada, dizendo que há uma “enorme lacuna entre a nossa perspectiva e a perspectiva dos EUA”.
“Para os americanos, a língua francesa, a cultura francófona, a cultura canadense são irritantes”, disse Carney em francês em uma coletiva de imprensa em Lévis, Quebec.
“Aqui no Quebec, aqui no Canadá, esses são direitos”, ele disse, enquanto um grupo de repórteres aplaudia.
Na terça-feira (25), Donald Trump negou que os EUA quisessem interferir nas leis da língua francesa do Canadá, enquanto também chamava o primeiro-ministro canadense de “fraco e ineficaz” em uma postagem na Truth Social.
“Eu nunca interferiria com os canadenses falando francês! Na verdade, eu nunca nem pensei em fazer uma coisa tão estúpida. Essa mentira foi inventada por um primeiro-ministro fraco e ineficaz em uma tentativa de ganhar apoio político, que ele perdeu totalmente, do povo do Quebec”, postou o presidente dos EUA.
Desde que as negociações estagnaram na sexta-feira (21), os EUA impuseram tarifas de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões (cerca de R$ 103 bilhões, na cotação atual) em mercadorias canadenses.
Carney inicialmente prometeu igualar as tarifas “dólar por dólar”, mas na segunda-feira disse que seu governo pode considerar uma abordagem mais direcionada para maximizar o efeito, dado o tamanho da economia americana.
“Tudo está na mesa”, ele disse em francês.
O ministro das Finanças, François-Philippe Champagne, e 3 outros ministros do Gabinete devem anunciar a resposta do Canadá às tarifas na terça-feira, incluindo medidas para proteger e apoiar os trabalhadores e empresas canadenses, de acordo com um comunicado do governo. A CNN Internacional entrou em contato com o escritório de Carney para obter mais detalhes.
Direitos linguísticos são parte vital da identidade canadense
Os direitos linguísticos estão arraigados na constituição do Canadá há décadas e são particularmente importantes para o Quebec, que tem lutado para proteger sua identidade linguística e cultural distinta em uma América do Norte dominada pelo inglês.
Essa busca às vezes colocou a província em desacordo com o resto do Canadá. O Quebec realizou 2 vezes um referendo sobre a secessão do resto do país, mais recentemente em uma votação de 1995, em que o lado do “não” venceu por uma margem muito estreita de apenas 1,16%.
As leis linguísticas incluem tudo, desde o direito dos canadenses de acessar serviços oficiais em ambos os idiomas até a exigência de que as empresas de cuidados com os cabelos exibam o francês “shampooing” ao lado do texto em inglês em seus frascos.
Para as empresas dos EUA que buscam fazer negócios no Canadá, isso significa barreiras adicionais, pois elas devem redesenhar as embalagens e pagar custos extras de produção.
Stewart Prest, professor no Departamento de Ciência Política da Universidade da Colúmbia Britânica, disse que pedir ao Canadá para flexibilizar essas regras “não é um pedido razoável ao governo canadense em uma negociação comercial”, e um ao qual o Canadá “não tem escolha a não ser dizer não”.
“As pessoas no Canadá falam francês. Não é um país em que todos falam inglês e algumas pessoas gostam de se aventurar no francês”, disse ele. “Não é tão diferente de pedir à França para relaxar sua exigência de que as embalagens devam incluir o francês.”
É comum que os trabalhadores do setor de serviços em Montreal cumprimentem os clientes com “Bonjour-Hi”.
Sob qualquer circunstância, seria incrivelmente prejudicial para Carney, que construiu um perfil global por enfrentar Trump, ceder em uma questão tão central para a identidade canadense, disse Stéphanie Chouinard, professora associada de estudos políticos no Royal Military College e na Queen’s University em Kingston, Ontário.
Mas a questão é particularmente grave com o Quebec a poucas semanas de uma eleição provincial onde o separatista Parti Québécois está crescendo nas pesquisas, disse ela.
O líder do partido disse recentemente que adiaria um possível referendo de independência até o fim do mandato de Trump — mas qualquer concessão nas leis linguísticas poderia “alimentar o sentimento separatista” na província onde a conversa sobre independência ficou em segundo plano, disse Chouinard.
Em desacordo com Washington
O Quebec implementou políticas nacionalistas rigorosas nos últimos anos para reforçar o francês como o único idioma da província, inclusive por meio da controversa lei linguística, Projeto de Lei 96, que inclui exigências mais rígidas para o francês em produtos, eletrodomésticos, embalagens e sinalização.
A legislação foi incluída na lista de 2025 de barreiras comerciais globais compilada anualmente pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA.
Os EUA também expressaram preocupações sobre a Lei de Streaming Online do Canadá, que exige que serviços de vídeo e música online invistam e promovam conteúdo canadense.
Washington também se opôs a outra regulamentação de streaming, conhecida como Projeto de Lei 109, aprovada no Quebec em dezembro passado, que obriga as plataformas de streaming a priorizar o conteúdo em língua francesa.
Em março, os EUA listaram a medida como uma barreira comercial potencial em seu relatório de estimativa comercial.
Greer, em uma entrevista à CNBC na segunda-feira, disse que os EUA não têm problema com a língua francesa, mas sim com o que ele chamou de “imposto discriminatório sobre empresas americanas”.
“Eu gosto dos quebequenses, e gosto que eles falem francês. O que não gostamos é de uma situação em que o governo federal do Canadá força as empresas de tecnologia americanas a pegar seus lucros e dar uma porcentagem aos seus concorrentes”, disse ele.
Para muitos no Canadá, a disputa levanta preocupações sobre a interferência americana na identidade nacional do Canadá.
A premiê do Quebec, Christine Fréchette, disse que Carney tomou a decisão certa ao se afastar da mesa de negociações.
“Nossa cultura, nossa língua, é central para nossa identidade, e é importante excluir isso da mesa de negociação”, disse Fréchette em uma coletiva de imprensa, de acordo com a parceira de coleta de notícias da CNN Internacional, a CBC News.
“Mesmo que sejamos ameaçados com tarifas diferentes, isso não vai mudar. Continuaremos do jeito que somos.”
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