Militares limitam primeira aventura democrática em um Egito dividido
Internacional|Do R7
Enrique Rubio. Cairo, 17 dez (EFE).- A primeira experiência democrática do Egito terminou de forma abrupta em 3 de julho, quando os militares, movidos por maciços protestos, derrubaram o presidente islamita Mohammed Mursi após apenas um ano de mandato. A intervenção do exército, sob o comando do novo "homem forte" do país, Abdel Fatah al Sisi, marcou o epílogo de 12 meses do conturbado governo islamita, acossado por uma opinião pública hostil e estruturas estatais que nunca viram com bons olhos a influência da organização religiosa Irmandade Muçulmana, da qual Mursi emergiu. A errática gestão do governante e da Irmandade à frente do país facilitou a tarefa de seus adversários. O ponto de partida da contestação contra Mursi foi seu mais que polêmico "decreto", com o qual, em novembro de 2012, blindou seus poderes na Justiça. Outras manobras discutíveis de Mursi, como nomear um dirigente da Gamaa Islamiya (antigo grupo terrorista) para governador da turística província de Luxor, criaram mais mal-estar entre os militantes, que foram instigados pelos meios de comunicação. O temor de que a Irmandade Muçulmana se convertesse em um poder hegemônico e impusesse sua agenda islamita se estendeu até culminar nas manifestações que, em 30 de junho, levaram milhões de egípcios às ruas para exigir a renúncia de Mursi. O grande agitador dos protestos foi um grupo de jovens de filiação variada que lançou a campanha "Tamarrud" (Rebelião) com a qual recolheram, segundo eles, mais de 22 milhões de assinaturas contra Mursi. Mas nem sequer nesse dia os países ocidentais se atreviam a cogitar que as Forças Armadas iriam intervir de maneira decisiva na crise, apesar das advertências de Sisi. Expirado o prazo de 48 horas que os generais deram a Mursi para que convocasse eleições antecipadas, Sisi apareceu na televisão, cercado pelos líderes religiosos do país e por representantes políticos laicos e salafistas, para dar o golpe de misericórdia ao presidente. As Forças Armadas destituíram Mursi, suspenderam a Constituição e anunciaram que o presidente do Tribunal Constitucional, Adly Mansour, assumiria de forma provisória a Chefia do Estado. Enquanto milhares de egípcios realizavam a manobra na simbólica Praça Tahrir, os simpatizantes da Irmandade Muçulmana e seus aliados resistiram a assumir suas consequências, e conseguiram se organizar em maciços acampamentos em duas praças do Cairo. Em 18 de agosto, após várias advertências por parte dos militares, a repressão das manifestações islamitas acabou no maior banho de sangue da história recente do país. Apesar de os números oficiais nunca terem sido confirmados, calcula-se que mais de mil pessoas morreram pelas mãos das forças de segurança, principalmente na praça de Rabea al Adauiya, transformada desde então em um ícone para os seguidores de Mursi. Ao mesmo tempo em que os protestos ocorriam, o novo regime enfraqueceu a Irmandade Muçulmana, cujos líderes foram detidos. O próprio Mursi foi capturado pelos militares antes do golpe e retido em paradeiro desconhecido até o começo de seu julgamento, em 4 de novembro, acusado de incitar, junto com colaboradores, o assassinato de manifestantes opositores. Até o momento, o líder deposto resistiu a negociar uma saída para a crise e sustenta, como fez no começo de seu julgamento, que é o presidente legítimo do Egito. No entanto, as novas autoridades continuaram a aplicação de seu roteiro, cujo primeiro passo é a aprovação de uma nova Constituição, que já foi redigida e agora deve ser aprovada em referendo. A nova Carta Magna deveria estabelecer os fundamentos para as próximas eleições parlamentares e presidenciais (suas datas ainda não foram anunciadas), embora as dúvidas sobre o papel do Exército no novo Egito tenham disparado desde a derrubada de Mursi. A aprovação de uma restritiva lei de manifestações por parte do governo interino levou às ruas os ativistas laicos - muitos dos quais tinham apoiado o golpe -, que temem agora que o poder acumulado pelas Forças Armadas, apoiadas por uma Constituição afim, devolva o país aos tempos do ditador Hosni Mubarak. O êxito da transição rumo à democracia dependerá em grande parte da capacidade das novas autoridades de estabilizar o país economicamente. O Egito deixou as negociações com o Fundo Monetário Internacional por causa das impopulares reformas que exigiam, mas conseguiu suprir os muito necessitados cofres com a injeção financeira recebida de países do Golfo, prontos a ajudar na era Mursi. Outras ameaças como a crescente atividade terrorista na Península do Sinai lançam ainda mais dúvidas sobre o futuro próximo do Egito, que, quase três anos após derrubar Mubarak, não conseguiu pôr rumo claro à democracia. EFE er/ff/id













