Mesquita se transforma em necrotério e reduto de islamitas egípcios
Internacional|Do R7
Cairo, 15 ago (EFE).- Entre lágrimas e orações, milhares de seguidores dos Irmandade Muçulmana se postaram nesta quinta-feira na mesquita de Al Imã, no leste do Cairo, transformada em um necrotério improvisado com dezenas de corpos amontoados. Ao serem expulsos de suas fortificações de Rabea al Adauiya e Al-Nahda em uma violenta operação policial ontem, os islamistas buscaram um novo espaço no qual podem resistir às tentativas das autoridades de apagá-los do mapa. A mesquita era um ir e vir de homens e mulheres desesperados que culpavam os "golpistas" pela tragédia de quarta-feira, quando o desmantelamento desses acampamentos e os posteriores distúrbios deixaram pelo menos 525 mortos e 3.700 feridos em todo o país. "Mataram inocentes, são todos terroristas", gritava uma mulher que chorava na entrada do templo, cujas escadas estão cercadas por várias pessoas que garantem a saída dos caixões. Cada vez que um caixão era tirado dos ombros para ser colocado nas ambulâncias que esperavam nos arredores, a multidão gritava "Deus é maior", segundo a Agência Efe pôde constatar. Blocos de gelos também passavam para conservar os corpos que, envolvidos em toalhas brancas ensanguentadas, eram velados no interior da mesquita. A atmosfera dentro do templo estava muito carregada. O cheiro dos corpos se camuflava com incenso e ambientadores, enquanto grandes ventiladores tratavam de refrescar o local. Alguns membros colocavam gelo sobre os corpos, outros buscavam nas listas os nomes de algum familiar ou conhecido e a maioria orava pelos "mártires". Junto a um dos corpos, o jovem Mustafa Atef disse à Agência Efe que todos os mortos são "como seus irmãos" e que "os autores do massacre serão castigados". "Nossos protestos eram pacíficos. Por que irromperam nos acampamentos com essa violência? E depois dizem que nós somos os terroristas", lamentou. Alguns dos corpos estavam carbonizados e os congregados na mesquita denunciavam que se encontravam nesse estado porque as forças de segurança atearam fogo em um hospital de campanha da praça de Rabea Al Adauiya. Esta praça, que fica próxima a Al Imã, apresentava um aspecto desolador, com escavadeiras e caminhões retirando os últimos escombros e restos do grande acampamento dos partidários do deposto presidente Mohammed Mursi. A própria mesquita de Rabea al Adauiya foi incendiada, da mesma forma que o edíficio adjacente que os islamistas utilizavam como centro de imprensa e outro bloco de cinco andares no qual supostamente os feridos e vários corpos foram instalados. Centenas de curiosos vagavam pela praça entre os restos da batalha campal, frente a um grande desdobramento da Polícia Militar, que estava postada na entrada do templo. Alguns transeuntes agradeciam as forças da ordem pela atuação no dia anterior, que, segundo, o primeiro-ministro, Hazem el Beblaui, se caracterizou por uma "máxima contenção". Porém, a versão dos islamistas congregados em Al Imã é totalmente oposta, já que acusam a polícia de vestir os corpos de civis com uniformes para depois responsabilizar os manifestantes partidários de Mursi pela violência. As autoridades egípcias informaram sobre a morte de 43 agentes e, perante o aumento dos distúrbios em todo o país, decretaram estado de emergência durante um mês e toque de recolher em 14 províncias por tempo indefinido. Para a administradora Rawia Mukhtar, que afirma ser independente e ter ido à mesquita de Al imã para condenar o massacre, estas medidas de exceção supõem o retorno dos fantasmas do antigo regime de Hosni Mubarak. "O Egito volta a ser dominado pelos militares", assegurou à Agência Efe Mukhtar, que acrescentou que é impossível com esta polarização social e repressão governamental que o país se encaminhe à democracia. EFE mv/ff (foto) (vídeo)











